Desde terça estou morando em uma suíte num apartamento bem grande. É um daqueles prédios antigos em que a dependência de empregada é maior do que alguns quartos em construções novas.
Ou seja, eu tenho um ótimo espaço.
Para alguém que morava sozinho e precisa se adaptar novamente à convivência com outras pessoas, o fato de não precisar dividir o banheiro já facilita muito.
É conhecimento comum, suponho, que banheiros são o principal ponto de discórdia entre pessoas que convivem sob o mesmo teto. Questões de higiene, tempo no banho, coisas espalhadas, produtos emprestados sem pedir etc.
Com todas essas dificuldades fora do caminho, o que poderia dar errado?
O chuveiro é uma droga. Ruim mesmo, liga a água quente, esquenta demais. Liga a fria para temperar, gela tudo. Tenta aquecer, ferve.
Evidentemente, fiz a única coisa que uma pessoa sã e bem resolvida faria: entrei em parafuso. Liguei pro meu amigo, chamei-o para um encontro emergencial no supermercado (apesar de meio estranho, sou um cara prático) e despejei todas as minhas mágoas. A vida tá ruim, o dinheiro tá acabando, nessa cidade todo mundo trabalha e ninguém tem tempo pra nada, fiquei doente e não é justo…
Sabe crise adolescente? Pois é.
Agora uma leve pausa para explicar um pouco melhor a situação: eu moro com mais três moços. Um já era meu amigo em Goiânia, embora nossos contatos fossem raros. O outro ainda conheço pouco, pois nunca está em casa. O terceiro é o dono do apartamento, que já o aluga há pelo menos uns dez anos.
O clima na casa é super bom. Meu amigo e o dono do apartamento são atenciosos e se mostram mais que dispostos a me ajudarem com o que for.
Contudo, para não incomodar, sofro calado.
Sim, sim, pode xingar.

Todo dia, manhã ou noite, eu entrava no banho com raiva. Espumava de ódio da água fria e forte, da quente escaldante, da tentativa incômoda de regular algo incontrolável.
É sempre mais fácil tentar mudar o que está lá fora do que mudar a nós mesmos.
O banho é para mim uma parte muito importante do dia. É quando tudo se renova. Um dia só começa com o banho, aquela água toda limpando o ontem, o sono, o cansaço, e investindo em mim a disposição para sorrir.
Um dia sem banho é incompleto.
Ontem eu já não estava mais aguentando a situação. Já havia desabafado com meu amigo, conversado horas por Whatsapp com minha mãe (a tecnologia aproximando famílias) e ficado fora de casa o máximo possível para nem lembrar do banheiro.
Não era o bastante. Como viver num lugar em que tomar banho é estressante?
Já sem aguentar, eu fiz o impensável: perguntei ao dono do apartamento se havia algum truque para usar o chuveiro.
“Sim”, ele respondeu. “Abre só o registro do quente, como se fosse um chuveiro elétrico, e a água vai ficar forte e morna”.
Eu sei o que você deve estar pensando agora. Foi o que eu pensei, também: custava ele ter adivinhado que eu estava sofrendo com banhos ruins e ir lá me ensinar como usar o chuveiro sem que eu precisasse falar nada?
(pausa para quem não entendeu que foi uma ironia)
Esse nem é um grande exemplo, mas custava tanto assim eu sair da minha zona de conforto (aquele mimimi de não querer incomodar os outros) e perguntar antes? Precisava sofrer calado e irritado? Estar no mundo envolve dizer aos outros não só o que está bom, mas também o que está ruim.
Se estivermos cercados de boas pessoas, elas nos ajudarão a resolver.