Como nasce um livro, com Gustavo Piqueira e Pedro Gabriel

Fui chamado para mediar um bate-papo na USP chamado “Como nasce um livro”. A proposta, elaborada pela galera do Jornalismo Junior da Escola de Comunicação e Artes, era apresentar o processo de criação de um livro desde a ideia até a sua impressão. Dividiram a mesa comigo dois caras muito fodas: o Gustavo Piqueira, designer com mais de 300 prêmios, escritor com 16 títulos publicados e experimentador nas artes das narrativas gráficas; e Pedro Gabriel, publicitário responsável pela página Eu me chamo Antonio, com mais de 900 mil seguidores no Facebook, e poeta-ilustrado de guardanapos.

Primeiro comentário: morri de medo, achei que não era bom o bastante e mimimi. Mas segura a onda, porque piora.

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Cada um tinha cinco minutos para se apresentar. Pensando no processo de fazer livros, optei por falar apenas do Ninho de Escritores ignorando meu trabalho como diagramador e revisor e minha experiência como escritor LGBT. Quando fiz essa opção, eu ainda não sabia que engasgaria, tremeria e gaguejaria durante todos os meus primeiros minutos. Se a primeira impressão é o que fica, acho que falhei em estabelecer alguma confiança com o público, ao menos de inicio.

Segundo comentário: foda-se. Paguei mico, mas caiu a ficha de que tenho que mostrar meu peixe. Se alguém quiser comprá-lo, melhor ainda, mas meu trabalho lá era, antes de mais nada, deixar claro como eu poderia ajudar a cada um que estava naquele auditório. Fica de lição para o futuro.

Eu fui ao bate-papo sem imaginar que poderia aprender muita coisa, até porque, mesmo me colocando pra baixo, eu reconheço que tenho uma baita experiência na área editorial.

Terceiro comentário: vontade louca de especificar que minha experiência é prioritariamente acadêmica, como se alguém pudesse levantar e gritar que não sei nada de mercado. Autoestima baixa é uma bosta, mas pelo menos ela não me impediu de estar lá.

O Gustavo e o Pedro, talvez mais acostumados a contarem suas histórias (e a reconhecerem a importância da própria história como exemplo, modelo e lição para outras pessoas), falaram com tranquilidade e presteza. Minha inveja só aumentou.

Fui convidado para ser mediador no debate e usei isso como desculpa para me invisibilizar, como se o que eu tivesse a oferecer fosse, de alguma forma, menor por causa dos meus números modestos. Bobagem pura, mas um tipo de bobagem que teve total conexão com as ideias que foram discutidas durante as duas horas que passamos juntos lá na USP.

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Em certo ponto, Pedro falou sobre a “insegurança tremenda” que ataca qualquer um que trabalhe com processos criativos. Tive um exemplo dessa insegurança quando peguei no microfone para falar e, depois do bate-papo, quando uma estudante veio me contar que tem um livro na gaveta, mas não tem a coragem de mostrá-lo para outras pessoas.

A gente pensa que o trabalho criativo é fruto de algum tipo de mágica, mas a verdade é que ele é trabalho como qualquer outro. Qual padeiro deixa o pão guardado na gaveta? Pior ainda quando o que está guardado nem é livro, é só ideia. Afinal, ideia na gaveta é apenas gaveta.

Um estudante perguntou sobre o papel do networking no sucesso. A definição de sucesso para ele, me pareceu, é a clássica do “quanto mais número, melhor”, o que só ajuda a derrubar a confiança criativa necessária para produzir e publicar.

As respostas de Gustavo e Pedro foram diretas: sem ter um trabalho com bom conteúdo para mostrar, não adianta fazer networking, “jogar tênis” ou participar de encontros com outros profissionais. No meio da literatura, por exemplo, só é escritor quem escreve.

Questionados sobre o processo criativo e a rotina de criação, Gustavo e Pedro destacaram a importância do olhar de estranhamento e da vontade de dizer algo para o mundo que seja próprio, uma verdade individual que possa reverberar nos leitores – mas que não é feita somente para isso.

O reconhecimento externo (de leitores e do mercado) foi outro tópico bastante perguntado. Como lidar com críticas, quando aconteceram as primeiras vitórias, qual é o momento em que o gato pula do anonimato para o reconhecimento? Um resumo das respostas: isso não é importante. Ou, pelo menos, não é o mais importante. Um trabalho do qual nos orgulhamos continuará nos dando orgulho com ou sem prêmios, com ou sem fãs.

Quarto comentário: reconhecimento externo não é o objetivo, mas quando acontece é gostoso pra caramba. Recomendo, mesmo correndo o risco de nos tornarmos dependentes e só criarmos quando alguém dá um tapinha em nossas costas e diz “é por aí!”.

Vale sempre lembrar que as críticas são reflexo da relação do público com a obra, não com o artista. E mesmo quando parecem ser jogadas ao artista, com frequência elas dizem mais da relação do crítico consigo mesmo do que efetivamente com o trabalho artístico de fato.

Quinto comentário: há críticas e críticas. Tem aquele povo ácido que, por falta de vida própria, destila veneno contra o trabalho dos outros. Esse tipo de crítica tem mais é que ser ignorada. Mas também tem gente que domina a arte de criticar, de destacar pontos fortes e apontar pontos que mereçam ser fortalecidos para que as obras artísticas cresçam, pessoas capazes de estabelecer vínculos entre a obra criticada e suas referências e influências. A crítica que insere um trabalho num mundo maior de relações e aprendizados é bem diferente e facilmente discernível daquela que só existe como punheta mental para sanar temporariamente as frustrações de quem observa, sentado na cama, o mundo caminhar.

Já o pulo do gato, do nada para a fama, esse, é uma ficção. Não existe um momento mágico a partir do qual tudo passa a dar certo. Mesmo um sucesso estrondoso e ultra rentável pode ser seguido de fracassos e equívocos.

A jornada, mais uma vez, é mais importante que o destino.

Levei para o bate-papo uma das perguntas que mais recebo no Ninho de Escritores: como saber se somos “bons o bastante”?

A verdade é que não sabemos, mas a resposta não é tão importante quanto a pergunta. O que importa é fazer, pois sempre haverá quem goste e quem desgoste. Talvez ainda mais importante seja perceber que, para viver da própria arte, precisamos tratá-la não como hobbie ou inspiração divina, mas como trabalho profissional, uma marca a ser gerida, um serviço tão cotidiano quanto o trabalho de um padeiro. O resultado ser “mágico” não diz nada sobre o trabalho, este bastante mundano e desprovido de milagres.

Permeando toda a conversa, o tempo: “o cara tem que perder tempo para ganhar poesia”, disse o Pedro. Ouso estender essa fala para a vida: precisamos investir tempo para alcançarmos qualquer tipo de valor, seja uma boa amizade, um livro bem lido ou um trabalho bem feito.

Uma resposta possível para a pergunta “como nasce um livro”, então, é: por meio de um longo e trabalhoso parto. Nesse ponto, livros são como filhos: se nutrem de nosso tempo e de nossos recursos e são, com sua própria medida, um fino casamento entre trabalho e magia. Mas também podem ser descartáveis, coisas ruins criadas sem amor nem cuidado. Nesses casos, pedir por reconhecimento é pedir demais.

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Um último comentário: fui achando que ia ensinar, saí aprendendo muito e com um senso de propósito renovado. Já anotei na minha parede de conselhos diários: se(ê) foda. Se foda o que os outros dizem sobre o meu trabalho, porque ele é meu e deve partir de mim, antes de tudo. E “sê foda”, seja foda, para que o que parte de mim seja digno de tocar os outros.

Essas foram algumas reflexões sobre o bate-papo “Como nasce um livro”. Se quiser trocar alguma ideia sobre o que escrevi ou saber mais sobre o que rolou, deixa um comentário. :)

20 comentários em “Como nasce um livro, com Gustavo Piqueira e Pedro Gabriel

  1. Cara, deixa disso, você mandou muito bem! Ficar nervoso faz parte, e isso não atrapalhou sua participação. Você colocou boas pautas pra discussão e nos comentários mostrou que tem muita experiência e que seu projeto é legal pra caramba. Foi um evento sensacional, parabéns!

  2. Tales, você estava sensacional!
    Em nenhum momento você pagou mico. Fiquei extremamente contente em ter a oportunidade de conhecer você e seu projeto assim tão de pertinho!
    Além do mais, você disse coisas que levarei comigo sempre. Somos imensamente gratos pela sua presença, que deixou nosso evento mais especial ainda.
    Um enorme abraço do pessoal da Jornalismo Júnior

  3. Tales, todos nós da jornalismo júnior adoramos sua presença! Você colocou ótimos pontos e seu projeto é muito legal, sério! Não é todo mundo que consegue tirar uma ideia tão bacana como essa e colocar em prática. A galera da organização do evento comemorou muito quando você disse que gostaria de participar e nos deixou muito felizes com sua vinda! Obrigada por tudo, foi ótimo <3

  4. Eu gostei muito muito muito de conhecer mais sobre você e o seu trabalho incrível. Obrigada por ter participado do nosso evento, de coração.

  5. Tales, sei que estou atrasada haha mas eu estava no evento e achei suas palavras e seu projeto muito inspiradores. Engraçado você expor sua insegurança dessa forma tão bem humorada e sincera! Mas saiba que em nenhum momento você transpareceu isso. É bom até ver que mesmo alguém experiente como você pode ter receio diante de um convite assim… me faz pensar que nós nunca estamos preparados. Nós nos redescobrimos o tempo todo. Parabéns!

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