Algumas considerações sobre críticas positivas

Amigos escritores com frequência pedem minha opinião sobre seus trabalhos e tem sido uma dificuldade encontrar modos de conversar sobre a criação alheia sem violência. A crítica já tem em si um poder destrutivo grande. Se não mediarmos o seu poder, ela pode soar devastadora para quem a recebe.

A história é velha, mas vale repetir: no início da faculdade, tive um conjunto de professores que me ajudaram a desacreditar na minha escrita. Eles fizeram isso através de críticas contundentes que ignoravam o fato de que um ser humano havia criado aquilo que estava sendo criticado. Considerando a posição em que eles estavam e a potencial vulnerabilidade dos alunos de primeiros semestres que eles tinham em mãos, acho justo dizer que eles foram muito equivocados.

Cabe a pergunta: o que são críticas contundentes? Meu lindo dicionário Houaiss diz que contundente é aquilo que causa sofrimento, que fere ou magoa. Perfeito, é isso mesmo: uma crítica contundente é aquela que agride. Nós humanos sentimos prazer na violência quando ela é dirigida a outras pessoas, já que a violência é um exercício deliberado de poder sobre alguma coisa.

Se, ao ler o livro de um amigo, minha reação é “esse livro é uma bosta”, isso é uma crítica contundente, além de estúpida, insensível, violenta etc. É o tipo de crítica que só serve a um propósito: reafirmar o quanto sou melhor escritor que a outra pessoa. Ou seja, não é uma crítica cuja função é ajudar a outra pessoa a, de alguma forma, melhorar; ela serve somente para afagar meu próprio ego.

Recentemente resenhei o livro Bem-te-vi. Acredito que ele comete alguns equívocos na maneira de tratar seu tema (semelhantes aos apontados por Sergio Viula a respeito de O Terceiro Travesseiro). Muito dessa minha impressão vem de questões políticas sobre como as narrativas a respeito da homossexualidade na escola são construídas. Eu enxerguei o livro como uma oportunidade de contrariar as narrativas típicas e construir um modelo mais positivo para jovens leitores. Contudo, isso é muito diferente de dizer que o livro é ruim porque trata os homossexuais como foram tratados desde sempre. O meu julgamento de valor deve estar ancorado às minhas percepções de mundo e às minhas experiências de vida.

Um livro não é ruim porque eu achei ele ruim. Um livro é ruim para mim porque não corresponde às minhas expectativas. Deixá-las claras na crítica é uma maneira de ajudar o outro escritor a entender como um leitor sentiu o seu trabalho.

A maior dificuldade para esse tipo de crítica positiva está na forma como nossa sociedade se organiza baseada em meritocracias e na escassez de possibilidades e recursos. Poucos escritores terão a chance de serem publicados pela existência de poucas editoras dispostas a “arriscar” a publicação, afinal, livro é negócio e negócio tem que dar dinheiro o mais rápido possível. Nessa pressa, construir uma crítica positiva e humana é inviável, leva tempo demais.

O Ninho de Escritores é uma tentativa de escapar desse paradigma. A crítica positiva é uma das bases para que isso seja possível, informando aos participantes não o que é bom ou ruim, mas o que fez ou não sentido para cada um. Da mesma forma, o Ninho de Escritores é um espaço de acolhimento criado para que as pessoas se sintam seguras no desenvolvimento de seu processo enquanto escreventes. Uma vez acolhidas e alimentadas com críticas positivas, poderão exercer experimentações literárias com o objetivo de melhorar o domínio sobre a escrita.

O Ninho de Escritores começa na próxima quinta-feira, dia 7 de agosto. Ainda dá tempo de se inscrever.

Obrigado! 🙂