Um moço me pediu dicas sobre como iniciar uma rotina diária de escrita. Ele queria escrever, mas nunca encontrava tempo ou disposição para transformar o desejo em ação.
Tenho uma técnica que passei a utilizar desde o final do ano passado, pois precisava encontrar um jeito de manter uma produção regular. Eu queria criar o hábito de escrever todos os dias.
Essa minha “técnica” não tem nada de inovadora. Na verdade, acho que ela vale para a criação de hábitos envolvendo qualquer coisa, não apenas escrever. Eu copiei algumas ideias que li no Zen Habits, um site maravilhoso sobre comportamento zen. Nele, o autor fala sobre começar aos poucos e ir fortalecendo a prática.
Para que isso aconteça, basta definir uma cota diária a ser preenchida ou alcançada. Em novembro, eu defini um mínimo de palavras por dia. Comecei com 500 palavras por dia de material literário. Ou seja: não valia blogar, escrever artigos acadêmicos etc., eu só considerava contos e/ou romances.
Para algumas pessoas, escrever a primeira versão de um texto vem fácil e fluido. Para outras, é um sacrifício desde a escolha da primeira palavra. No geral, eu pertenço ao primeiro grupo, o que tornava essa minha proposta bem tranquila. Em cerca de 25 ou 30 minutos eu completava a minha cota diária.
Evidentemente esse exercício contempla apenas a primeira escrita. Editar o texto não é algo que poderia ser medido tranquilamente em palavras, até porque cortar palavras costuma ser mais importante do que acrescentar novas expressões.
Por isso estou me propondo a trabalhar aqui em São Paulo com uma métrica diferente (e universal): tempo. Quanto tempo por dia posso reservar para a criação literária? Se o dia é corrido e recheado de complicações, quinze minutos já podem ser o suficiente para começarmos a desenvolver um hábito.
Eu, como pretendo me dedicar ferrenhamente a escrever, penso em começar com uma hora por dia. Ainda é muito pouco, mas para construir um hábito não podemos tentar abraçar o mundo inteiro de uma vez.
É necessário acostumar nosso corpo a se dedicar a algo um pouquinho de cada vez.
Seja com quinze minutos ou uma hora, é importante definir uma progressão diária. Quando eu escrevia contando palavras, aumentava cinco a cada dia. Passado um mês, minha cota diária já era de 650 palavras por dia.
Com relação ao tempo, penso que aumentar um minuto por dia já será excelente. Parece pouco, mas é uma pequena fração do dia dedicada a nada mais além de escrever (sem internet, sem telefone, nada).
Na teoria é mais simples
Há uma construção aqui no vizinho, diretamente abaixo da minha janela. Os pedreiros usam britadeiras e outras máquinas barulhentas das 9h às 17h. Concentração, como?
Ontem fiquei doente, passei o dia de cama febril e dolorido, completamente inutilizado.
São Paulo faz muitos convites, amigos, festas, bares, turismos. Criar uma rotina de escrita implica em abrir mão desses convites e me isolar. Corro o risco de me isolar demais.
Eu preciso ganhar dinheiro e isso deve ser, infelizmente, uma prioridade sobre produzir literatura (a não ser que escrever passe a me dar dinheiro, o que eu adoraria).
Ou seja: o plano é bom, mas a prática vai desenhando outros caminhos e eu vou aprendendo com eles.