Quatro ferramentas para um escritor manter a motivação

Li um artigo ótimo da Susan Dennard no Fiction University. O texto original, chamado How I Stay Motivated During the Tough Times (“Como eu me mantenho motivada durante os tempos difíceis”), traz algumas ferramentas que a escritora utiliza para enfrentar o cansaço que volta e meia ataca escritores. Este meu texto é metade tradução, metade adaptação.

Susan começa o artigo dizendo que a vida algumas vezes conspira contra nós. Outras vezes, é o nosso texto que nos ataca. Em algumas outras, são tanto o texto quanto a vida que nos colocam pra baixo (quem nunca teve um dia de bloqueio criativo logo depois de sair na chuva sem proteção e ainda entrar com o pé inteiro em uma poça d’água?).

Contra esses períodos, ela se arma com quatro ferramentas.

1. Ritual e rotina

Não sei se há algo mais poderoso do que rituais. Um ritual é algo que fazemos em uma determinada situação, sempre da mesma maneira. Exemplo? No Estaleiro Liberdade, encerramos cada encontro com um check out, um fechamento para avaliarmos o que foi aprendido ou não. Outro exemplo? Durante um tempo, mantive um ritual do sono, em que eu fazia uma série de alongamentos e depois tomava um chá, de forma a preparar meu corpo e meu espírito para dormir.

O que um ritual faz? Ele organiza e prepara um momento. Em um mundo de distrações e redes sociais, algo simples como fechar o Facebook (e assemelhados), desligar o celular e fechar a porta do quarto (para quem não mora sozinho) já podem ser suficientes para iniciar um período de concentração. Sentar em posição de lótus e respirar profundamente por alguns minutos é algo que eu recomendaria, também, mas aí estamos falando de um nível mais avançado de compromisso (e flexibilidade).

Susan cita, em seu texto, Faulkner. Ele teria dito algo como:

Eu só escrevo quando estou inspirado. Por sorte, estou inspirado todos os dias às nove da manhã.

O meu ritual de escrita, o qual preciso retomar com alguma urgência, envolve um número mínimo de palavras escritas por dia. Comecei com 500 e fui aumentando, o que me rendeu um mês e meio de escritos (basicamente, os três últimos contos que publiquei foram escritos nesse período).

2. Leitura compulsiva

Sabe aquela mania de abrir um pacote de salgadinho e comê-lo inteiro numa sentada? Ou de ir à padaria, comprar gostosurinhas a mais e comê-las todas porque estão ali? Ou fazer um bolo delicioso e ele não durar nem um dia? Esses são exemplos de compulsões alimentares, maneiras de obter gratificação instantânea (comer é bom, doce é bom, gordura é bom, nham nham!).

Só que não faz bem para a saúde.

Alternativamente, nós escritores (que também devemos ser bons leitores, sugere a lógica) podemos fazer leituras compulsivas. Todo mundo já cruzou com um livro tão maravilhoso que nos agarrou madrugada adentro, mesmo que tivéssemos que escrever, que dormir, que dar comida às crianças…

Pois bem, essa é uma prática possível e boa para nossa produção como escritores. Se um livro te agarrou dessa maneira, nossa, vai fundo e não para de ler. Essa leitura certamente vai alimentar a musa inspiradora que suspira em nosso ouvido. E, se não o fizer, pelo menos será um livro maravilhoso para acrescentar à lista de indicações para os amigos. Um exemplo? Amsterdam, do Ian McEwan. Conforme fui chegando ao final da leitura, eu estava desesperado para entender o que aconteceria. Algo semelhante aconteceu com outro livro do autor, Jardim de Cimento.

3. Parceiros de crítica e criação

Preciso mesmo dizer o quão feliz eu fiquei quando idealizei o Ninho de Escritores e depois li essa ferramenta? Muita gente diz que o escritor tem que viver sozinho, numa ilha isolada de qualquer contato social. Isso pode até ser verdade para sentar e escrever, mas depois a gente precisa de contato. Não só a gente, aliás, nossos textos também. Um texto sem leitor não existe.

Contudo, é diferente mostrar um texto para a própria mãe (desculpa, mãe, te amo igual!), para alguém que lê muito ou para alguém que também escreve tão seriamente quanto nós.

Escrever é uma arte e pessoas que também escrevem podem trocar ideias sobre o que está funcionando e o que não está. Uma coisa para se manter em mente: não há verdades na arte; há, quando muito, correntes de pensamento. Ter parceiros de crítica e pessoas com as quais dividimos o fardo da criação não significa, em hipótese alguma, seguir sugestões às cegas. Ter parceiros significa receber críticas, aprender com elas e deixar apenas o que fizer sentido respingar sobre a escrita.

Pensando sobre os contos que publiquei aqui no site, as críticas de mãe e amigos têm me agradado porque são carinhosas, mas pontuais. Em cada texto, há algo a ser melhorado. Em cada texto, descubro o que as pessoas que me leem gostam e o que posso aprender com elas. Essa troca me estimula a continuar escrevendo.

4. As falhas dos profissionais

Essa ferramenta é mesquinha, mas provavelmente também é a mais poderosa. Vivo comentando: voltei a escrever porque li um livro que era uma droga e concluí que eu também poderia ser um autor publicado.

É um alento saber que nossos escritores favoritos também falham, têm bloqueios e enfrentam dificuldades. Para sermos escritores, não precisamos ser tão bons quanto aqueles que admiramos. Na verdade, precisamos apenas ser tão bons quanto pudermos, o que já é muito difícil.

Todos temos uma coisa em comum: somos humanos. Quando esquecemos disso, começamos a idealizar a vida e a prática daqueles que admiramos, distanciando-os de nós. Isso é um equívoco perigoso, pois a distância que inventamos é impossível de ser superada senão pela nossa própria imaginação.

É para isso que servem as falhas dos profissionais. Saber que Flaubert passou cinco anos escrevendo diariamente até concluir Madame Bovary pode acabar com o humor e a motivação de qualquer um. No processo, ele trocava cartas com amigos: nelas podemos ver o lado humano da produção escrita, as dúvidas, os conflitos, as dificuldades.

Esse é outro ponto positivo para a ferramenta #3: se compartilhamos nossas dores com outras pessoas que também as sentem, podemos procurar juntos caminhos para superá-las.

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É isso que busco fazer aqui no blog: trocar experiências. Tem algo a compartilhar, comentar, acrescentar? Deixe um comentário. Só gostou do texto, mas não tem nada a dizer? Escreva “obrigado”.

Obrigado! 🙂