Uma pedra no lago (ou: a importância de sair de casa)

Eu tinha certeza que havia sido péssimo e que todos haviam me achado ridículo, uma verdadeira fraude. Em junho, quando fui convidado para mediar o evento Como nasce um livro, na ECA-USP, fiquei empolgado e nervoso. Afinal, eu estava entre dois caras com trajetórias de trabalho muito fodas e com experiências bacanudas para compartilhar. Mais do que isso, eles brilhavam com uma autoconfiança que eu não tinha naquele momento.

(Spoiler alert: eu ainda não tenho, mas quem se importa?)

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Depois do evento, recebi alguns e-mails da galera que participou. Diziam que gostaram, que foi útil, que foi bacana. De início, achei que era só porque uma amiga envolvida na organização havia pedido para me escreverem.

Mas daí o tempo passou e eu continuo recebendo e-mails. “Eu fui ao evento e tenho uma dúvida”, “Estava lá e queria conversar sobre um projeto”…

Das duas uma: ou minha amiga continua fazendo campanha por mim (o que eu só pensei como possibilidade para dizer “das duas uma”, já que adoro essa expressão), ou minha participação, ainda que tímida, insegura e cheia de arrependimentos (além de uma bexiga apertada por haver bebido compulsivamente dois litros de água antes do evento começar), afetou algumas pessoas.

Quando falo sobre criação de histórias no Ninho de Escritores (um projeto super legal que acolhe quem deseja escrever, clica aí e assina a newsletter porque todo domingo tem mensagem nova e recheada de conteúdos legais), sempre sugiro que as ações dos personagens devem funcionar como uma pedra no lago. Tu já jogou qualquer objeto na água? O que acontece? Aparecem ondinhas que se espalham por toda a extensão do corpo d’água.

Essas ondinhas são as consequências das ações dos personagens. Se um personagem faz algo, esse algo vai afetar outros personagens, que eventualmente reagirão e criarão novas ondinhas, e assim por diante.

No momento em que aceitei participar do evento, fiquei em frente a umas cem pessoas (ou talvez só cinquenta) e falei, gaguejando ou não, sobre escrever, enfrentar seus medos e ir atrás dos nossos sonhos, minhas ondinhas agitaram algumas pessoas. Quando recebo um e-mail pedindo ajuda sobre escrita, são as ondinhas de retorno destas pessoas.

Talvez isso seja óbvio para muitas pessoas, mas para mim é algo a ser lembrado e relembrado o tempo inteiro. Estar protegido em casa, fugindo de eventos sociais, evita que eu sinta vergonha de não ser tão foda quanto os outros. Isso é gostoso, porque sentir vergonha é uma droga. Mas estar na rua falando com os outros e desbravando o mundo mostra para o mundo que eu também existo e que eu também tenho o que oferecer. Ninguém é tão ruim (ou gagueja tanto) que não possa gerar valor para outras pessoas.

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Ontem encontrei muitas pessoas fodas. Gente engajada em projetos empreendedores fodásticos, como o Cinese, o Estaleiro Liberdade e o Missiorama. É uma galera que eu admiro e respeito pacas. Só de encontrar com eles, já me sinto motivado a correr atrás das minhas ambições. As ondinhas deles me tiram do lugar.

No encontro de ontem éramos todos apenas pessoas tentando descobrir o melhor jeito de encaminhar a vida. Sem idolatrias, sem mágicas. Nada mais que pessoas com habilidades específicas e buscas singulares – mas juntas num mesmo espaço porque se gostam, porque curtem coisas parecidas, porque surfam nas mesmas ondas.

Estar no mundo é um pré-requisito para sentir (e surfar n) essas ondas. Estar no mundo é se jogar num lago sem fim, descobrir como nossas ondinhas podem mexer com os outros e como os outros mexem com a gente.

(Pausa para evitar uma frase de efeito que encerre o texto.)

Eu gosto de terminar meus textos com ultimatos. A partir de hoje, vou sair mais. Que venha a rua! Vamos desbravar essas ondas! Mas não é assim que o jogo da vida funciona, porque saber o caminho é diferente de viver o caminho. Então vamos combinar uma coisa? A gente segue sem promessas, vivendo as ondas e tentando se jogar mais nas águas da vida. Se rolar, bom. Se não rolar, a gente tenta de novo depois. Que tal? :)

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