Por que eu não quero mais ser professor

– Por que você quer fazer mestrado? – me perguntaram durante o processo seletivo, há quatro anos.

Eu tinha uma resposta na ponta da língua, então nem precisei pensar muito. Não que eu tivesse ensaiado muito; pelo contrário. Contudo, eu já havia me deparado com aquela questão desde o momento em que decidira me tornar mestre em Cultura Visual.

– Porque eu quero ser professor e contribuir para mudar a vida das pessoas. Quero fazer pelos outros o que gostaria que tivessem feito por mim mais cedo. Algumas coisas nós não precisamos descobrir sozinhos. – Respondi cheio de confiança. Afinal, o mestrado era o caminho óbvio para alcançar o Ensino Superior.

Anos depois, título de mestre ornamentando minha parede, comecei a dar aulas e descobri muitas coisas sobre educação. A primeira delas foi que professor não ensina, apenas ajuda a aprender. Na impossibilidade de um sujeito saber em primeira mão as experiências vividas por outros, utilizamos a linguagem para explicar ideias e ações, na tentativa de aproximar ao máximo uma experiência pessoal de outra.

Na sala de aula, isso significa que várias pessoas estão tentando mimetizar as experiências sugeridas pelo professor. Em resumo, a experiência do professor é considerada mais importante que a dos estudantes, pois é ela que deve ser replicada. Claro, essa é uma visão antiquada de educação, mas ainda muito presente nos discursos sobre a escola. Dentro dela, o que os alunos trazem para a sala de aula é sem importância.

Essa hierarquia estabelecida influencia a maneira como os processos de aprendizagem são organizados. Eles não surgem de demandas reais das experiências de cada sujeito, tampouco de encaminhamentos coletivos para lidar com tais questões. Na hierarquia da sala de aula, são interesses, intenções e percepções do professor que organizam os acontecimentos, em geral sem espaço para diálogos significativos com as expectativas dos demais envolvidos no processo (curiosamente, em número muito maior).

A atenção de uma grande sala focada em uma única pessoa tem raiz na meritocracia: o professor, por haver estudado mais e possuir certificados específicos que lhe permitem lecionar, assume as rédeas do poder. Essa é a principal mensagem passada para os estudantes: “se querem estar aqui, percorram um caminho como o meu e sejam melhores que os outros”. Esse é um pensamento que considero bastante nocivo e equivocado, inclusive e especialmente quando consideramos que muitos dos estudantes não querem estar no lugar do professor e tal ideia não é sequer considerada.

Professor

Hoje em dia não sou mais professor e não sinto vontade de sê-lo novamente. Contudo, continuo com o mesmo objetivo de antes: afetar as pessoas e ajudá-las a percorrer caminhos que, sozinhas, talvez demorassem muito mais. Por isso, ocupo muito dos meus pensamentos refletindo sobre como melhorar práticas de aprendizagem. Não é por nada que estou, apenas oito meses após minha última aula, empreendendo o Ninho de Escritores como um espaço colaborativo de aprender e ensinar sobre escrita.

Meu maior medo é ter uma sala vazia. Como idealizador do projeto, é como se eu tivesse falhado de alguma forma. Eu sentia a mesma coisa quando professor e precisava me relembrar que as pessoas têm suas próprias vidas e fazem suas escolhas sem necessariamente levar a minha experiência em conta. Exatamente como eu faço em tantos outros casos. Em nenhuma vez que faltei aula, pensei “puxa, talvez eu devesse ir porque o professor ficará chateado se um aluno faltar”. Evidentemente, o problema em questão não é a pessoa faltar ou não, afinal, cada um é livre para agir como quiser, mas sim eu me chatear com algo que não diz da relação que as pessoas constroem comigo.

Para que isso não aconteça, preciso aprender a fazer o que não consegui como professor: descentralizar o poder. Ao contrário dos anos anteriores, eu não tenho uma estrutura por trás me dizendo como devo me comportar. Da mesma forma, as pessoas que decidiram participar do Ninho de Escritores não são alunos: são sujeitos autônomos com a possibilidade de interferir no processo.

O Ninho de Escritores começará dentro de sete dias e estou muito ansioso para saber como tudo acontecerá. Neste momento, meu segundo maior medo é conduzir os encontros exatamente como se fossem aulas. Será que conseguirei fugir disso?

2 comentários em “Por que eu não quero mais ser professor

  1. Pingback: Negócios para reinventar o mundo - Tales Gubes

  2. Me formei e comecei a dar aula e depois de um mês me encontro decepcionada não quero mas ser professora a minha maior decepção foi descobri que educação e uma farsa .

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