O trabalho tem que fazer sentido

Deste janeiro de 2014, assumi a vida autônoma em tempo integral e isso modificou minha relação com o trabalho. Não tenho mais chefes, reuniões ou relatórios de produtividade. Tudo o que faço ou deixo de fazer é responsabilidade minha, bem como as consequências, inclusive as financeiras.

A vida que eu levo é em grande parte ditada pelos movimentos que faço. Isso é muito bonito e livre, mas dá um baita frio na barriga e gera uma instabilidade na conta bancária.

(Ninguém disse que não há vantagens em manter uma vida convencional.)

O impulso para virar autônomo veio de algumas experiências profissionais. Como professor, eu estava descontente com a falta de contato humano com os alunos e a ausência de sentido na relação com os meus colegas de trabalho, cada um ocupado com sua própria disciplina e sem qualquer tipo de integração. Para completar, reuniões inacabáveis ocupavam momentos que poderiam ser utilizados para fins mais práticos e úteis.

Quando escolhi ser professor, eu queria tocar a vida das pessoas e evitar que cometessem os mesmos erros que cometi. Descobri que a estrutura da faculdade não facilita este processo: o aluno que estava na minha sala de aula estava lá porque era obrigado, não porque acreditava que poderíamos vivenciar trocas significativas. Ou seja: eu era um fardo a ser superado, e não construímos relações profundas com pessoas que consideramos obstáculos em nosso caminho.

Em meio ao meu desconforto, li um livro chamado A Arte da Não Conformidade, que me sugeriu assumir as rédeas da própria vida e não baixar a cabeça para o sistema tradicional. Parecia loucura, mas eu resolvi testar. Pedi demissão, vendi ou doei meus móveis e livros e comprei uma passagem para São Paulo, onde comecei uma nova vida.

Em São Paulo, conheci o Estaleiro Liberdade, curso de empreendedorismo de gente louca que se chama de pirata. Lá, encontrei outras pessoas que acreditam e vivem vidas não convencionais, fiz amigos e descobri que meu caminho não é tão louco assim. Instável, difícil, até mesmo amedrontador, mas não louco.

Até então, eu trabalhava apenas como diagramador e revisor freelancer. Durante o Estaleiro Liberdade, descobri que podia fazer mais, que podia criar para o mundo um projeto que refletisse minhas necessidades. Foi aí que criei o Ninho de Escritores, que desde agosto de 2014 é minha principal fonte de renda e de orgulho profissional. Por meio do Ninho, eu consigo tocar a vida das pessoas e ajudá-las com o sonho de escrever, que também é um sonho meu. O Ninho de Escritores é um lugar para sonhar junto.

Entre a Arte da Não Conformidade, o Estaleiro Liberdade e o Ninho de Escritores, cheguei a uma pequena fórmula para decidir se um trabalho ou projeto vale a pena. Há três razões para um serviço me interessar: eu posso ganhar dinheiro, me divertir ou aprender. É difícil encontrar os três ao mesmo tempo. Por isso, sempre que preciso decidir se aceito ou não um novo trabalho, pondero essas três questões: vou ganhar (muito) dinheiro? Terei prazer realizando esse projeto? Vou aprender bastante sobre algo que me interessa?

Qualquer trabalho que responda sim para pelo menos duas dessas perguntas merece atenção e esforço. Dá dinheiro e vou aprender bastante? Certo, vamos fazer. Não dá muito dinheiro, mas vou aprender litros e me divertir fazendo? Vamos também!

Um trabalho que dê apenas dinheiro, mas sem diversão nem aprendizado, é um serviço com pouco valor para mim e provavelmente com pouco valor para o mundo. Isso é algo que eu não quero mais.

O trabalho tem que fazer sentido, tocar algo importante, mudar para melhor um pedacinho do mundo. Essa é, na realidade, uma responsabilidade bem grande que assumi junto com a vida autônoma. Não é uma missão apenas para ganhar dinheiro: é, antes de tudo, uma missão para viver fazendo algo que eu acredito que vale a pena para mim e para os outros.

Tudo o que fazemos está a serviço de algum interesse. Com o trabalho, não é diferente. O que muda, entre um serviço convencional e um puxado de forma autônoma é o controle dessa variável: nós podemos determinar a serviço de que (e de quem) nós estamos.

Quando isso fica claro, o próximo passo se torna mais fácil.