Como inspirar mudanças positivas?

Perguntaram a Satish Kumar como é possível inspirar mudanças positivas na vida de outras pessoas. Na ocasião, éramos um auditório lotado no SESC Vila Mariana ouvindo as palavras do ativista indiano. Ele já havia falado, durante cerca de uma hora, sobre o trinômio que ele acredita ser o caminho para um futuro melhor: alma, solo e sociedade.

Pensar a alma envolve cuidar de nós mesmos, do nosso bem-estar pessoal. O solo é a nossa relação com a natureza, com esse organismo enorme que é o planeta Terra. A sociedade nos coloca em relação com outros seres vivos, a partir dos valores que cultivamos.

Para Satish, inspirar mudanças positivas é algo que ocorre por meio de bons exemplos. Quando percebemos que no mundo há espaço para ações poderosas que melhoram a vida dos outros, podemos nos inspirar a fazer algo nós mesmos.

Quando penso no valor que o Estaleiro Liberdade teve para mim, apenas uma parte diz respeito ao que aprendi em termos de ideias e conceitos. Outra parte, tão significativa quanto e talvez até mais, está diretamente relacionada aos exemplos que vi: pessoas modificando o mundo ao seu redor, mobilizando recursos para transformar realidades em algo mais próximo do que desejam para si e para os outros. Foi isso que me levou a acreditar que seria possível algo como o Ninho de Escritores.

Foto de Satish Kumar, inspirador de muitas mudanças positivas

Uma história para inspirar mais mudanças positivas

Quando falamos de exemplos e motivação, é difícil falar em conceitos abstratos. Por isso, trago uma história que Satish Kumar compartilhou conosco.

O ano era 1973. Satish estava em um café com um amigo e eles liam o jornal. Nas páginas de notícias, descobriram sobre um ativista que havia sido preso em Paris por protestar pela paz – não recordo os detalhes, mas o importante é que aquela notícia os impactou.

“Ele está sendo preso por protestar pela paz e nós estamos aqui tomando um café?”, se perguntaram, e entenderam que deveriam fazer algo a respeito.

Satish decidiu que caminharia do túmulo de Gandhi, na Índia, até o túmulo de John F. Kennedy, nos Estados Unidos, passando pela Rússia, pela França e pela Inglaterra no caminho. (Não ficou claro, para mim, se o amigo o acompanhou.)

Mas caminhar não era o bastante. Satish decidiu empreender sua viagem sem dinheiro nem comida.

Na fronteira da Índia com o Paquistão, um país que historicamente tem muitos conflitos com a Índia, diversos amigos e conhecidos vieram se despedir de Satish. Em particular, uma amiga pediu que ele não fosse, que desistisse, com medo de que ele acabasse morrendo. Quando percebeu que não havia modo de dissuadi-lo, a amiga ofereceu comida para que ele levasse na viagem.

Satish recusou a comida.

“Se eu pedir abrigo a uma família paquistanesa e levar minha comida indiana, como posso dizer que estarei confiando neles para me alimentar, se tenho minha própria comida?”

E Satish explicou que, se passasse fome, aquela seria uma oportunidade para jejuar. Caso não tivesse um teto sob o qual dormir, seria uma oportunidade para dormir em um hotel mil estrelas. Caso morresse ao longo de sua jornada, ele estaria morrendo a serviço da melhor das missões: em nome da paz.

“A guerra começa no medo e a paz começa na confiança.”

E ele caminhou, conheceu chefes de Estado, foi preso em Paris, dialogou com Martin Luther King Jr. e, no meio de tantas caminhadas e contatos, confiou e colecionou histórias.

Estas histórias e tantos outras ele conta no livro No destination, que por ora existe apenas em inglês, mas certamente é uma leitura fabulosa sobre a vida de um homem que vive em busca da paz.

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