Aquela sensação esquisita de ser uma fraude

Sábado participei de um curso sobre gestão de editoras. Acordei cedo, me vesti normalmente, peguei o metrô e fui. Ao chegar, vi pessoas mais velhas que eu, bem vestidas e com cabelos milimetricamente ajeitados à base de gel e horas no banheiro. Imediatamente me perguntei o que estava fazendo lá, quem eu pensava que era para estar no meio de tanta gente qualificada. Eu só podia ser uma fraude e logo me descobririam.

A primeira vez que li sobre essa sensação de fraude foi no Cem Homens. Reconhecimento à primeira leitura.

Em resumo, o que rola é uma inquietante sensação de que ser bom não é para a gente, que os outros sempre serão melhores que nós etc. Os motivos são incontáveis. Para as mulheres, em geral tem a ver com serem criadas para a vida doméstica e não empreendedora, resultando num receio feroz de se aventurar fora do domínio da casa.

Eu não fui criado para explorar o mundo, mas sim para ser subserviente a ele. Venho tentando mudar isso hoje em dia, mas é algo difícil de fugir.

Quando entrei no espaço do curso e vi meus colegas, coloquei-me numa posição de inferioridade. Obviamente todos eles tinham mais experiência no mundo editorial e meu papel era apenas aprender, absorver tudo o que pudessem transferir a mim.

Para alguém que não acredita na educação bancária (um conceito de Paulo Freire sobre o tipo de relação de sala de aula na qual o professor “deposita” seu magno conhecimento na cabeça dos vazios estudantes), eu comprei bem rápido essa ideia, não é mesmo?

Quando o curso começou, permaneci no meu canto esperando a sabedoria do professor e mantendo-me afastado de qualquer pessoa que pudesse falar comigo e descobrir que eu era nada mais do que uma criança brincando entre adultos.

Conforme o professor ia falando, fui percebendo que a maior parte do conteúdo não era novidade para mim.

Na hora do almoço, conversando com dois colegas, outras pistas foram aparecendo.

Quando tudo acabou, fui para casa com a sensação de haver enganado a mim mesmo. A preocupação nem foi tanto pelo curso ter sido fraco (e foi), mas pela maneira como eu me diminuí no segundo em que entrei naquele espaço. A forma como as pessoas se portavam foi o suficiente para me colocar numa posição de inferioridade, como se usar roupa social tornasse a pessoa mais competente.

Não é por nada que livros de marketing pessoal vendem feito água.

O curso foi sábado e até agora estou indignado por haver menosprezado minha experiência desta forma. Eu tenho mais de cinco anos de experiência com edição de livros, fui ensinado por profissionais competentes e já assumi projetos complexos. Ainda assim, me rebaixei por causa do modo como meus colegas se pareciam.

Desta vez foi por serem mais velhos e estarem melhor vestidos que eu. No futuro isso desaparecerá, certo? Não, é óbvio que não. No futuro eu olharei para os jovens brilhantes e pensarei que são tão jovens e brilhantes e eu lá, decrépito e inútil.

A solução para este problema está em mim. Eu preciso acreditar na minha capacidade e compreender que a comparação não é o melhor caminho. Eu não estava lá para competir. Alguns tinham mais experiência em inúmeros campos de atuação, sem dúvida. Outros, menos.

O chato de vivermos em uma sociedade que se diz meritocrata é que sempre queremos estar na frente. Quando não estamos, nos sentimos diminuídos.

Dica para a vida: todo mundo tem algo a contribuir, seja lá o que for, mas só descobriremos isso em contato, não fugindo das experiências.

Hoje à noite tenho um curso para escritores, o primeiro encontro de três ou quatro. Escrever é o que me trouxe até São Paulo e ao mesmo tempo é uma das coisas que tenho mais receio de não ser bom o bastante.

Respira fundo, Tales, hoje será mais uma oportunidade para enfrentar teus medos.