O ego frágil do corpo malhado

Um sujeito veio falar comigo na internet. A foto era de um corpo bombado sem rosto (do peito até a barriga e mostrando também o braço). Beleza, é internet, cada um escolhe a foto que deseja.

Em poucos minutos descobri que, apesar de ser uma pessoa que dedica muitas horas por semana à academia, o moço conseguia conversar.

Sim, eu tenho preconceito com ratos de academia.

Vai daqui, vai dali, o cara me diz que tem um negócio e eu pergunto qual. “Sonhos e prazeres”, me diz. “Tá a fim?”, questiona.

Pausa para o que aconteceu no meu cérebro: um cara malhado sem camisa falando comigo na internet menciona que trabalha com sonhos e prazeres e pergunta se estou a fim. O que eu entendo por sonhos e prazeres, em especial a segunda parte, é sexo. Logo, nada me pareceu mais lógico: o cara estava oferecendo sexo. Mesmo que não estivesse, ele obviamente estava ciente do caráter erótico da pergunta feita.

Eu, com minha sutileza habitual, respondi que não, obrigado, porque seu corpo não me atraía, mas o nível da conversa sugeria que talvez pudéssemos investir em sermos amigos.

Deste momento em diante, a conversa virou um desfile de xingamentos. Virei desnecessário, arrogante, ofensivo, chato, bobo etc. Minha ofensa mortal? Não ver nada interessante num corpo (excessivamente) malhado.

Um corpo para pescar elogios

Diz uma amiga que nós nunca nos livramos completamente dos nossos preconceitos, então o melhor é assumi-los. Pois aqui digo: eu tenho preconceito com pessoas que investem horas diárias na academia.

Não entendo a ideia de ficar com braços maiores do que a cabeça.

O que me incomoda, penso, é saber que esse tempo investido na malhação poderia estar sendo utilizado para outras coisas que eu consideraria mais agradáveis: leitura, dança, conversas filosóficas, dormir…

É óbvio que isso sou eu querendo que o mundo seja do jeitinho que eu imagino que deveria.

Uma bobeira preconceituosa.

Talvez eu não estivesse tão incomodado com essa história se a criatura em questão fosse um pouco mais autoconfiante. Se na hora de malhar pra depois encantar os boy ele estava todo sério sobre o corpo, qual o problema em um carinha na vida não curtir isso?

Fico com a singela impressão de que aqueles músculos todos eram como um balão ameaçado pelo meu comentário-agulha.

Um balão feito para ser visto, admirado e desejado, mas nada além disso.

Dica para a vida: não vamos basear nossa autoimagem no fato dos outros nos desejarem ou não, do contrário seremos todos reféns de gente como eu.

5 comentários em “O ego frágil do corpo malhado

  1. Por acaso hoje mesmo eu passei por uma situação bem semelhante. Eu acho que o corpo funciona como uma moeda de troca, a pessoa parece que busca uma garantia de ser desejada e querida através da aparência socialmente validada. O interessante é que algumas dessas pessoas com quem conversei (ou tentei) comentam que todos querem só sexo com elas, mas é o que elas também aparentam estar “vendendo”. Outro ponto curioso é que elas pouco perguntam sobre você, não há um interesse real em saber quem você é, ou talvez essa seja uma ideia que passe longe.

    • É, Rafael, acho que as pessoas participam do mercado dos corpos sem sequer perceber o que estão fazendo. Como se fosse tudo natural e pronto, desde sempre assim.
      Daí tu não vê graça no que a pessoa está te oferecendo e parece que destruiu o mundo delas. É triste, de certa forma, mas inegável que também aconteça comigo, embora em outros níveis.

  2. Tales, que bom ler teus textos!
    Eu entendo academia como estética, sim, é uma das razões de eu malhar. Agora essa realidade de comprar 5kg de suplemento e passar 3h na academia por dia é surreal. Pra mim é a única atividade física do dia fora caminhar, e minha genética PRECISA de exercícios. O que mais vejo é pessoal APENAS focado no corpo. Chega a ser rotina carinha chegar querendo ver foto de tudo que é parte do corpo, só falta querer raio-x. Uma conversa, chamar pra um café, uma janta? Pessoas comem, pessoas pensam – eu sei, pessoas transam.
    Mas não é assim que funciona.

    • Eu gosto de pensar no exercício físico como algo para manter o corpo funcionando, mas o problema é exatamente esse que tu detectou: o transformar essa atividade em centro da vida, em referência de tudo. Na vida online, então, é um saco a maneira com que analisar o corpo do outro diz o que é possível ou não antes mesmo de saber a pessoa que habita aquele corpo.
      Acho que estamos (no geral) muito acostumados a opções restritas, marcadas, pontuais. Encaixotados.

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