Aprendendo com um filme de sexo

Encontrei um filme pornô que me lembra a infância. Nota: esse será um texto sobre memórias, sexo e como o sexo ajuda a construir identidades. Outra nota: é um texto explícito, eu falo de sexo abertamente; se isso te ofende, te vejo no texto de amanhã.

Eu era pequeno, dez, doze, quinze anos e não sabia de nada. Vivia trancado em casa reclamando que até a mulher dos Tribalistas cantava “já sei namorar, já sei beijar de língua” e eu não. Minha infância foi muito curiosa, muito presa no meu próprio imaginário. Passava vidas brincando no pátio enquanto via na rua meus colegas da escola passando de um lado para o outro com suas vidas.

Acho que vem daí essa minha sede de viver a todo custo.

A cena está muito bem desenhada na memória: eu de joelhos brincando de carrinho com meus vizinhos (todos eles três ou quatro anos mais novos que eu) enquanto meus colegas de escola passavam, me olhavam, davam oi e seguiam seus rumos. Eles já estavam atrás de outras coisas, coisas que eu não entendia.

Uma colega na sétima série perguntou se eu já podia ter filhos. Respondi que sim cheio de convicção, mas não tinha bem certeza. Duas ou três semanas depois descobrimos que não deveríamos fazer perguntas indiscretas – a diretora veio dizer – sobre a gravidez dela, que já estava sendo difícil o bastante sem a curiosidade dos colegas.

Não lembro por quanto tempo ela continuou na minha vida. Acho que largou a escola.

Em resumo, eu não tinha vida, muito menos vida sexual. Uma vez no clube – meu pai tinha disso de levar os filhos no clube, piscina, muita gente, diversão… tudo o que eu queria eram livros – vi um moço passar pelado por mim. Foi a primeira vez que vi um corpo nu na minha frente, coisa de dois passos e uma esticada de mão. Não falei para ninguém sobre isso, só fiquei lá impressionado.

Acho que é a primeira experiência erótica da qual me recordo.

Já que eu não tinha vida – estamos falando de um guri de dez ~ quinze anos –, foi com filmes que comecei a ter alguma noção do que procurar no mundo.

A única certeza era que as referências que eu tinha não serviam para mim.

Eu não conhecia nenhum homem que gostasse de outros homens, então essa não era uma possibilidade na minha cabeça. Tinha uma tia que diziam que era lésbica, mas isso era tão misterioso e falado pelos cantos que jamais poderia ser uma coisa boa.

Minha avó tinha umas revistas em quadrinhos cheias de putaria. A maioria era heterossexual, o que já me servia para observar o corpo masculino e sentir tesão. Para alguém inerte como eu era, sentir alguma coisa já era um baita prêmio. Desnecessário dizer o quanto eu vibrei quando achei uma história com dois caras que dividiam uma menina e eventualmente se beijavam.

De certa forma, meu irmão foi o responsável pela minha iniciação erótica. Não, nenhuma revelação de incesto por aqui, não se excitem.

Meu irmão tinha filmes pornôs em casa. Quando todo mundo saía, eu colocava a fita – estamos na época das fitas, ainda! – e aproveitava o caminhoneiro sendo chupado por uma mulher. Aqui um parêntese necessário: aquela era uma das poucas fitas a que eu tinha acesso, só isso explica meu tesão, já que meu tesão hoje aponta para tipos físicos bem diferentes.

Pouco depois dessa época nós passamos a ter um computador com acesso à internet. Eu ainda não sabia usar direito e simplesmente ia usando. Como eu ia saber que existia um histórico de todas as páginas que acessava?

Um dia meu irmão veio me perguntar que tanto de página de foto de homem pelado era aquele. Gelei. Menti, nem sei o que eu disse, mas parece que ele esqueceu, porque anos depois ficou muito surpreso quando soube que eu era gay.

(Não que eu tenha facilitado. A história é meio engraçada. Eu estava no meu primeiro namoro e queria usar a casa para ficar a sós com meu digníssimo. O meu irmão estava lá porque queria dar uns pegas na namorada dele, então a coisa ficou num impasse. Eu pedi para que ele saísse porque queria usar a casa, ele perguntou se a guria era muito tímida. Eu disse que não era guria e alguns meses depois acho que ele finalmente conseguiu lidar com a informação.)

Depois disso passei a ser mais cuidadoso.

Acessava uma página e depois apagava o histórico. Foi nessas idas e vindas que descobri sites de vídeos. Na época era um inferno, tinha que assistir a clipes de um minuto cada. Nessas incursões pela sexualidade virtual, encontrei um vídeo que passou a ser minha referência de sexo. Porque, né, eu nunca tinha transado nem estado muito perto (além daquela vez no clube) de um corpo nu.

Eram dois rapazes numa cozinha e eles brincavam um com o outro e se chupavam e lá pra frente tinha penetração e eu ficava doido naquilo. Um deles ficava com o dedo no pênis enquanto o outro chupava e tenho certeza que até hoje faço uma coisa parecida porque aprendi ali.

(Informação demais? Sorry…)

Passou um tempo e eu perdi o acesso a esse vídeo. Não sei se o site sumiu ou se eu simplesmente esqueci qual era o endereço, mas nunca mais havia encontrado o danado do vídeo.

Ele foi tão forte como primeira referência audiovisual para sexo homossexual que eu nunca o tirei da cabeça. Sempre foi uma referência, mas como eu poderia procurá-lo na internet? “Dois caras transando”? Oi, essa é a descrição de qualquer sexo gay.

Então ontem, num desses sites que compilam pornografia (ah, eu poderia dizer que estava buscando as memórias de infância ou algo assim, mas era só punheta, mesmo), ele estava lá. Reconheci no segundo em que vi a imagem reduzida. Baixei-o na hora.

Existem coisas da infância que perdem a força quando assistimos anos depois. Chaves, Jaspion, Jiraya, essas coisas não me afetam como afetavam antes.

O filme pornô, não, ele continuou com todo o efeito.

Em um mundo sem referências de identidade, eu encontrei às escondidas em filmes e sites modelos de como eu poderia ser. Não eram os melhores modelos, mas já me davam uma noção do possível.

Não há explicação para a dor de crescer sem saber que é possível ser quem se é. Não é propriamente uma dor, é um vazio. Até 2006 eu não existia e muito disso é porque eu não tinha para quem olhar e seguir. Eu estava sozinho entre meus sentimentos e desejos.

Esse filme pornô (e tantos outros) era um pequeno refúgio para alguém que ainda não havia se encontrado, tampouco encontrado semelhantes.

Estar sozinho no mundo é ruim demais.

6 comentários em “Aprendendo com um filme de sexo

  1. Impressionante como eu vivi exatamente a mesma historia, suprimindo um detalhe ou outro. até hoje eu identifico que tenho uma grande dificuldade de saber quem eu sou porque, lá atrás, me apartei de mim mesmo de uma forma tão brutal que até hoje só consegui juntar umas migalhas de mim mesmo…

  2. Ri litros. adoro memórias sexuais, desviadas e perturbadas. quanto mais Augusten Burroughs, melhor. me deu até vontade de reler as coisas dele, pela associação. e amei a informação excessiva. ;D
    o gostoso de ter trocado a crítica literária pela crítica de dança é que agora eu leio com mais prazer.
    e foi um prazer.

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