Por que manter um diário de escrita?

Fui à padaria, comprei um pão de queijo e amei. Era gostoso demais, o mais quentinho, macio e saboroso dos pães de queijo. Eu precisava saber como o danado era feito, então pedi para falar com o padeiro e perguntei qual era a receita daquela maravilha.

– Não sei – ele respondeu, – eu simplesmente faço na hora quando bate a inspiração.

Balde de água fria. Que profissional é esse que não entende os segredos de seu próprio ofício?

Essa história é falsa, obviamente. Não sei se existe algum padeiro que realmente não saiba quais são os artifícios necessários para transformar suas receitas em deliciosos alimentos. Porém, essa história não é tão falsa assim: muitos são os escritores, eu entre eles, que têm pouca noção sobre o próprio processo criativo. Por fazermos desde sempre, é como se fosse natural, algo que não demanda maiores explicações.

Isso é um equívoco. A escrita, como qualquer outra arte ou habilidade humana, é fruto de processos específicos que podem ser mais ou menos fecundos. Entretanto, quando simplesmente sentamos e forçamos uma história a sair da nossa cabeça, falta um importante componente de autoavaliação.

Por isso, decidi comprar um caderno e fazê-lo de diário de escrita.

Diário de escrita

Meu diário de escrita servirá para acompanhar meus processos como escritor. Estou interessado em descobrir quais são os elementos externos e internos que me fazem escrever mais ou menos e quais são os tipos de texto ou de prática que aceleram ou diminuem a velocidade da minha criação.

Por exemplo, ontem escrevi o primeiro esboço de um conto. Ele tem 2090 palavras e levei 1h47 escrevendo, mais 8 minutos planejando como a história se desenrolaria. Entretanto, a ideia já estava anotada em um banco de ideias que mantenho no meu e-mail, ou seja, não precisei pensá-la do zero. A história se passa na tensão entre dois personagens. Um deles estava razoavelmente claro para mim, e por isso segui-o como protagonista com o ponto de vista. Mesmo assim, precisei terminar o conto para descobrir qual era a motivação por trás de suas ações. Com o outro personagem, tive ainda mais dificuldade e terminei o texto pensando que ele não é um sujeito verossímil. Ou seja: quando sentar para editar o texto, precisarei reescrever grandes partes, tendo em vista os novos conhecimentos que construí sobre ambos os personagens. O que posso aprender disso? Que meu processo talvez se beneficiasse com um esforço um pouco maior no planejamento da história e dos personagens. Por ser apenas um conto, decidi escrever no impulso, perdendo uma oportunidade de exercitar a criação de personagens.

Todos esses dados eu coletei a partir de uma entrada no meu diário. Como minha intenção é profissionalizar minha escrita, necessito compreender a fundo meu processo. Simplesmente achar que funciono melhor de dia ou de noite não é o bastante: preciso de dados para que essa análise seja objetiva, para que corresponda à realidade de fato.

Todo escritor deveria ter um diário desses? Acho que não, apenas aqueles que desejam ser profissionais. 🙂

15 comentários em “Por que manter um diário de escrita?

  1. Oi Tales!
    Veja o que eu tenho observado do meu processo de escrita:
    i) da noite para o dia, a escrita tem jorrado;
    ii) coloquei limites: duas páginas por dia de escrita; se mantiver esse ritmo, em 100 dias serão 200 páginas , o que não é pouca coisa;
    iii) à primeira vista, parece psicografia; mas, fiquei observando-me bem atentamente e notei que, se no momento em que sento e escrevo parece que um ser incorpora (escrevo as 2 páginas em menos de meia hora) percebi que no restante do dia e da noite eu passo elaborando de maneira mais consciente, outras menos consciente o que irei escrever.

    Então, no momento de escrever propriamente, acontece de maneira muito natural. Cabe destacar também que por hora é apenas a criação; revisão e reescrita, só quando tiver encerrada essa primeira etapa.

    Como é interessante desenvolver esse olhar para nós mesmos, não?
    Abç.

    • Esse olhar para dentro é uma das coisas mais gostosas que tenho experimentado como escritor. Não fazer ideia de para onde esse processo vai me levar é simplesmente fantástico!

      Essa limitação de duas páginas por dia, que ocupam meia hora… qual razão para ela?

      • Essa limitação é justamente para ter mais tempo para me ouvir, me observar. Para curtir o percurso, sem focar tanto na chegada. Eu não quero que o processo domine o meu dia, os meus pensamentos… E também é uma meta que estabeleci…como eu não estava conseguindo escrever nada e, quando escrevia, detestava, decidi criar uma rotina que não fosse dolorida e tentar mantê-la, dia após dia; que me desse prazer, ao invés de apenas gerar mais e mais ansiedade, amargura. E está funcionando para mim. Se você pensar no processo como unidade (2 pgs por dia) pode parecer pobre, pouco; mas pense ao longo de 4 meses, o que isso representará? Ah, são duas páginas por dia x 5 dias na semana. Deixei os sábados e domingos livres pra viver 🙂

        • Eu acho duas páginas por dia uma excelente meta. Comecei com 500 palavras, em novembro do ano passado, e agora estou retomando baseado mais ou menos no tempo – em torno de duas horas por dia de trabalho. Quero gradualmente aumentar esse tempo, conforme minha prática se tornar mais firme. 🙂

      • Eu considero essas duas páginas como se fossem um capítulo (com início, meio e fim). Lembra do drama das estações? No momento em que fracionei dessa maneira, ficou mais fácil para eu enxergar as partes que comporão o todo. Tem dias que é difícil organizar a redação dessa maneira; mas, há dias em que a historinha não cabe nessas duas páginas; mas evito a todo custo exceder pois forma = função. E a forma que eu optei me faz o tempo inteiro me questionar: o que é tão importante assim de ser dito que não poderia ser dito em duas páginas? É um exercício de precisão, concisão e clareza também. E hoje (iniciei esse processo dia 24 de julho) posso dizer que ao olhar para trás, é gritante o que presta e o que não presta – de acordo com esses critérios que estabeleci… O mais legal é realmente observar o processo e como eu tenho conseguido conduzi-lo.

        • Sem dúvida, estou apaixonado por observar o processo. As descobertas estão sendo excitantes. Hoje, por exemplo, me vi irritado com um pequeno bloqueio, mas estou começando a achar que talvez o bloqueio seja mais por eu estar forçando algo que não deveria do que por não conseguir lidar com algo específico na escrita.

        • Veja o que acabei de ler em um livro (ficção, 2 personagens são escritores – um é o mentor e o outro, o iniciante – o mentor está chamando atenção do iniciante para uma questão importante no processo de escrita): ” às vezes, você será vencido pelo desânimo. Isso é normal. Eu lhe disse que escrever é como lutar boxe, mas também é como correr. […], se tiver forças para continuar até o fim, se empenhar nisso todas as suas energias e todo o seu coração, e alcançar seu objetivo, então você será capaz de escrever. Nunca deixe o cansaço ou o medo o impedirem. Ao contrário, use-os para avançar”. Legal, hein?

        • Gostei desse trecho. Escrevi um texto (que publicarei amanhã aqui no site) justamente sobre esse desânimo. No meu caso, me afoguei nas leituras sobre técnicas e no medo do julgamento alheio. Acho que só agora estou conseguindo me soltar um pouco da parte paralisante das críticas que pesquei na oficina.

  2. Muito bacana a ideia de ter um diário de escrita. Além de como você disse ser uma ótima forma de entender o próprio processo, também gosto de usar para desbloquear a escrita, como um aquecimento. Prefiro usar antes de escrever, ou para esvaziar a mente, quando vou dormir e os pensamentos estão a mil.
    Abraços

    • Gostei da ideia, Ben! Começarei a fazer exercícios de escrita livre para desbloquear a escrita. Por enquanto, tenho apenas planejado o que escreverei, mas talvez seja um bom exercício ocupar alguns minutos com a soltura das palavras! Obrigado pela dica.

  3. Pingback: Paralisado pelo tamanho do projeto - Tales Gubes

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