Quando o armário continua sendo uma ameaça

Não se sai do armário uma vez, mas várias. Na família, entre os amigos, no trabalho, cada relação demanda um novo exercício de rompimento (ou confirmação do rompimento) com a expectativa de heteronormatividade.

Embora minha experiência pessoal tenha sido assim, pessoa a pessoa e frio na barriga cada vez menor, eu ainda não havia pensado sobre sexualidade nestes termos. Afinal, depois que as pessoas mais importantes sabem que tu é um cara que gosta de outros caras, tudo fica mais fácil – não porque ser gay seja um problema ou algo difícil de falar a respeito, mas sim porque vivemos numa sociedade cretina que volta e meia apedreja (muitas vezes literalmente) quem é gay.

Quem vem depois se ajusta ou cai fora, nem chega a ganhar importância. A bem da verdade, as primeiras pessoas só importam desse tanto porque estamos acostumados com elas na vida e queremos que elas continuem em nossa história, mas nunca houve margem para eu deixar de ser quem sou ou querer quem quero por conta de resistências alheias.

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Nos últimos anos, eu ser gay não foi uma questão relevante. Todo mundo sabe e quem não sabe é livre para me perguntar. Ou, pelo menos, assim eu achava.

Estive em Porto Alegre visitando minha família e meus amigos queridos. Já desde duas visitas, quando fui com meu namorado, tive a oportunidade de compartilhar com ele o contato com pessoas que estão na minha vida há dez ou mais anos. Essa foi uma experiência nova, já que meus relacionamentos menos escondidos se deram em Goiânia (onde passei a conhecer pessoas em 2010) e São Paulo (2014).

Nesta semana, porém, marquei de visitar meu pai. Tenho com ele uma relação de carinho algo distante, perpetuada mais pelo costume de um não procurar ao outro do que por qualquer tipo de desencontro. Houve um tempo em que eu achava que isso era natural porque nós tínhamos gostos e perspectivas de vida diferentes. Ele gosta de futebol, eu, de livros. Os filmes que ele assiste não são os mesmos que eu gosto, e assim por diante. Hoje sei que isso é bobagem, porque gostar de alguém não depende obrigatoriamente dos gostos desse alguém. É algo que existe e é reciprocado por qualquer que seja a razão.

Ocorre que nunca conversei com meu pai sobre eu namorar com homens. Nunca houve necessidade, porque anos atrás meu irmão contou para ele que eu namorava um rapaz e recebeu a melhor das respostas. Os dois, meu irmão e ele, caminhavam pela praia depois de uma temporada em que muitos dos nossos parentes insistiam em perguntar se eu tinha namorada, se eu pegava mulher etc. (Nota: pegar mulher é uma ideia tão machista que dá até certa dor em reproduzir.) Curiosidades de família, imagino. Meu irmão, cansado, pediu que meu pai o acompanhasse e então contou a ele que eu estava namorando um cara.

Meu pai não respondeu e eles continuaram caminhando.

Meu irmão, talvez esperando alguma reação bombástica e sem fôlego (semelhante à dele próprio, quando contei que precisava que ele saísse de casa porque queria receber meu então digníssimo), ficou incomodado com o silêncio e perguntou se meu pai não tinha nada a dizer.

Ele respondeu que não, que tinha uma irmã lésbica e que isso não significava nem mudava nada, o amor que ele sentia por mim continuava igual.

Hoje, entretanto, eu carrego no dedo um anel de compromisso cujo valor vai além do mostrar para o mundo que eu tenho um namorado: mostra também que tenho orgulho da pessoa com a qual divido a minha vida. Enquanto conversava com meu digníssimo e mencionava o jantar com meu pai, sugeri que estava ansioso pela possibilidade da nossa vida afetiva ser tópico de conversa. A ansiedade não tinha nada a ver com desejo de aprovação, mas sim com o inusitado de conversar sobre algo que, apesar de importante para mim, nunca foi tema de diálogo aberto.

Nesse momento, entendi por que “parada gay” vem de “pride”, orgulho. Eu tenho orgulho da vida que eu levo e das escolhas que faço, orgulho ao ponto de usar um anel no dedo e lidar com potenciais indisposições advindas de conversas silenciadas. Ter orgulho é o que me permite ter voz.

Há um momento na vida em que percebemos que o tal armário não é uma instituição criada para nos proteger. Pelo contrário, armário não tem portas de vidro, armário é sinônimo de silêncio, de sussurros à meia luz. A gente só sussurra quando não quer que os outros ouçam o que queremos dizer, quando temos medo do que podem pensar de nós.

Mas eu não tenho mais esse medo. :)

4 comentários em “Quando o armário continua sendo uma ameaça

  1. “Ter orgulho é o que me permite ter voz.”
    Disse tudo!

    Há mais ou menos 2 anos atrás, eu dizia não estar no armário, não esconder quem sou. Mas evitava a todo custo mencionar “meu esposo”, ou deixar vazar qualquer palavra ou frase que desse uma dica sobre minha sexualidade. O problema é que as pessoas acabam percebendo a camuflagem e não te vêem com muito respeito. Mas quando falamos naturalmente e com orgulho de que somos, quando a ocasião é propícia (quase sempre), inspiramos respeito nas pessoas ao nosso redor (com excessões) e ganhamos auto-confiança. E voz.
    Obrigado, Tales.

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