Escrita criativa (9): a ação é a base de qualquer história

Uma história nasce da soma entre conflitos e mudanças. Um personagem quer alguma coisa, não consegue de imediato por algum imprevisto ou obstáculo, e então a situação inicial (de um ou mais personagens) é modificada. Ou seja: coisas precisam acontecer em uma história. Entretanto, não basta qualquer coisa acontecer: precisamos diferenciá-las entre duas categorias.

(Já escrevi sobre personagens na série sobre escrita criativa aqui e aqui)

Atividade é aquilo que o personagem faz e que não possui impacto nenhum na história. Escovar os dentes, ir ao banheiro, acender um cigarro, fumar lentamente enquanto olha para o horizonte, coçar a barba. As atividades são muito úteis para o escritor: elas ajudam a descrever como cada personagem age e facilitam a percepção do leitor. Digamos que as atividades são um tempero: na medida certa, acrescentam sabor à história, mas não são o prato principal.

Ação dramática é aquilo que o personagem faz e que tem algum impacto na história, aquilo que não pode ser ignorado, que vai gerar algum tipo de efeito sobre outros personagens. Um personagem acender um cigarro não tem impacto nenhum, salvo se for dentro da ala pediátrica de um hospital, ou se em seguida ele apagar a bituca no olho de um paciente. Se as atividades são o tempero, as ações dramáticas são os pratos principais da história.

Mas como saber se o que o personagem está fazendo é atividade ou ação dramática? Observe as consequências. Caso determinada atitude do personagem não afetar nem a ele nem a mais ninguém, será atividade. A ação dramática sempre pede uma reação.

E por que é importante fazer essa distinção? Simples: porque atividades não sustentam histórias. Se não há consequências em jogo, também não há motivo para o leitor acompanhar o texto.

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Uma super cena de um cara surfando só para mostrar que ele é legal não é ação dramática nem avança a história – a não ser que outro personagem interfira

Mapeando as ações de uma história

Um bom jeito de analisar a própria história é mapear as ações que acontecem nela. Faça uma lista com todas as ações dramáticas na história. Uma parte significativa delas necessariamente tem que envolver o protagonista, ou seja, o personagem que acompanharemos durante a história, aquele que tem mais a perder (ou a ganhar, se for bem-sucedido). Isso não quer dizer que todas as ações serão do protagonista, mas no mínimo algumas precisam ser. Do contrário, o protagonista seria, na verdade, coadjuvante de sua própria história.

Com a lista feita, será possível observar a estrutura da história e avaliar algumas questões.

A primeira delas é a ordem dos acontecimentos, que pode ser modificada conforme o objetivo planejado pelo escritor. Podemos começar a história da Chapeuzinho Vermelho com o lobo prestes a devorá-la e então retornarmos ao passado, mostrando como aquela situação se desenhou. Esse é um recurso muito utilizado em filmes e seriados, pois nos coloca frente a frente com uma cena impactante e posterga a sua resolução, aumentando a nossa ansiedade.

A segunda questão que podemos avaliar são as reações às ações dramáticas. Se um homem dá um tiro no filho do delegado, como o delegado reage? A reação deve ser proporcional à ação e multiplicada pela personalidade do delegado. Se for um homem explosivo, nós leitores esperaremos uma reação explosiva. Muitas histórias falham em cativar seus leitores porque as ações passam impunes, ou porque os personagens parecem imunes aos desafios impostos pelas ações dos outros personagens (razão pela qual eu nunca gostei do Super-Homem).

Por fim, podemos observar a estrutura de nossa história em busca dos pontos com maior profundidade emocional. Uma história costuma puxar nossas expectativas e emoções a níveis cada vez mais altos, num crescendo constante que chega ao máximo no clímax, o último desafio ou situação de conflito que se coloca no caminho do protagonista. Se o primeiro conflito enfrentado por um personagem for o maior de todos, os conflitos seguintes serão enfraquecidos por comparação. E, sabendo quais são os pontos mais impactantes de nossa história, podemos ampliá-los, maximizando a emoção.

Planejando uma história com o mapa das ações

Teve aquela ideia brilhante para uma história e quer escrevê-la? Um jeito possível é sentar e sair produzindo. Nesse caso, aconselho a fazer um mapa das ações depois que escrever o último ponto final. Se, porém, tu gosta de planejar, então é possível começar por um mapa das ações dramáticas, mesmo que a tua ideia inicial seja de algo que acontece no meio da história.

Mapeando as ações, é possível antecipar quais serão as consequências de cada ação (a partir dos personagens) e, retroativamente, construir quais as condições de produção de cada uma daquelas ações. Digamos que eu imaginei uma história em que um homem se apaixona por outro durante uma sessão de shiatsu (imaginei e escrevi, aliás, para ler é só clicar aqui). Essa ideia dá conta de uma cena, no máximo. Porém, com ela em mente, podemos imaginar o que veio antes – como os dois chegaram até o momento em que estavam juntos em uma sessão de shiatsu? – e o que virá depois. Esse conjunto de situações, composto por algumas ações dramáticas, é o que criará uma história.

Uma história dificilmente será boa se as ações dramáticas não demandarem reações poderosas. Isso não significa que tudo precisa ser como vulcões em erupção. Basta, na verdade, que se tratem de ações importantes para determinados personagens, mesmo que pareçam insignificantes aos olhos do resto do mundo.

Nós, escritores, só precisamos colocar os personagens no jogo e riscar o fósforo dramático. Se bem criados e colocados sob pressão, os personagens saberão o que fazer até a história ser concluída.

 


 

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