Bem-te-vi, de Marli Porto

Bem-te-vi, livro infanto-juvenil de Marli Porto, conta a história de Daniel, um garoto de treze anos que enfrenta discriminações na família e na escola e busca caminhos para se encontrar nesse processo. Como costuma acontecer em questões relacionadas à sexualidade, o menino localiza um fio de esperança na existência de um rapaz, por quem se apaixona.

Daniel tem apenas uma amiga, que lhe serve de confidente e companhia. Além dela, são relevantes para a narrativa Matheus, o rapaz que desperta seu interesse, e a família de Daniel, composta pelo pai machista, pela mãe que só encontra felicidade quando acredita que o filho é heterossexual e pelo irmão, cujo papel é desconfiar da masculinidade de Daniel.

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Como já sugeri em outro texto, considero essencial encontrarmos cada vez mais espaços para a representação de afetividades e sexualidades que não estejam restritas à heterossexualidade e à monogamia. Contudo, existem algumas armadilhas narrativas quando tratamos de determinados temas. Histórias sobre adolescentes homossexuais, por exemplo, com frequência giram em torno do segredo, da discriminação e de famílias que não conseguem compreender as diferenças no mundo. Como resultado, temos a impressão de que as únicas histórias possíveis para personagens homossexuais, ou que justifiquem sua existência, são aquelas marcadas pelo sofrimento e pela injustiça a partir de quem são.

Trata-se de um livro cuja leitura flui fácil, sendo evidentemente direcionado para leitores jovens. O que me incomodou, entretanto, talvez venha deste direcionamento: a história subestima o leitor. Talvez num exercício de facilitar o texto, a autora constrói uma narrativa que não abre espaço para a aprofundamento das questões. Os conflitos se resolvem muito rapidamente, um atrás do outro, e todos de maneira muito rasa. No final do livro, quando finalmente se cria o potencial para as mudanças que eu aguardava durante toda a leitura, a história encerra.

Quando escrevemos, precisamos considerar o que colocamos no papel e, também, por mais estranho que pareça, o que deixamos de colocar. Traçando uma ligação com o conto O Sexo é Certo, que disponibilizei recentemente, me foi perguntado por que havia uma cena sexual no início. A verdade é que ela não acrescentava nada para a história, então estava sobrando. No caso do Bem-te-vi, não é que os acontecimentos não somem à narrativa, mas eles explicam questões que poderiam ser deixadas para a imaginação do leitor.

O que não sei, e penso ser um exercício importante para o futuro, é se os livros infanto-juvenis que eu lia na infância tinham essa característica. Talvez eles fossem bastante explícitos e eu não percebesse por falta de olhar treinado. Acho que encontrei uma desculpa perfeita para reler os clássicos da série Reencontro.

Ao concluir a leitura de Bem-te-vi, fiquei curioso com uma questão. Meu lado professor está morrendo de vontade de saber como estudantes de escolas reagirão à leitura deste livro e, principalmente, que entendimentos de mundo construirão a partir do contato com a história de Daniel. É algo para se ficar atento. :)

3 comentários em “Bem-te-vi, de Marli Porto

  1. Bacana a sua resenha sobre o Bem-Te-Vi! Creio que o livro pode ajudar muitos leitores adolescentes a se encontrarem, se identificando com algumas das dificuldades. E quem sabe pode ser o pontapé para leituras mais aprofundadas com temática gay.

    Abraços

    • Sim, a minha esperança é sempre essa: que o encontro com uma obra sirva de ponte para perceber que existem outras. Eu vivi anos sem imaginar que existissem referências do universo LGBT disponíveis. Não quero essa escuridão para ninguém!

  2. Pingback: Algumas considerações sobre críticas positivas - Tales Gubes

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