11 coisas que aprendi sobre empreendedorismo

Seis meses atrás, se me perguntassem sobre como empreender, eu não teria muito a dizer. Eu vivia de serviços freelances, e antes disso havia sido professor em um curso de publicidade (para disciplinas teóricas) ou estudante profissional no mestrado. Empreendedorismo era um bicho de vinte e sete cabeças.

Nos últimos meses, porém, tenho vivido com a renda dos meus próprios projetos. Mas não se engane: essa não é uma história de sucesso da noite para o dia, e sim uma caminhada em direção a uma vida com mais autonomia. Uma caminhada lenta, gradual. Meus projetos ainda não pagam todas as minhas contas mensais e eu não ganhei milhões no primeiro dia de trabalho (admiro muito quem conseguiu fazer isso, mas definitivamente não é o meu caso).

O que trago aqui são pequenas lições que tive, de agosto de 2014 até hoje, sobre como empreender. Não são verdades. São apenas resultados da minha experiência como empreendedor.

Mas, antes de qualquer lição, o que eu entendo como empreendedorismo é a iniciativa de agir para satisfazer as próprias necessidades, ganhando dinheiro com isso. Empreender não é abrir grandes empresas, não é vestir uma gravata para impressionar os outros. Empreendedorismo é trabalho que vem daquilo que acreditamos, que vem da luta por aquilo que é o certo. Muita gente vai discordar dessa noção de empreendedorismo, mas isso não muda nada. :)

Do que eu falo quando eu falo de empreender

Dia 7 de agosto de 2014, entrei na Laboriosa 89 e me escondi na sala privativa, um espaço logo abaixo do salão principal. Eu estava acostumado com o espaço: era lá que aconteciam os encontros do Estaleiro Liberdade, do qual eu participava desde maio. Arrumei almofadas para formar um círculo, espalhei meus materiais, revisei alguns livros e me agarrei ao relógio. Os segundos não passavam, eles se arrastavam.

Foi então que, quinze minutos antes das sete horas, chegou o primeiro participante. Meu tempo para ficar nervoso acabou: eu tinha um trabalho a cumprir e ninguém para me salvar.

Hoje, seis meses depois, ainda conto os minutos antes de cada encontro do Ninho de Escritores. Mas, ao contrário daquela noite de inverno, eu acredito na relação que construí com minha ninhada. E hoje, passados meros seis meses, posso dizer que aprendi muito sobre como empreender.

1. Começar logo é mais importante do que estar pronto

Eu não sou o melhor professor de escrita. Conheço um punhado de gente com habilidades mais bacanas para organizar grupos, escrever, editar, inspirar pessoas. Diga uma habilidade e eu encontro alguém melhor que eu. Sempre haverá alguém melhor (a chance de não haver é de 1 em toda a população mundial, então me perdoe se eu não apostar nessa probabilidade).

A derivação lógica dessa ideia é que nós vamos errar não só uma vez, mas muitas vezes. E tudo bem. No meu caso, estou ajudando pessoas a escrever, não a salvar baleias, então a pressão para não errar é levemente menor.

Se a gente começa logo, erra mais cedo e aprende com esses erros o quanto antes. Isso não quer dizer que há um momento depois do qual não dá mais para começar, uma hora em que se tornou tarde demais. Não importa o que, sempre podemos nos firmar no agora.

2. Divulgar uma data torna tudo mais real

Planejamento excessivo é uma forma de punheta mental, daquelas bem demoradas pra demorar a gozar e aproveitar a sensação. É muito gostoso ficar considerando quanto dinheiro se pode ganhar nas condições ideais. Mas, como bem diz o Larusso, papel aceita qualquer coisa. A prova de fogo é tornar uma ideia em realidade.

Quando decidi lançar o Ninho de Escritores, o primeiro passo foi montar a chamada. Para isso, eu precisava de uma data. Depois que postei aqui no blog sobre o Ninho pela primeira vez, eu tinha um prazo fixado: um mês para divulgar e encontrar participantes. Esse, aliás, é um dos aprendizados mais fantásticos que tive em 2014: faça o chamado e as pessoas virão. Basta crie as condições para o teu mundo ideal existir.

Ao estabelecer uma data e divulgá-la na minha rede de contatos, o Ninho de Escritores começou a se materializar. Eu poderia desistir, claro, mas quem ganharia com isso? Ninguém. Por outro lado, pelo menos eu sairia perdendo (mas arrisco dizer que também perderiam as pessoas que estão ou estiveram envolvidas com o Ninho até aqui).

3. Empreendedorismo é diferente de ganhar dinheiro fácil

Comecei o Ninho de Escritores para ganhar R$ 3,5 mil por mês com um encontro semanal de três horas. Era um plano perfeito, exceto por um detalhe: ninguém se inscreveu nos primeiros quinze dias. Entrei em desespero. Como assim meu plano mirabolante não estava encontrando pessoas dispostas a custear minha vida?

Eu havia cometido dois erros.

O primeiro erro foi empreender por dinheiro. Eu não acredito em trabalhos orientados unicamente por ganhar dinheiro – esse tipo de projeto geralmente me deixa incomodado, sem tesão pelo serviço. O curioso é que eu construí o Ninho de Escritores “com o coração”, pautado pelos meus ideais de como a educação deve acontecer, mas estava focado apenas em lucrar, uma incoerência.

Por isso, quando chegou a hora de escolher entre ficar com o dinheiro ou com os meus ideais, decidi ficar com os ideais. Aprendizagem colaborativa, liberdade, contribuição aberta, abundância. Esses princípios não combinam com enriquecimento rápido às custas dos outros. Mas, como estou descobrindo, oferecer aquilo que acredito me traz não clientes, mas parceiros, amigos, pessoas que acreditam no que faço e no que fazemos juntos (e pagam por isso).

O segundo erro foi achar que eu poderia ganhar muito dinheiro trabalhando bem pouquinho. Empreendedorismo dá trabalho e não existe fórmula secreta para faturar zilhões (ou, se existe, eu obviamente não conheço). Atualmente tenho um plano mais bacana e alinhado com meu propósito: ao invés de trabalhar menos, vou trabalhar melhor.

4. Ninguém vai te cobrar o trabalho

Sabe aquelas manhãs nas quais tu não quer acordar? Quando ficar na cama quentinha numa segunda-feira fria é a coisa mais gostosa do mundo? Pois é, ninguém vai te sacudir e dizer pra levantar, ninguém vai te ligar e perguntar onde está o projeto da semana que vem. Porque não ter chefe é ao mesmo tempo uma delícia – ninguém mandando – e um problema. Se tu não trabalha, teus projetos não crescem. E essa é a única consequência.

(A não ser que tu dependa do teu projeto para viver, daí a outra consequência é a falta de grana e provável necessidade de correr para o primeiro emprego disponível a fim de recuperar as finanças.)

Empreender envolve fazer um compromisso consigo mesmo. Sem a disposição de tornar o mundo um pouquinho mais próximo daquilo que queremos para a vida, não há empreendedorismo que valha a pena.

5. Ser autoconfiante significa ter clareza do que está fazendo

Líderes devem passar autoconfiança: sempre admirei pessoas que manifestam uma aura de certeza e autoridade. Porém, não se trata de certeza, mas de clareza. Ter clareza dos próprios princípios e objetivos é o que torna o caminho menos conturbado.

Eu sei o que estou fazendo: estou ajudando pessoas a escrever. O único resultado que eu quero são mais pessoas com confiança criativa suficiente para empreenderem seus próprios processos literários. Também sei o que não estou fazendo: não estou ensinando gramática para leigos, não estou avaliando a qualidade de ninguém, não estou fazendo promessas sobre o desenvolvimento individual de cada um.

Clareza é fundamental para quem deseja empreender. Sem ela, ficamos patinando sem sair do lugar. Isso frequentemente nos leva à paralisia por análise, mas não caia nesse equívoco. Volte ao primeiro aprendizado e comece, depois comece de novo, até que a vida fique mais clara. Muita gente sofre para encontrar o sentido da vida, e é natural que sofra, porque não há sentido algum para ser encontrado. A única coisa que pode ser feita a respeito é criar um sentido para a própria vida, e esse sentido só vem do movimento.

6. A gente só cria quando em movimento

Quinze dias depois de lançar o convite para o Ninho de Escritores, ninguém havia se inscrito. Se eu estivesse parado, talvez esse fosse motivo suficiente para desistir. Mas eu não estava parado: a data do primeiro encontro estava se aproximando e eu tinha pela frente apenas metade do tempo total para conseguir doze pessoas. O jeito foi continuar divulgando, pedindo ajuda para os amigos, publicando insanamente em todas as comunidades de redes sociais das quais eu participava.

O que eu precisava, naqueles quinze dias, era movimentar o Ninho o bastante para que ele chegasse aos olhos de alguns primeiros interessados: os três Fs, family, friends and fools, família, amigos e tolos. Pedi que alguns amigos indicassem outras pessoas que poderiam se encantar com a proposta do curso e entrei em contato com cada uma delas. Assim como as histórias só existem por meio da ação, a criação e o empreendedorismo só ganham seus contornos quando estamos agindo.

7. Mudar de ideia é possível

Conforme experimentamos a vida, vamos descobrindo o que está fazendo sentido e o que não está. Somente sabemos algo quando estamos vivendo, portanto não adianta especular. Podemos imaginar, sim, mas a vida é sempre mais complexa do que nossas ideias. Mudar de ideia é possível e muitas vezes necessário, se queremos fazer um bom trabalho.

Recentemente, recebi umas críticas ao meu trabalho. Considerações pertinentes, mesmo que distribuídas com acidez desnecessária. Fechei-me, achei-as injustas, incorretas, ignorantes dos meus planos. Precisei de algumas horas de silêncio para ouvir que eu não estava reagindo às críticas, mas a como elas fizeram eu me sentir. No caso, como uma fraude.

Eu não sou uma fraude só porque errei aqui e ali, tampouco porque mudei de ideia. Mudar de ideia é o que faz a vida crescer. Às vezes a gente acredita que precisa ir até o fim só porque começou alguma coisa. Errado. Só vale a pena continuar aquilo que está correspondendo aos nossos princípios, aquilo que está fazendo sentido. Do contrário, mudar de ideia é a saída inteligente em busca de formas melhores de viver e empreender.

8. É dando que se recebe

É normal agirmos pensando no que podemos conquistar. Quantos leitores ganharei com esse texto novo? Quantos clientes comprarão meu próximo livro? Como essa nova situação vai me beneficiar?

É normal, mas pouco inteligente. Basta pensar um pouco: quem são as pessoas que a gente mais admira? São pessoas que criam valor para os outros. A pergunta certa, portanto, não é o que eu vou ganhar ao escrever um texto novo, mas como o meu leitor pode crescer. Quando percebi isso, mudei a maneira de contar minhas histórias. Afinal, não são as minhas aventuras que interessam, e sim o que as pessoas podem ganhar com elas. Aprender. Se inspirar. Se divertir.

Quando comecei o Ninho, fui advertido de que não deveria revelar os métodos que eu usava. Seria melhor guardá-los para mim, protegidos da possibilidade de cópia. Agora percebo que eu estava sendo ingênuo: é justamente a minha disposição de dar livremente aquilo que ofereço durante os encontros do Ninho que ajuda a construir o sentido da existência do Ninho de Escritores. Ganhar dinheiro é consequência de um processo muito mais amplo do que o de colocar um preço sobre um conhecimento supostamente escasso ou inacessível.

9. Pedir ajuda é sinal de inteligência

As histórias dos grandes feitos empreendedores costumam apresentar indivíduos notáveis. Entretanto, elas falham ao não mostrar que mesmo esses indivíduos não existem em um vácuo: há muitas outras pessoas e condições ao redor que tornaram possíveis os seus feitos.

Eu não tenho boas habilidades com design gráfico nem disposição para me dedicar o tempo necessário para aprendê-las, ao menos não hoje. Por isso, quando criei o Ninho de Escritores, recorri a uma amiga em cujo trabalho eu confio. Assim, me livrei de fazer um trabalho tosco e ganhei uma identidade visual fantástica para meu projeto (algo muito necessário se desejo passar confiança de que sei o que estou fazendo – afinal, quem confia em um curso com site ou logo mal feito?).

Nós somos bons em alguns coisas e é nessas coisas que devemos apoiar nossa vida empreendedora. Porém, não somos nem precisamos ser bons em tudo, não há motivo para trabalharmos completamente sozinhos.

10. É possível viver com a insegurança

Empreender tem um lado bem ruim: não há certeza de quanto dinheiro teremos ao final do mês e não temos a quem processar se o dinheiro não entrar. Caso a grana não flua para nossa conta, é sinal de que estamos fazendo algo errado (e a tendência é errarmos muito).

Porém, é possível viver com a insegurança porque ela é fruto do nosso trabalho, dos nossos aprendizados, das nossas tentativas. Não estou dizendo que é fácil, tampouco gostoso, apenas que é possível. Buda já dizia que a segurança e a certeza são ilusões, e empreender nos mostra exatamente isso. Trabalhar com e por aquilo que acreditamos nos ajuda a se desfazer das ilusões da vida.

11. O trabalho começa a valer a pena quando alguém se dispõe a te criticar

Empreender tem a ver com criar algo que ainda não existe no mundo. Pode ser uma lojinha de doces gostosos, pode ser uma comunidade para o acolhimento de escritores, pode ser uma multinacional de proteção às baleias. E nem todo mundo vai gostar do que estamos fazendo: alguns podem se sentir ofendidos por serem lembrados que estão parados, outros estão confortáveis demais no mundo que existia antes de nós chegarmos com nossos projetos. Mas sabe de uma coisa? Está tudo bem.

A crítica é uma reação que aponta a importância que temos. Se alguém decidiu dispor de seu tempo a nos criticar, isso nos enaltece. Se formos inteligentes, vamos aproveitar o que tiver para ser aproveitado e crescer. O que não vale o esforço é se incomodar, se irritar, brigar.

Li em algum lugar uma citação que tenho usado desde então: tu sabe que teu trabalho é importante quando ele irrita alguém. Porque mudar o mundo envolve tirar as coisas do lugar e rearranjá-las, e algumas dessas coisas são bem importantes para essas pessoas. No meu caso, há quem ache que a revisão gramatical deva ser a prioridade no ensino da escrita, há quem ache que os textos precisam ser destruídos (junto com os egos dos escritores) para “melhorar”, há quem defenda que o que as pessoas precisam é serem as melhores.

 

Mas o empreendedor sou eu, o trabalho é meu e faço com ele o que eu quiser (a liberdade de escrever isso é fantástica!). O fato de o Ninho de Escritores continuar crescendo depois de seis meses sugere que eu estou fazendo alguma coisa certa.

E tu, qual é a mudança que tu tem sido (ou deseja ser) no mundo?

9 comentários em “11 coisas que aprendi sobre empreendedorismo

  1. Tales, adorei o post! Incrível, fico muito feliz por ter se jogado e estar aprendendo tanto. E, mais que isso, vivendo cada momento <3
    Como disse a Dani, estamos na mesma jornada 😉
    Saudades!

    • Muito disso que estou vivendo tem a ver com aquele nosso primeiro almoço, lá depois do Estaleiro, em que tu compartilhou algumas experiências e impressões.

      Tu tem muito a acrescentar no mundo, Marina! =)

  2. Pingback: 16 projetos empreendedores criados em apenas um mês - Tales Gubes

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