Como fazer a revisão de um texto (2)

Escrever bem exige paciência. É como um relacionamento: o tempo e as experiências aprofundam a qualidade das trocas possíveis. Ter pressa para concluir uma história é uma péssima ideia, assim como jogá-la no mundo logo depois de alcançar o ponto final.

(Este é o segundo texto da série Como fazer a revisão de um texto. O objetivo da série é mostrar aos leitores como ler um texto de forma crítica e buscar maneiras de melhorá-lo. A série não tem nenhuma pretensão de mostrar “como escrever certo”. O que apresento aqui é o cuidado que tenho com os textos nos encontros do Ninho de Escritores.)

A recepção ao texto anterior da série foi muito legal, bastante gente curtiu e ele já é o texto mais acessado aqui do meu site. Muitos elogios, mas também algumas críticas, em especial pela escolha do termo revisão. Para quem trabalha com revisão de textos, há uma separação entre a figura do preparador de originais, ou copidesque, que trata o texto antes de sua publicação e atenta para a gramática e para a estrutura, e o revisor de texto, cuja função é passar um último olhar sobre o material já diagramado, mas sem indicar alterações na estrutura. Para uma compreensão melhor destas diferenças, indico o Revisão para quê?.

Revisão ninho escritores

A revisão do texto Cílios

O texto de hoje é do Emille, que participa do Ninho de Escritores. Como no artigo anterior, começo trazendo o texto inteiro, e então comento-o pedaço a pedaço.

CÍLIOS

O café da garrafa térmica acaba.
Finaliza com aquele barulho que odeio
quando aperto o botão e saem apenas bolhas.
Sinto falta dela.
Ela que fazia café para mim.
Sempre errado, sempre colocando açúcar.
Mas eu sentia um certo carinho naquele amargor todo.
Naquela rotina honesta e escassa.
O dia começava com um bom dia econômico.
Uma mera olhada de lado, um desprezo superficial.
Eu, pelo bater dos seus cílios, podia dizer se transaríamos ou não.
Fazer amor era pedir demais, dependia de uma série de fatores sequenciais.
Adorava ouvir o barulho do chuveiro, o barulho da água batendo nela.
Podia também ouvir seu suspiro profundo e irritado
pela impossibilidade de acertar a temperatura da água.
Se deixasse eu até gozava com tudo aquilo.
À mesa, café e pão – duro como nossa realidade.
Café, pão e o celular dela.
Maldito aparelho. Preferia que fosse
um vibrador a me desafiar como macho.
Eu a olhava. Minha vontade era de fodê-la o dia inteiro.
A vontade dela era que a porra da bateria durasse o dia inteiro.
Depois disso, era sempre a mesma coisa:
ela se levantava, pegava bolsa, chaves e me beijava da boca ao pescoço.
O suficiente para me enlouquecer.
Toca o alarme.
A cafeteira com timer já fez o café, obviamente.
A ponta do jornal aparece por debaixo da porta.
O sol abundante entra pela janela.
E, por um instante, sinto falta da inexistência dela.

A primeira pergunta que sempre faço a um texto de ficção é: o que está acontecendo aqui? Temos um personagem amargurado, saudoso de uma relação que não existe mais. Há também uma segunda personagem, que só existe na memória do primeiro, ou seja, não sabemos se o que ele diz sobre ela corresponde à verdade ou não. Esse recurso é ótimo para criar realidades nas quais o leitor não pode confiar. Sempre que uma história é contada a partir da perspectiva de um personagem específico, há espaço para equívocos e distorções.

Mas sabe onde não faz sentido existir distorção? No título de uma história. Ao contrário de uma criança, a quem damos o nome muito antes de sabermos como ela será no futuro, um texto já está pronto quando é nomeado. E, por ser o primeiro contato com o leitor, o título tem a função de criar as primeiras expectativas sobre o que acontecerá naquela história e o que é importante para compreender ou sentir as ideias e emoções costuradas pelo escritor.

Quando Emille escolheu Cílios como título, a expectativa criada é a de que, em algum ponto, cílios terão algum papel importante na história. Isso não acontece. O que acontece é uma frase que é forte (“pelo bater dos seus cílios, podia dizer se transaríamos ou não”), mas coadjuvante no texto.

O título e o começo da história são fundamentais porque eles estabelecem as regras do jogo, o modo como o leitor deve proceder para interagir com o texto. A série Harry Potter (e aqui vai um spoiler gigantesco, então pule este parágrafo caso ainda não conheça a história e pretenda lê-la com o frescor da novidade) poderia se chamar Neville também sobreviveu, fazendo alusão a um fato secundário na trama. Imagino que o exemplo já demonstre o quão frustrante pode ser um título que não aponte algo importante na história.

Já que estamos falando do começo, olhemos novamente as duas primeiras frases do texto:

O café da garrafa térmica acaba.
Finaliza com aquele barulho que odeio
quando aperto o botão e saem apenas bolhas.

Quando lemos este texto no encontro do Ninho, tivemos a mesma impressão sobre a garrafa térmica. Enquanto Emille usou como referência uma garrafa térmica de onde ele trabalha, nós reconhecemos o barulho que odeio quando aperto o botão e saem apenas bolhas não de uma garrafa térmica e sim de uma cafeteira. Até poderia ser uma confusão irrelevante (verdade seja dita: nenhuma confusão de leitor é irrelevante), mas no final do texto aparece uma cafeteira (novamente). Melhor evitar dúvidas e tornar a garrafa térmica em uma cafeteira, especialmente porque isso ajuda a criar um anzol.

Este texto acontece em dois tempos: no presente, com o café acabando e um novo sendo feito, e no passado, quando havia uma relação entre os dois personagens. A troca entre presente e passado é feita com muita habilidade por intermédio de um mesmo elemento, que leva o leitor às memórias do protagonista e depois puxa de volta: a cafeteira. Chamo isso de anzol, pois lança um flashback preso a um elemento que, quando puxado, nos trará de volta mantendo a sensação de continuidade.

A função do anzol é garantir que haja uma conexão visível entre um movimento feito no tempo ou no espaço durante a narrativa. Isso garante que as mudanças não sejam súbitas e que os leitores não fiquem tontos na tentativa de acompanhar a história (podemos deixar isso para as montanhas-russas).

O dia começava com um bom dia econômico.

Bom dia, nesta frase, é uma fala. Se estivesse entre aspas, nós compreenderíamos isso sem problemas. Colocada como está, porém, a fala nos obriga a reler, o que gera um pequeno desconforto. O dia começava com um bom dia é uma frase ruim, redundante, dolorida. Reconhecemos que não pode ser assim e transformamos o bom dia em diálogo, mas não sem antes perder preciosos milésimos de segundo de fluxo na leitura. Como resolver sem colocar aspas? Um jeito seria escrever Bom dia, com “b” maiúsculo, o que ajuda a separar o diálogo do restante da frase.

Junto com a clareza, a coerência é uma das qualidades imprescindíveis em uma história. No caso deste texto, a narrativa é feita pelo protagonista. Observemos como ele trata as coisas:

Maldito aparelho. Preferia que fosse
um vibrador a me desafiar como macho.
Eu a olhava. Minha vontade era de fodê-la o dia inteiro.
A vontade dela era que a porra da bateria durasse o dia inteiro.

O protagonista é um bruto, fala grosso, xinga. Ele quer fodê-la, não transar com ela ou fazer amor. Ainda assim, frases antes, lemos:

Eu, pelo bater dos seus cílios, podia dizer se transaríamos ou não.
Fazer amor era pedir demais, dependia de uma série de fatores sequenciais.

O verbo transaríamos e a frase uma série de fatores sequenciais parecem fugir do estilo de alguém que fala fodê-la, a porra da bateriame desafiar como macho. Em um texto maior, no qual pudéssemos nos aprofundar no conhecimento sobre o protagonista, essa variação talvez pudesse ser explicada e inclusive aproveitada a favor da construção de um personagem complexo. Em um texto de 237 palavras, porém, há pouco espaço para esse nível de variação.

E, por um instante, sinto falta da inexistência dela.

O final de um texto é o equivalente ao instante em que as cartas se revelam em uma partida de truco: o que tinha para ser mostrado é mostrado, alguns jogadores fogem com as cartas escondidas e tudo o que estava em jogo é resolvido. Existem muitas formas de encerrar uma história, e neste caso o autor optou por semear uma reflexão. Contudo, o que significa sinto falta da inexistência dela depois de um texto em que o personagem se lamenta pela solidão? Ele sente falta da presença, não da ausência da outra personagem.

O texto depois da revisão

Depois da leitura e revisão do texto, Emille fez algumas modificações e me encaminhou a nova versão. Aqui está:

AROMAS DO CAFÉ

O café da garrafa térmica acaba.
Finaliza com aquele barulho que odeio
quando aperto o botão e saem apenas bolhas.
Sinto sua falta.
Ela que fazia café para mim.
Sempre errado, sempre colocando açúcar.
Mas eu sentia um certo carinho naquele amargor todo.
Naquela rotina honesta e escassa.
O dia começava com um “bom dia” econômico.
Uma mera olhada de lado, um desprezo superficial.
Pelo bater dos seus cílios, sabia se íriamos trepar ou não.
Fazer amor era pedir demais.
Ocasional demais, emergencial demais, proposital demais.
Adorava ouvir o barulho do chuveiro, o barulho da água batendo nela.
Podia também ouvir seu suspiro profundo e irritado
pela impossibilidade de acertar a temperatura da água.
Se deixasse eu até gozava com tudo aquilo.
À mesa, café e pão – duro como nossa realidade.
Café, pão e o celular dela.
Maldito aparelho. Preferia que fosse
um vibrador a me desafiar como macho.
Eu a olhava. Minha vontade era de fodê-la o dia inteiro.
A vontade dela era que a porra da bateria durasse o dia inteiro.
Depois disso, era sempre a mesma coisa:
ela se levantava, pegava bolsa, chaves e me beijava da boca ao pescoço.
O suficiente para me enlouquecer.
Toca o alarme.
A porra da cafeteira já fez o café, obviamente.
A ponta do jornal aparece por debaixo da porta.
O sol, irritante, pela janela.
Sinto a falta dela.

A estrutura mudou muito pouco, mas algumas palavras aqui e ali já modificam bastante a experiência da leitura. Quero destacar duas mudanças.

A porra da cafeteira já fez o café, obviamente.

A porra da cafeteira já não é uma cafeteira com timer. Antes, ser uma cafeteira com timer era uma característica irrelevante, não acrescentava nada para o leitor. Já a porra da cafeteira nos mostra a relação emocional do personagem com o objeto que simboliza a ausência da “namorada” (entre aspas porque o relacionamento entre os dois não foi explicitado).

O sol, irritante, pela janela.

Assim como o timer da cafeteira não dizia nada sobre a relação do personagem com ela, o sol abundante de antes era apenas uma característica solta. O sol irritante, por sua vez, nos conta mais um pedacinho da relação do protagonista com a vida.

Fazer a revisão não é seguir ordens

Fazer a revisão de um texto não significa acatar todas as sugestões de leitores e críticos, amadores ou profissionais. Enquanto estudamos as palavras que utilizamos e as expressões que construímos, vamos aprendendo mais sobre o que dissemos em contraponto com o que queríamos dizer. Algumas vezes, a nossa intenção estava adequada e queremos manter o texto da maneira como o escrevemos.

Eu, pessoalmente, não gosto da garrafa térmica no início do texto. Emille, o autor do texto, optou por preservá-la. Como autor, é dele a palavra final sobre o que deve ficar e o que deve ser modificado, e essa clareza sobre a própria intenção com o que se escreve é fundamental para um escritor.


Este texto foi resultado da experiência vivida no Ninho de Escritores. Quer ter um texto revisado e comentado aqui no site? Entre em contato. Quer ser acolhido e melhorar tua escrita? Entre em contato. Criticar, agradecer, comentar, sugerir? Entre em contato.

No próximo domingo rolará o Expresso São Paulo, curso intensivo com as ferramentas e técnicas do Ninho de Escritores. Dia 7 de março será a vez do Expresso Rio de Janeiro, para o qual ainda temos vagas. E dia 28 de março ocorrerá o Expresso Porto Alegre.

5 comentários em “Como fazer a revisão de um texto (2)

  1. Amo os textos desta série!
    Quando leio a obra pronta de um bom autor, nem me ocorre o tanto de trabalho que ele teve com a revisão. Um dos meus desafios com a escrita é vencer a pressa de “jogar o texto no mundo”, como você colocou. Esse artigo, para mim, veio cheio de “abrolhos”. Como diria minha tia da igreja: esse texto foi uma benção. kkk
    Abrçs

  2. muito legal a série.
    e parabéns para o Emille, ficou bem bacana o texto dele.
    (e concordo com ele sobre a térmica, rs)

  3. Muito relevante as formas de como revisar um texto, estou revisando os meus, são contos imensos e da uma preguiça enorme de fazê-lo. rs. Obrigada!
    Entendi a garrafa térmica como elemento crucial do passado, em que demonstra que a moça passava o café para ele e que agora ele o faz sozinho na porra da cafeteira.

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