Não sei quando vi pela primeira vez um beijo entre dois homens.
Se duvidar, foi em O Segredo de Brokeback Mountain, de 2005. Ou seja: eu só fui ver dois homens se beijando aos vinte anos.
Isso é ridículo.
Ontem, em Amor à Vida, novela da Globo, rolou o primeiro beijo gay da emissora. Muita gente comemorando, com razão, o que se espera que seja o início de um novo momento na teledramaturgia brasileira.
Foi um beijo chocho. Um selinho aumentado, no máximo.
O fato de todos estarem comemorando um selinho entre dois personagens homossexuais já indica o nível de atraso a que estamos submetidos na mídia brasileira. A expectativa é que daqui para a frente outras questões relacionadas a sujeitos LGBT comecem a aparecer com maior frequência.
Bem ou mal, as novelas da Globo pautam o nível da moralidade da população. A novela, como a publicidade em geral, não está aí para fazer revolução, mas sim abraçar mudanças sociais em busca de público.
O beijo gay na novela é um claro sinal de que o público LGBT se tornou uma força que precisa ser reconhecida.
Que bom que isso está acontecendo.
Talvez agora crianças, adolescentes e tantas outras pessoas perdidas pelo país passem a encontrar modelos para seguir, pessoas com as quais elas possam se relacionar idealmente.
Eu não quero conquistar um lugar na normalidade, esse meio-termo que condensa o aceitável a partir do julgamento daquilo que é considerado anormal. Eu quero que pessoas como eu encontrem caminhos para se encontrar, e que a cada dia esses caminhos estejam mais acessíveis.
