Uma noite de Comunicação Não Violenta no Estaleiro Liberdade

Terça-feira participei de um bate-papo sobre Comunicação Não Violenta (CNV) promovido como um encontro aberto do Estaleiro Liberdade. Até então, meu único referencial sobre CNV era um texto muito bom que li no Papo de Homem. Volta e meia retorno a ele para reler algumas questões e pensar sobre elas.

Comunicação Não Violenta

Se eu puder resumir grosseiramente o que entendo por Comunicação Não Violenta, diria que tem a ver com perceber como nossos julgamentos podem ser nocivos à convivência e com buscar pontos de encontro nos diálogos, construindo pontes baseadas na semelhança em lugar de julgamentos apoiados na diferença.

Um exemplo: é diferente eu falar “ela foi estúpida comigo” ou dizer “ontem, ela falou em um tom de voz mais alto que o usual e isso fez com que eu me sentisse ofendido”. A responsabilidade pela reação está em mim e isso é algo que devo assumir. Se eu fiquei chateado ou ofendido, isso não tem a ver tanto com a maneira como ‘ela’ falou algo para mim: o que importa é como lido com determinadas ações de outras pessoas. Além disso, conheço a sensação de estar ofendido e reconheço que ‘ela’ também pode experimentar isso, pois ambos estamos à mercê de nossos sentimentos. Isso nos conecta.

O bate-papo foi instigante. A questão de pensar sobre o que as palavras significam foi muito debatida. Palavras como empatiaviolência são amplas demais para serem consideradas de forma leviana. O cuidado em não assumir que o outro trabalha com as palavras da mesma forma que nós já se mostrou como um passo importante para efetivar uma comunicação que não estimule resultados violentos (seja lá o que isso quer dizer).

Um dos pontos que mais me atraiu foi a discussão sobre mato e jardim, sobre jogar as pessoas direto em algo novo ou esquematizar e orientar teoricamente os processos.

A CNV é um campo vasto de mato denso e, em muitos sentidos, perigoso. Olhar para si próprio e reconhecer de onde nossos pensamentos vêm é não só um desafio, mas especialmente um perigo para a noção que temos de nós mesmos. Um caminho para se envolver com a Comunicação Não Violenta é desbravar o mato na base da coragem, disposto a enfrentar jacarés e encontrar flores silvestres. O bate-papo, para mim, funcionou como uma demonstração de um pedacinho de mato.

O jardim, por sua vez, é uma organização artificial de uma natureza. No caso da CNV, ou de qualquer outro assunto complexo, é uma organização simplificadora das ideias propostas. O texto do Papo de Homem é jardim, é a experiência da coisa real reduzida e explicada em palavras. A experiência é menos completa por ser jardim e não mato? Não, ela apenas é diferente. Eu, como leigo em CNV, gostaria de ter sido introduzido primeiro a um jardim, para compreender “de forma segura” o que está em jogo. Contudo, talvez o exercício de olhar para si não ganhe muito começando de forma segura. É uma questão a ser pensada, em especial por quem se interessa por educação, uma vez que tem a ver com o modo como trazemos às pessoas novas ideias e conteúdos.

Esse olhar para dentro não é novidade para mim (mesmo que não seja algo que, de alguma forma, eu domine). Puxo das minhas incursões budistas a pergunta onde está minha mente agora?

Durante o bate-papo, uma moça estava conversando com outra e mexendo no celular. Isso me incomodou a ponto de várias vezes eu perder a concentração no que estava sendo debatido e começar a xingá-la mentalmente. Foi necessário muito esforço para me perguntar o que, naquela situação, estava me incomodando. Ainda não encontrei uma resposta, mas sei que o incômodo não veio das ações dela, uma desconhecida, mas sim do meu jeito de sentir o mundo.

A irritação veio e foi, permeada pela questão por que estou sentindo isso? Fiquei me perguntando qual era a nossa diferença, considerando que estávamos ambos distraídos dos diálogos do bate-papo: ela de olho no celular, eu de olho nela.

Nesse momento, faz sentido o que ouvi no bate-papo: o exercício da Comunicação Não Violenta envolve descobrir o que temos em comum com a outra pessoa. Em me incomodar e distrair, encontrei mais semelhanças do que diferenças.

Parece um bom começo.

8 comentários em “Uma noite de Comunicação Não Violenta no Estaleiro Liberdade

  1. Olá

    Fiquei muito feliz em saber que está praticando. Realmente a CNV é uma teorização de um assunto vasto e de decorrências amplas.

    Em essência é um espaço de abertura, entrega e compaixão pela vida e pelas pessoas.

    Abraço

    • Tem sido um desafio constante, Frederico, mas um que sinto valer o esforço. Teu texto foi uma excelente maneira de encontrar e conhecer o pouquinho que hoje entendo sobre CNV. :)

  2. Obrigado pelo texto e pelo link do texto em ‘Papo de Homem’. Me pergunto o porquê de eu não ter pensado nesse conceito antes. Parece tão óbvio depois que o conhecemos!

    • Geralmente é desse jeito que absorvemos as coisas que realmente importam: como se elas devessem fazer parte de nós desde sempre. Eu me sinto uma pessoa melhor desde que parei para pensar que os outros também têm necessidades e que algumas delas podem ser facilmente cuidadas a partir do jeito que eu me comunico. :)

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