O Armário, de Fabrício Viana

Enquanto no colégio, meu acesso a livros era bastante restrito. Os dois colégios em que estudei tinham bons materiais, mas nada que tratasse sobre homossexualidade. Como eu era criança, não sabia nada do mundo e não cruzei com ninguém que me forçasse a aprender na prática, passei um tempo grande sem saber nada.

Na faculdade, meu acesso a livros ampliou consideravelmente. Nessa época eu já procurava caras pelados na internet e já sabia que eram eles e não as mulheres que me deixavam excitado nos filmes pornôs heteros do meu irmão. Mas eu ainda não entendia o que aquilo significava para a minha vida.

Foi na biblioteca da Faculdade de Psicologia que encontrei o livro Homossexualidade: do preconceito aos padrões de consumo, de Adriana Nunan. Foi uma leitura que fiz escondido. Era meu segredinho junto à servidora que marcava os livros levados para casa pelos alunos. Bem, segredinho meu e de qualquer um capaz de acessar minha matrícula e ver os livros que eu tirei da biblioteca…

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O livro me ajudou a ver que existe um outro mundo, do qual eu talvez fizesse parte, mas tratou toda a questão de uma forma distanciada. A autora não conversava comigo, ela falava de um público específico longe da minha realidade.

Quando terminei de ler, eu estava na mesma indecisão sobre quem eu era. Eu sabia que, de alguma maneira, o livro deveria dialogar comigo, mas não conseguia entender o que ele dizia. Sim, gays compram mais, buscam artigos de luxo etc. Certo, mas e a minha vida, como fica diante disso?

Os anos passaram e eu fui aprendendo sobre a vida por outros caminhos. Depois de um mestrado dedicado a estudar a educação da sexualidade, mudei para São Paulo a fim de me dedicar à vida de escritor. Foi aqui que cruzei com o livro O Armário: vida e pensamento do desejo proibido, de Fabrício Viana.

Esse livro é aquele que comprei para ganhar um autógrafo e iniciar um papo com o Fabrício.

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A proposta de O Armário é diferente da trazida pelo livro anterior. É difícil falar agora, anos depois daquelas tardes em que eu visitava a biblioteca da Psicologia em busca de respostas, mas me senti contemplado pelas questões trazidas por Fabrício.

Ele começa contando suas próprias experiências com a sexualidade, seus primeiros encontros com outros caras e a maneira como seus relacionamentos se construíram. Eu me reconheci em muitas das dúvidas e questões que ele levanta. Quando eu escrevo sobre minhas próprias experiências, muitas delas são semelhantes.

Depois de tratar de sua trajetória pessoal, Fabrício discute, com o aporte da psicologia, questões importantes como o armário (esse lugar de segredo em que enfiamos nossas próprias identidades por força de pressões sociais), o machismo (responsável pela crueldade sofrida cotidianamente pelas mulheres e, também, por homossexuais) e a homofobia (infelizmente algo presente também entre os próprios homossexuais).

Permeando todo o livro, há uma mensagem constante: precisamos nos conhecer e compreender como a sociedade molda as expectativas em nosso entorno.

Expectativas essas que, enquanto eu lia O Armário no metrô, me fizeram inicialmente esconder a capa do livro. Quando percebi o que estava fazendo, escondendo do mundo que eu lia um livro sobre homossexualidade, fiz questão do contrário: li-o com a capa bem levantada (uma posição desconfortável, confesso), como se fosse uma bandeira do arco-íris. Não havia motivo para esconder absolutamente nada, muito pelo contrário.

Eu precisava desse livro anos antes dele ser escrito. Eu precisava dele quando era um guri assustado com os “colegas” mais velhos me provocando nos recreios. Talvez se eu entendesse a limitação deles eu conseguisse lidar melhor com a minha e, assim, acreditar em possibilidades melhores de futuro. O que é engraçado, porque o futuro daquele guri que sofria bullying sem a menor dúvida está sendo muito melhor do que ele podia imaginar.

Esse é um livro que precisa chegar até outras pessoas que também não conseguem ver um futuro brilhante para si mesmas.

Mas não é uma leitura só para gays e lésbicas. É uma leitura para todas as pessoas, pois qualquer um – irmão, pai, professor, vizinho – pode um dia se encontrar em uma situação em que suas ações influenciarão outras pessoas. Compreender os modos de ser dos outros é um passo necessário para um mundo melhor.

Infelizmente, o foco do livro no “armário” acaba limitando o seu potencial. Há uma lacuna que ainda carece ser preenchida por mais iniciativas pedagógicas: pensar o feminismo, pensar o gênero para além do masculino e feminino, encarar a complicada tarefa de lutar pela segurança e compreensão de sujeitos transexuais e travestis, desvelar os complicados cruzamentos entre diferentes marcadores sociais da desigualdade, como classe, etnia, gênero, sexualidade, habilidade/deficiência etc.

Essa limitação não significa que o livro não deva ser lido. Ele é um pequeno manual introdutório para quem quer começar a pensar sobre homossexualidade. Vale o investimento porque abre portas para quem ainda não sabe por onde começar a entender o outro. Caso queiram comprá-lo, já que o livro não está em livrarias, visitem o site dele.

Afinal, há  jeito melhor de enfrentar o preconceito do que com o conhecimento?

Um comentário em “O Armário, de Fabrício Viana

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