4 coisas que aprendi sobre ansiedade sendo professor

– Está nervoso? – meu namorado perguntou. Ele sabia do meu medo profundo de ser reconhecido como uma fraude. Um dia antes do primeiro Ninho de Escritores: Expresso, o que eu poderia estar além de aterrorizado?

A verdade é que eu não estava nervoso ou aterrorizado, mas ansioso. Em pouco tempo, conheceria dezessete pessoas interessadas em escrever, pessoas que haviam pagado para aprender um pouco do que sei sobre escrever e contar histórias. Naquele momento, o que pesava em mim era a responsabilidade de proporcionar uma boa experiência de aprendizagem.

E agora, dois Expressos depois (São Paulo e Rio de Janeiro), já consigo rabiscar alguns aprendizados da perspectiva do professor.

A ansiedade é parte de querer fazer um bom trabalho

O curso Expresso foi muito pensado. Os primeiros planos dele foram rabiscados na época em que lancei a Escrita Gourmet, em outubro de 2014. Eu já tinha em mente o formato, mas faltava o conteúdo, que foi estruturado ao longo dos encontros do curso regular do Ninho de Escritores nos últimos sete meses. De tanto planejar e querer fazer bem feito, fiquei ansioso.

planos Ninho de Escritores

Dos planos que já existiam em outubro, falta apenas criar o curso online (abril está chegando…)

Agora me parece óbvio que a ansiedade é parte de querer fazer um bom trabalho, mas isso é muito diferente de dizer que a ansiedade é parte de fazer um bom trabalho. Porque não é. A ansiedade, nesse caso, é uma preocupação com o que os outros pensarão do meu projeto, do meu curso e, em última análise, de mim. Eu quero fazer um bom trabalho para que, como resultado, as pessoas gostem de mim.

Por mais que eu me esforce para lutar contra o ego (afinal, meu slogan aqui no site é escritor lgbt zen), desta vez deixarei ele onde está. Eu dou muito valor para a minha autoimagem e desde criança tem sido uma batalha garantir que ela se preserve num nível aceitável, mas essa é uma das poucas situações em que consigo imaginar ameaças ao ego como algo positivo. Afinal, se quero ser bem visto e quisto, farei um bom trabalho.

A ansiedade diminui quando a gente sabe o que está fazendo

Dezessete pessoas participaram em cada Expresso até agora. Em duas semanas, tive a oportunidade de trocar experiências e de me aproximar um pouquinho de trinta e quatro pessoas. Quantos mundos e quantas opiniões foram impactadas pelo Expresso? Incontáveis! E isso porque sou apenas uma pessoa desconhecida com um projeto em fase de crescimento.

Se eu me sinto ansioso antes de cada um? Sempre. Mas a ansiedade está diminuindo um pouquinho a cada vez, conforme vou compreendendo melhor o que estou fazendo. O que antes era um processo de defesa (“não quero ser professor para não ficar na posição de alguém que sabe a verdade e a passa adiante”) agora é uma certeza sobre como busco conduzir os processos do Ninho: como um momento de experimentar, de criar em grupo.

Saber disso não resolve a vida, mas ajuda.

Às vezes, cara feia é fome

Eu sou péssimo para saber quando alguém está gostando do que ofereço. Por esse ego fragilizado, sempre acho que qualquer careta tem relação direta com a minha atuação (tenho certeza que mimimi vem do inglês me, me, me!, ou seja, eu, eu, eu). Por isso, quando acabou o Expresso e uma das participantes veio me procurar para dizer que adorou, fiquei chocado. Nada me tiraria da cabeça – além da própria pessoa me dizendo isso – que ela havia odiado cada minuto.

– Tales, amei! – ela disse.

Minha resposta foi um olhar embasbacado, um sorriso trêmulo e um aceno de cabeça. Por dentro, meu cérebro estava ocupado demais realinhando minhas leituras de mundo para conseguir responder ao elogio.

ninho de escritores expresso rio de cima

Um pedaço do Expresso Rio de Janeiro visto de cima

Foi uma participante do Expresso Rio de Janeiro, durante o exercício de apresentações, que matou a charada. Ela escreveu algo como “fico de cara fechada e não falo muito, mas isso não quer dizer que não estou gostando”.

Mesmo que ela estivesse odiando: eu não sou adivinho.

Ensino isso em todos os meus cursos, e mesmo assim falhei em perceber. É impossível sabermos o que os outros personagens estão pensando, podemos reconhecer apenas o que fazem e dizem. Quando dizem pouco e fazem menos ainda, o que nos resta é preenchermos suas características com a nossa imaginação – algo que faremos a partir da maneira como nos percebemos. Se sou inseguro, preencherei qualquer espaço vazio com o medo de que estejam me julgando.

Saber disso me ajuda a desligar um pouco essa ansiedade louca.

Um simples “sim” pode mudar vidas

No final do Expresso Rio de Janeiro, um dos participantes disse:

– Tales, continue dizendo sim para quem só ouve não.

Mesmo eu, pedrinha de gelo que sou, quis chorar. A essência do meu trabalho com o Ninho de Escritores foi definida ali, naquela frase. E foi ouvindo aquilo que percebi o quanto um “sim” faz diferença no final do dia, especialmente quando o “não” é a resposta que estamos acostumados a ouvir.

Quando lanço um evento novo, não é apenas o ato de lançar que definirá se ele acontecerá ou não. O que faz a diferença são os “sims” ditos a ele, os gestos de confiança na direção de uma pessoa até então desconhecida. O primeiro “sim”, em especial, é aquele que quebra o gelo e sugere que não tem mais como fugir. Ouvir um “sim” também ajuda a brigar com a ansiedade, porque se uma pessoa disse, outras também podem dizer.

Um pouco do Expresso São Paulo

Um pouco do Expresso São Paulo

Um dia a ansiedade acaba?

Acho que nunca chegará o dia em que minha ansiedade e insegurança desaparecerão. Mas, à medida que vou aprendendo sobre mim e meu trabalho, vou também descobrindo qual é o lugar da ansiedade na minha vida, a serviço de que ela está e como pode me beneficiar. Sim, é uma droga o aperto na barriga antes de começar a falar, de chegar em um lugar novo, de dizer “eu sou a pessoa por trás do Ninho de Escritores”, mas esse aperto na barriga é um lembrete de que não devo deixar de fazer um bom trabalho.

E, de mais a mais, a ansiedade também me lembra que estou fazendo um bom trabalho. Não estivesse, estaria muitas outras coisas (triste, chateado, irritado, machucado, magoado), mas não ansioso. Estou ansioso porque o futuro me preocupa e porque o presente está bom.

Mais do que isso, prefiro a vida inteira estar ansioso do que paralisado. :)


 

E, falando em estar ansioso… Dia 28 de março tem Expresso Porto Alegre, a terceira edição do Expresso. Nem preciso dizer que estou muito feliz com isso, né? Ainda temos muitas vagas, mas sinta-se à vontade para dizer sim e me deixar mais tranquilo!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *