Escrita criativa (8): personagem II

(Este texto pertence à série sobre Escrita Criativa e foi escrito para o Ninho de Escritores. Os outros textos, inclusive mais um sobre personagens, podem ser encontrados aqui.)

Toda história acontece com alguém. Pode ser com um cara normal, como você e eu, com a presidente de uma empresa de petróleo, com um coelho falante, com um robozinho de olhos grandes…

Toda história acontece com um personagem.

Isso significa que um dos trabalhos mais importantes de qualquer escritor é criar bons personagens. Mas o que é um bom personagem? É um personagem verossímil, motivado e pelo qual tenhamos empatia.

Wall-e é um personagem verossímil, motivado e que cria empatia

Wall-e é um personagem verossímil, motivado e que cria empatia

Um personagem verossímil é aquele que acreditamos que pode ser real. Que fique claro: ele não precisa ser real. Elfos, robôs e magos podem ser verossímeis porque fazem sentido dentro das regras do universo em que foram criados.

Um personagem motivado é aquele que deseja alguma coisa, que tem razões para se movimentar. Qualquer que seja a história, ela acontece em termos de ação, ou seja, de atitudes que influenciam a trama. A história de um personagem que não faz nada frente às dificuldades do mundo é um personagem sem graça. Ele pode existir e fazer parte de uma história, mas certamente eu não gostaria de lê-lo por mais de meia página.

Um personagem cria empatia quando sofre. Ou seja, conforme ele tenta alcançar seus objetivos, o mundo vai mostrando que não será tão fácil, ou que primeiro ele precisará aprender um pouco sobre a existência. A cada não que nosso personagem encontrar, maiores serão as chances de gostarmos dele, porque entendemos sua motivação e acreditamos que sua busca faz sentido.

Existem infinitas técnicas para se criar personagens.

Alguns autores gostam de desenhar os seus personagens. Outros preenchem páginas e páginas com toda a história de vida de cada personagem. Há quem faça fichas de RPG, selecionando inclusive atributos numéricos para características como Força e Inteligência.

Cada uma dessas técnicas tem seus méritos e suas desvantagens. Desenhar não funciona para todo mundo, assim como muitos criadores não conseguem trabalhar com a ideia de serem obrigados a desenvolver largas biografias antes de começarem a escrever de fato.

Trarei aqui algumas possibilidades, singelos convites sobre como podemos olhar a realidade e trazer pedacinhos dela para a literatura.

Personagem guerreiro

Pensando a motivação do personagem

Em primeiro lugar, como a motivação do personagem é um dos elementos mais importantes, que tal pensarmos um pouco sobre as suas características psicológicas?

Quais são os valores caros a este personagem? As coisas que ele considera essenciais em sua vida? Para fins de exemplo, vamos criar um personagem chamado Jorge. Jorge pensa que nada na vida inteira é mais essencial do que liberdade. Independentemente do que acontecer, ele sempre ansiará por liberdade.

Um valor é o suficiente para criar um personagem? Sim, mas não um bom personagem. Se for motivado por apenas um valor básico, Jorge será um personagem raso, caricato, previsível. Seres humanos podem ser assim, mas nós queremos um personagem complexo, difícil de apreender em um único olhar (ou leitura).

O jeito é acrescentar um segundo valor. Para Jorge, sua família também é fundamental. Tudo o que ele faz, faz pensando em ser livre e em contribuir para sua família.

Após definirmos dois valores para Jorge, vamos pensar em um objetivo, algo concreto que ele deseja alcançar. Jorge, nosso personagem que adora liberdade e a família, é um estudante de mestrado no curso de Artes Visuais. Seu objetivo, no momento em que estou criando-o, é passar em um processo seletivo que lhe permitirá viver durante pelo menos um ano estudando na França.

Perfeito: temos valores e um objetivo delineados para nosso personagem. Com isso, provavelmente já poderíamos colocá-lo em uma história e teríamos algumas pistas sobre como ele agiria.

Personagem dormindo

Observando a realidade para criar um personagem

Nós, escritores, podemos criar um mundo inteiro a partir da nossa imaginação. Porém, isso não é necessário, tampouco inteligente, quando temos uma realidade rica em detalhes fantásticos que podemos explorar. Por isso, vamos dar seguimento à criação de Jorge a partir de três trios de novas características.

Você pode fazer isso olhando para pessoas na rua (por isso gosto tanto dessa técnica): escolha alguém e escreva três coisas que você percebe, três coisas que você deduz e três coisas que você imagina/inventa. Para este exercício, darei continuidade à criação de Jorge a partir da imagem acima.

Três coisas que percebo: Jorge é jovem, de cabelos castanhos desalinhados e nariz proeminente (a descrição física não precisa parar aqui, tampouco ser fiel à imagem ou pessoa observada).

Três coisas que deduzo: Jorge costuma de dormir depois de escrever, ele se alimenta mal (basicamente produtos industrializados e refrigerantes) e tem bastante tempo livre.

Três coisas que imagino: Jorge está se relacionando há um ano com um colega da faculdade (que está na graduação), com frequência sente-se inferior aos pares e é pressionado pela mãe para “encontrar um trabalho de verdade”.

Em um rápido exercício, nosso personagem que gosta de liberdade e da família ganhou nove características para a sua construção. Está mais fácil de imaginá-lo agora, certo? Se quisermos tornar esse exercício ainda mais completo, podemos escolher cinco, sete, dez características a serem percebidas, deduzidas e imaginadas. E, mesmo que só tomemos essas nove novas características (que já são doze, com os dois valores e um objetivo), podemos supor uma série de outras informações a partir de Jorge, que caberão a mim, como escritor, confirmar ou não. Por exemplo, se ele tem tempo livre, isso provavelmente significa que a situação financeira não é um problema.

Uma história com Jorge poderia se aproveitar desse tempo livre, ou da sua relação com a mãe. Algo que o obrigue escolher entre a família e sua própria liberdade produziria um dilema complicado, mas muito interessante de ser explorado em uma história.

 

Com uma hora de observação na rua é possível inventar inúmeros personagens. Que tal inventar alguns para participarem de suas histórias? Assim, a cada vez que tiver uma ideia, poderá se utilizar de um banco de personagens prontos a seu dispor.

Parece um bom jeito de lidar com bloqueios criativos.

 

 

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7 comentários em “Escrita criativa (8): personagem II

  1. Eu quis voltar aqui para deixar mais um comentário (meio que um testemunho). Reli um conto meu, já publicado em blog, e percebi que precisava re-revisá-lo. Na re-revisão, me descobri remontando o texto. Caramba, estava tão desinteressante! Algumas ações eram tomadas pelos personagens de forma inconvincente, sem um motivo cem por cento propício. Descobri que enfiei um personagem em uma história – não contei a história do personagem. Isso porque meu protagonista não passa de um nome em um corpo. Quando escrevi o conto, não me preocupei (a pressa de postar o bagulho) em construir o personagem, como proposto no post do Tales, e o resultado foi desastroso. Ainda não o retirei da rede. Se alguém quiser ver um bom exemplo de um personagem ‘“malcriado”, fala aqui que eu deixo o link. Fica de demonstração, como morcegos e cobras dentro de potes de vidro com soro nas aulas de biologia do fundamental haha.

    Abraços

  2. Obrigado.
    Estou trabalhando na remontagem e a história está ganhando mais conteúdo. Mas os personagens e suas influências na vida do protagonista ainda são meu desafio. Obrigado pelo abrir de olhos! Fiquei mais rico agora. :)

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