Escrita criativa (4): personagem

A parte mais importante de qualquer história são as personagens.

Há quem diga que não, que a história é o mais importante. Então eu pergunto: os mesmos conflitos e acontecimentos produzirão a mesma história com personagens diferentes? Não. Por quê? Porque se forem personagens bem construídas, terão reações diferentes aos mesmos estímulos.

Imaginemos uma cena: a personagem em casa, homens armados avançando pelo corredor do prédio e batendo à sua porta. O que ela faz? Se for um ex-espião foragido, talvez se arme para enfrentá-los. Se for uma dona de casa, derruba as panelas e começa a chorar. Se for um garotinho, poderá se trancar no banheiro ou se esconder embaixo da cama. Se for um garotinho com treinamento militar, poderá se fingir de inocente até encontrar uma situação em que possa escapar e enfrentar os homens armados.

Se a história não muda quando mudamos as personagens, isso já é uma pista de que não criamos bem nossas personagens.

A importância de conhecer nossa personagem

Há anos estou tentando escrever um romance sobre um relacionamento entre três pessoas. Decidi que era necessário organizar as cenas desta história, de modo a conhecê-la mais ou menos do início ao fim (para isso, usei o método do floco de neve). Antes de rabiscar as cenas, eu havia rascunhado as personagens principais.

Quando terminei as cenas, percebi algo: para a história que eu havia planejado, a personagem principal não servia, pois jamais teria o tipo de ações que eu havia desenhado para ela. Essa minha personagem não era, como pensei inicialmente, recatada, puritana e com medo da vida.

Foi neste dia que senti a importância da personagem para uma história. Até então era coisa de livro, “a personagem é que conduz a história”. Somente quando tentei enfiar uma personagem à força na história (e graças aos deuses percebi sem muita demora, com só alguns anos de atraso) é que essa ideia ficou clara para mim.

Nesse caso específico, eu tinha em mente uma história na qual gostaria de encaixar minhas personagens.

Se criamos primeiro a história, precisamos adequar as personagens a ela. Há um risco grande, nesse processo, de criarmos personagens clichês, sem vida ou personalidade própria. Sem humanidade. Às vezes nos apaixonamos pelos acontecimentos que planejamos e perdemos de vista que eles serão vividos por alguém. Esse alguém precisa ter motivações próprias, valores pessoais e pensamentos particulares.

O leitor percebe, mesmo que não saiba apontar, quando uma personagem é rasa e sem perspectiva. Em geral isso acontece junto a uma sensação de que há algo errado com a história. Antes de qualquer coisa, uma história deve ter verossimilhança, ou seja, aquele gostinho de que poderia ser de verdade. Isso vale até mesmo para ficções futuristas e fantasiosas. O importante não é que possa ser verdadeiro no nosso mundo, mas sim dentro do universo criado naquele livro ou filme em particular.

Até aqui, espero que já estejamos concordando que as personagens são a parte mais importante de uma história. Agora nos voltamos a uma questão fundamental: como criar boas personagens?

Vitruvian_pik

Como criar uma boa personagem

O que dá vida para uma personagem? Podemos nos perguntar isso a partir do nosso cotidiano: qual é o momento em que deixamos de ver uma pessoa como um estereótipo (o dono do bar, a mulher da xerox, o motorista do ônibus) e passamos a entendê-la como um sujeito com vontades e vivências próprias?

Quando conhecemos algo que é só dela, um detalhe no meio da generalização.

O mais óbvio é o nome. Cada personagem tem um nome próprio e, excetuando casos raros de homônimos, esse nome é único. O nome da personagem, aliás, já diz algo sobre quem ela é e sobre as escolhas de seus pais (como a psicanálise nos ensina, os pais costumam ser importantes para a nossa formação psicológica). Uma personagem chamada João da Silva, por exemplo, nos sugere de antemão um contexto social e econômico para o surgimento desse nome.

Além do nome, precisamos pensar em outras questões. Convém partirmos do geral para o específico quando trabalhamos com descrição de personagens. Desta forma, o raciocínio segue a lógica à qual estamos acostumados. João da Silva, o dono do bar, precisa ter algo que o separe do estereótipo de donos de bar. Do contrário, ele não terá profundidade.

Então vamos pensar em valores. No que João da Silva acredita? Quais são as coisas mais importantes para ele? É importante termos no mínimo dois valores para cada personagem, de preferência conflitantes. Por quê? Porque histórias se alimentam de conflitos, sejam pessoais ou não, e porque nós seres humanos vivemos em dúvida sobre o que fazer.

Para nosso amigo João da Silva, dono do bar, o trabalho será a coisa mais importante na vida. Porém, ele também considera a coisa mais importante da vida a sua família, sua esposa e três filhos. Pronto, com dois valores básicos já temos uma personagem que se dedica muito a duas coisas: ao trabalho e à família. Como tempo é um só, começamos a pensar de que modo João se organiza para que seus valores sejam contemplados. Será que a família trabalha com ele? Poxa, legal, então ele dispõe de seu tempo cuidando das duas coisas que são mais importantes para ele: família e trabalho.

Depois dos valores, nossa personagem precisa ter ambições que possam ser configuradas em um objetivo. Toda personagem precisa querer alguma coisa, buscar algo que ainda não tenha ou não seja. Se não tiver isso, provavelmente não haverá nada em jogo e o leitor vai largar a história na terceira página (eu largo geralmente na primeira, se não curti). Uma história em que nada aconteça não é uma história, é no máximo a descrição de uma situação ou algo assim. “Aquela família era feliz e todos estavam contentes com a vida que tinham” só se torna uma história quando algo interrompe essa situação.

João da Silva quer ampliar o seu negócio, ser dono de uma rede de bares que servem o seu prato secreto, o feijão doce. Como para ele nada é mais importante do que o trabalho, essa ambição condiz com os seus valores. A esposa e os filhos o apoiam. Que ótimo, pois nada para ele é mais importante do que a família! Até que… é nesse ponto que uma história começa a se desenhar: algo acontecerá com João da Silva, um algo que desafiará seus valores. Digamos, por exemplo, que João conhece uma empresária chamada Elisa. Mulher firme e sensual, ela faz uma oferta: se João transar com ela, terá seu empreendimento financiado. Pronto: os dois valores de João da Silva estão em conflito: o trabalho pode prosperar, mas para isso ele precisa ferir a família. Para piorar: se ele não aceitar, Elisa usará seus recursos para prejudicar o seu trabalho. Pronto: agora João da Silva precisa decidir o que é mais importante para ele, o trabalho ou a família. Temos já o esboço de uma história a partir de algumas personagens rabiscadas rapidamente.

Aliás, sobre isso é importante reforçar: a personagem Elisa até agora é completamente rasa. Quem é essa mulher que entra na vida de João da Silva e oferece pagar por sexo? O que ela quer, de onde ela vem, quais são seus valores? Esse pequeno exemplo do parágrafo anterior não nos deu ferramentas para conhecê-la, mas é importante que isso seja pensado cuidadosamente, a fim de evitar que ela seja uma personagem incoerente ou inverossímil (os dois maiores perigos para a escrita).

O importante nesse processo de criação da personagem é entender que duas coisas dão vida às personagens: a particularidade e a contradição. Ninguém que vale a pena seguir (num livro, por exemplo) é completamente plano e previsível ou igual a todo mundo. Se for, a história dificilmente será boa.

Nós nos identificamos com as personagens porque há algo de nós nelas. Eu leio histórias com personagens homossexuais, por exemplo, porque me identifico com os conflitos e desejos gerais de quem é homossexual. Contudo, é necessário que a personagem seja mais do que o estereótipo, a começar porque nem todo homossexual é igual. Tenho vários amigos gays que são absolutamente diferentes de mim: o ser gay é um traço geral de cada uma dessas personagens.

Algo que é muito útil para criarmos personagens é misturar pessoas que conhecemos em nossas vidas. Não vale a pena tentar copiar uma pessoa específica, ao menos na ficção, já que nós não compreendemos o seu mundo interior e corremos o risco de criar um bolo de estereótipos. Perceber o outro é muito difícil. Porém, quando construímos alguém somando características de outras pessoas, estamos remexendo em um terreno cheio de potencialidades.

O escritor deve conhecer todas as personagens que aparecem na história. Quem são, o que fazem, o que querem, o que não querem, o que já viveram etc. Esse é um processo exaustivo, mas enriquecedor. Nem toda personagem tem a mesma importância em uma história, mas convém perceber que todas têm essa centelha de humanidade. A não ser, é claro, que a função daquela personagem naquela cena específica seja desempenhar um papel estereotipado. Isso sem dúvida é possível, mas é fruto de uma escolha consciente.

Como escrevi no primeiro capítulo desta série, a escrita não acontece por mágica. O escritor tem o dever de saber explicar por que cada uma das palavras está no texto, por que cada uma das personagens age ou pensa de tal e qual forma. O escritor precisa saber muito mais do que aquilo que escreve.

Exemplo fundamental: J.K. Rowling sabia que Dumbledore era gay. Isso não apareceu nos livros, mas era uma característica importante da personagem. Nós, leitores, não podemos dizer que Dumbledore era gay ou hetero, pois nada na história nos indicava isso. Na história, não temos elementos para sugerir uma orientação sexual para o diretor de Hogwarts. Contudo, J.K. sabia e escreveu com isso em mente. Esse é o nosso trabalho: saber mais do que aquilo que revelamos por meio da escrita.

Há muito mais a se falar sobre personagens: descrição física, os arquétipos da jornada do herói etc. Contudo, não pretendo esgotar esse tema hoje. Ficaram dúvidas sobre esse processo? Tem sugestões sobre como criar personagens? Por favor, deixe um comentário…

Exercício: que tal criar uma personagem dentro do esquema que sugeri? Rabisque uma personagem respondendo às seguintes questões: Quem é ela? O que ela faz? Quais estereótipos poderiam descrevê-la inicialmente? Há alguma característica que a distinga de outras personagens? Quais são os seus valores, as coisas que lhe são mais importantes (pense em no mínimo dois)? Quais são suas ambições e os seus objetivos?

Se quiser, deixe nos comentários a personagem criada e eu comentarei num texto futuro.

6 comentários em “Escrita criativa (4): personagem

  1. Rapaz,

    Estou no meio do processo de escrever um livro e não é que esse post veio mais do que a calhar? Vou acompanhar o blog e assuntar os outros textos sobre o assunto. Tenho certeza de que me serão muito úteis.

    Abs!

  2. Mais um texto super útil, Tales.
    Uma coisas que você pôs, que venho percebendo em livros e seriados mas nunca havia parado para pensar ou frasear:

    “Antes de qualquer coisa, uma história deve ter verossimilhança, ou seja, aquele gostinho de que poderia ser de verdade.”

    Muito bem colocado. Até na ficção, quanto mais real (ou quanto mais verossímil) é a história, mais interessante ela se torna.

    Outra coisa muito vantajosa (que eu percebo) em se criar um perfil rico das personagens, é o fato de podermos revelar um pouco do background dela em um momento propício da escrita. Desta forma, o leitor percebe que há uma profundidade no conto, tornando a ficção mais real e, assim, mais interessante.

    • Tem razão, Jon! Criar um histórico para as personagens nos ajuda a entender suas motivações e, no momento certo, podemos dar pistas desse passado, ajudando o leitor a reconhecer personagens bem construídas.

      O melhor é perceber que a verossimilhança não tem nada a ver com algo ser real ou não, mas sim com a possibilidade de ser real. =)

      • “O melhor é perceber que a verossimilhança não tem nada a ver com algo ser real ou não, mas sim com a possibilidade de ser real.”

        Sim. Concordo plenamente.

        Quando eu disse “mais real”, quiz dizer mais verossímil (meu erro de expressão). Ou seja, um fato sendo fictício mas tendo o mesmo valor/peso/voz que teria na realidade (caso fosse real). Ou seja, o que você recomendou é, de fato, a melhor opção (risos).

        Abrçs!

  3. Pingback: Escrita criativa (8): personagem II - Tales Gubes

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