Negócios para reinventar o mundo

Se minha vida fosse um seriado, o episódio de hoje se chamaria o dia dos negócios. Dois eventos muito diferentes entre si marcaram meu dia, cada um trazendo uma visão diferente do que se pode entender sobre empreendedorismo.

É muito provável que, dada minha trajetória, eu esteja fazendo uma leitura tendenciosa sobre o que vivi hoje, entre faculdade e feira do ENACT. A minha expectativa é que essa leitura, por mais tendenciosa possa ser, ofereça espaço para enxergarmos algumas distinções curiosas entre distintos modos de viver o empreendedorismo.

Compreendo a ideia de empreender como a ação de fazer acontecer, de experimentar com o mundo e colocar em existência algo que acreditamos que pode produzir valor para si e/ou para outras pessoas.

Conceitos, porém, às vezes se apresentam de outro modo quando colocados em contato com a realidade.

empresários tratando de negócios à moda clássica

Uma visão clássica sobre fazer negócios

De manhã, fui fazer uma prova da disciplina de empreendedorismo. Entre o conteúdo que precisei estudar, vários capítulos dedicados a como montar um plano de negócios, encontrar investidores e considerar o capital de giro. Ou seja, empreendedorismo é coisa de gente grande, de empresa, de prédio com vários funcionários.

Segundo a faculdade, empreender não é para qualquer um.

Quem me conhece sabe que minha posição não poderia ser mais oposta a isso. Resolvi a prova com as respostas certas, ou seja, aquelas que copiavam exatamente o que havia sido entregue por escrito durante o conteúdo. Acho que o professor falhou em perceber a ironia de uma disciplina de empreendedorismo ser resumida em questões de múltipla escolha com critérios bem definidos para o que é certo e o que é errado.

Mas, verdade seja dita, estar na faculdade é mergulhar em ironias e paradoxos constantes. Foi isso que me levou a desistir de ser professor e é isso que me dá vontade de voltar à posição de professor – para propor mudanças pelo lado de dentro.

O que me pareceu mais curioso foi perceber que o conteúdo da disciplina estimula a criatividade, a busca e a proposição de soluções inovadoras. Como ideia, é maravilhoso, é potente, é funcional. Pelo menos até o texto seguinte sugerir que o caminho certo é montar o plano de negócios, aquele clássico com sumário executivo, análise dos concorrentes, capital etc. Esse é o momento em que a criatividade se engessa.

Como já escrevi em outra oportunidade, a criatividade se desenvolve no entremeio entre a limitação e a liberdade. Quando um plano de negócios só apresenta um jeito de ser montado, a parte da liberdade fica prejudicada.

Crie a empresa da sua vida

Possibilitando a ação para futuros melhores

Passei minha tarde em uma feira aberta promovida pelo ENACT, um programa para “empreendedores que pensam nos negócios do amanhã”. É uma proposta ousada, pensar nos negócios do amanhã, mas tenho confirmado que autoconfiança é uma arma que deve ser usada com vigor. O que vi na feira foi muito parecido com a experiência que tive no lançamento dos projetos do Launch, no início do ano.

Cheguei na Escola Design Thinking um pouco perdido. Muita gente para todos os lados, muita conversa, várias mesas e nenhuma indicação de por onde começar. Talvez por ter percebido minha cara de surpresa e confusão, um rapaz chamado Guto veio falar comigo.

Em questão de minutos, ele estava me contando sobre Eva, um aplicativo que ele está desenvolvendo cuja função é auxiliar as pessoas a aproveitarem ao máximo as funcionalidades de seus smartphones. Como? Por meio de perfis de usuários. Desta maneira, se eu me identifico como um profissional de marketing, Eva me sugere quais aplicativos outros profissionais da área têm utilizado. O mesmo vale para meus amigos. É uma forma bastante prática de descobrir os melhores aplicativos de acordo com a experiência da empresa na qual trabalho, dos meus colegas de profissão e dos meus amigos.

Após conversar com Guto, compreendi como a feira estava organizada. Cada mesa hospedava de um a três projetos diferentes, e bastava chegar perto para conversar com os responsáveis por cada um. Tem algo melhor do que um salão recheado de pessoas para as quais podemos mostrar nossas ideias?

Ainda na mesma mesa, conversei com o Carlito e ele me contou sobre o Boa Dica, uma plataforma de indicações de serviços e pequenos negócios. A ideia é valiosa: facilitar que pessoas encontrem profissionais que não estão ligados a grandes corporações. Precisa de um bom mecânico? Olha no Boa Dica e vê se tem alguma indicação bacana nos arredores. Assim fica fácil de encontrar aqueles serviços do cotidiano que sofremos tanto para localizar.

(Eu bem sei, estou há meses para consertar a porta do meu armário, tudo porque nunca acho um marceneiro para fazer orçamento do conserto.)

Com o Rodrigo, aprendi sobre o Mais, um caminhão equipado com profissionais treinados e equipamentos para auxiliar regiões devastadas por desastres naturais (ou criminosos, como Mariana). O caminhão não oferecerá consertos, mas sim apoio e treinamento para que os próprios moradores das regiões afetadas pelos desastres possam se reerguer. Durante as noites, quando os trabalhos do dia forem interrompidos, o caminhão vira cinema, oferecendo um pouco de conforto emocional para pessoas cujas vidas foram destroçadas.

Perto do Rodrigo estava Otávio, advogado colega do Otávio, também advogado. Eles são os responsáveis pelo HubJur, uma plataforma para pessoas comuns encontrarem bons advogados. Funciona assim: eu tenho um problema, cadastro meu caso no site, e então os advogados que se interessarem pelo que apresentei entrarão em contato já com suas propostas. O site apresenta o preço e também a formação e tempo de experiência de cada advogado, tornando a decisão do cliente melhor informada.

Já pensando em indicar amigos advogados, sentei para conversar com Luana, a cabeça por trás da Mudita, uma consultoria dedicada a auxiliar empreendedores e pequenas empresas. Logo que sentei, Luana pediu que eu definisse meu perfil. Eu tinha quatro opções: visionário, estratégico, empresário e líder. Então ela me explicou que seu projeto envolve uma consultoria personalizada a partir das dores do empreendedor, detectando necessidades a partir do perfil das pessoas envolvidas no trabalho.

Luana e eu investimos bastante tempo tratando sobre confiança, um dos valores mais importantes para qualquer consultoria. Propus a ela experimentar o risco junto com os empreendedores que ela apoiar, cobrando por seus serviços apenas no caso de o cliente perceber valor no processo. Desta forma, se ela me ajuda a lucrar, ela também lucra. Na pior das hipóteses, seria um incentivo para fazer um serviço sempre melhor.

(Tenho muito interesse em modelos alternativos de lidar com a grana. Detesto pagar por um serviço que não sei se vai me ajudar. Ganhar a partir dos resultados alcançados parece um bom método de mudar a lógica atual de como os negócios são pagos. O serviço se torna uma parceria, eu ganho se te ajudar a ganhar.)

uma lâmpada fazendo negócios com a tomada no plugue

Segui adiante e encontrei Renata oferecendo um suco verde para um casal. Fiquei pertinho e também ganhei um copo. Bebi feliz enquanto ouvia a explicação sobre a Oficina Equilibrium. É uma ideia baseada no desenvolvimento da qualidade de vida por meio da alimentação saudável e do equilíbrio. Preenchi um formulário informando que gostaria de mais informações e parti para próxima mesa.

Encontrei Vinícius esperando para me apresentar o Abequar, projeto bacana de fomento a habilidades empreendedoras. Nem preciso dizer que vibrei, né? Educação, empreendedorismo e juventude, dá pra ficar melhor? Falei para ele procurar a Aporé, que tem alguns projetos com a mesma pegada e um tempo de estrada maior. Bons projetos não precisam perder tempo batendo a cara no muro quando podem aprender com iniciativas semelhantes.

Vinícius sugeriu que eu conversasse com o pessoal da mesa ao lado. Era um projeto sobre design de experiências. (Pausa para os fogos de artifício que estouraram mentalmente na minha imaginação, porque eu adoraria trabalhar com isso.) Sem demora, Norie estava me contando sobre as diferenças de vender uma viagem a Portugal com um cartaz frio e sem graça ou com um vídeo somado a uma música empolgante e uma provinha de pão com azeite, bem à moda portuguesa. Já quero visitar Portugal. Norie me mostrou toda a proposta de trabalho da Numi, um negócio que certamente vou acompanhar de perto.

Pertinho da Norie, conversei com a Carol sobre o Lagartas. Ela partiu de uma necessidade gritante nas escolas: recriar os processos de aprendizagem para que sejam mais interessantes. Afinal, não é de hoje que sabemos que a educação enfrenta grandes problemas. Com uma metodologia que envolve investigação e proposições criativas, Carol propõe a criação e troca de experiências bem-sucedidas entre professores interessados em aprimorar seus trabalhos.

Desde os tempos do Estaleiro Liberdade, fiquei atento às agruras enfrentadas por mulheres que se tornam mães e têm sua identidade reconfigurada de uma hora para outra. Cristina, do Mãe Talentosa, organizou seu projeto em torno de empoderar mães que não sabem por onde começar no empreendedorismo. Por meio de um acompanhamento online, Cristina criou um processo de mentoria para facilitar a criação de novos negócios.

Na feira, também conheci o trabalho de Paulo. Ele está criando uma plataforma para aproximar cidadãos e políticos, colocando-os para dialogar no mesmo ambiente virtual. Desta forma, cidadãos terão uma oportunidade para que suas demandas sejam ouvidas e respondidas diretamente por representantes do poder político. Expressei a ele meu maior medo: que essa plataforma seja preenchida por comentaristas do G1, uma das espécies mais cheias de ódio que se pode encontrar pela internet.

(A essa altura, eu já estava tão cansado que esqueci de perguntar o nome do projeto do Paulo. Falha minha!)

Antes de ir embora, ainda conversei com Rodrigo, participante da edição anterior da ENACT e idealizador do Carbono. Carbono é uma plataforma para desenvolvimento de projetos criativos de forma colaborativa. Se eu preciso de alguém que curta storytelling para implementar uma ideia comigo, a plataforma pode me ajudar a achar essa pessoa vasculhando as redes de relações dos diversos membros.

Durante a conversa, Rodrigo me falou sobre o vídeo que ele criou e pediu minha opinião sobre ele. Aqui vai: curti litros.

CARBONO Rede Criativa from Rodrigo Franco on Vimeo.

Dando vida aos meus próprios negócios

Estou num processo de transição com o Ninho de Escritores, deixando de lado o foco apenas na literatura e ampliando o olhar para englobar todas as histórias possíveis. Por estar no meio deste processo, passar o dia envolvido com empreendedorismo realmente mexeu comigo.

Quero compartilhar algumas coisas que aprendi.

É importante escolher um nome inteligível

Já perdi a conta de quantas vezes tentei explicar o que é o Ninho de Escritores. “Um projeto de acolhimento para escritores” ou “um projeto de aprimoramento da escrita por meio do acolhimento”, eu respondo sempre. Mas a ideia de acolhimento não é clara.

Hoje me apresentei como consultor em storytelling. Eu ajudo pessoas a contar suas histórias. Muito mais fácil, muito mais claro, muito mais objetivo.

A história só é clara quando a ideia está clara

Já repeti muito isso para escritores, e para empreendedores a regra é a mesma. Se a gente não tem clareza do que está propondo ao mundo, é perda de tempo achar que alcançaremos alguma clareza na hora de contar nossa história.

Simples assim.

Tenha um cartão de visitas

Melhor coisa que existe é receber um papelzinho com nome e informação de contato da pessoa que temos interesse em conversar de novo. Se todo mundo tivesse me dado cartões, escrever esse texto teria dependido menos da minha memória.

Pergunte o nome das pessoas

Essa é uma obviedade, mas algumas pessoas não quiseram saber meu nome. Gente, se quer minha opinião, pelo menos finja que está interessado também na minha existência. Não precisa nem decorar o nome, o gesto de perguntá-lo já funciona como validação e ajuda a criar empatia.

Lembre o nome das pessoas

Sim, eu menti no item anterior. A gente lembra aquilo que é importante pra gente, então faça com que o nome das outras pessoas seja importante para ti. “Eu não tenho boa memória” é desculpa fajuta para preguiça de se importar.

O melhor jeito de ser lembrado é oferecendo valor

Hoje eu ajudei alguns empreendedores e seus negócios com os meus conhecimentos de storytelling. Agora eles sabem o que tenho a oferecer para o mundo, e se sentirem necessidade dos meus serviços, saberão que podem me procurar.

Se tu precisa de ajuda para contar tuas histórias, pode contar comigo. Estou montando uma lista de e-mails para trocar ideias sobre storytelling e será um prazer te ter lá para dialogar comigo. Basta colocar teu nome e e-mail no formulário a seguir.

Quer aprender storytelling?

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