Amor no dia das mães

Ano passado postei, no meu blog anterior, uma conversa que mantive por e-mail com minha mãe. Aproveitando que hoje é dia das mães, resolvi revisitar aquela conversa, pois tudo o que ela traz são ainda questões atuais.

Começou com um e-mail que recebi da minha mãe:

Estava agora há pouco lendo uma das tuas postagens no blog e fiquei como de outras vezes tanto orgulhosa quanto triste e com uma sensação frustante de ter falhado com quem eu mais amo nessa vida. Orgulhosa como fico sempre que leio os teus textos, fato. Triste e/ou frustada por mais uma vez constatar que não estive presente quando mais precisaste de um apoio. Pois nesse caso eu que sempre me achei “sempre tão disponível” para qualquer coisa que pudesse precisar, justamente eu não consegui te passar essa disponibilidade. Então fico pensando, será que passo essa ideia tão forte de que não seria capaz de entender o que fosse que estivesse dentro do teu coração? Se não sabias ao certo, não poderíamos ter chegado a uma conclusão juntos? Serei eu tão, “fora de questão ser cogitada para uma conversa desse porte”? Eu não poderia entender? Com mãe não se fala isso? Então, se fala o quê? Abobrinhas? Quanto mais leio as coisas que escreves, tuas aventuras e desventuras, vejo o quanto estive, estou e por consequência sempre estarei fora da tua vida real. Isso me deixa com uma sensação enorme de vazio, uma tristeza que nem sei explicar. De qualquer forma eu precisava manifestar ao menos meu sentimento. Me sentir essa porta fechada não é agradável.

Ela se refere a uma postagem em que contei sobre a época que sofria bullying na escola. Não foi um período fácil para mim e eu não entendia nada daquilo, tampouco sabia que era algo que podia procurar ajuda.

Nessas horas, a ignorância não é uma bênção. Não saber não é uma bênção, é uma maldição.

A pergunta dela, “com mãe não se fala isso?”, está martelando minha cabeça ainda hoje. Com quem se fala sobre amor, se não com a nossa família? Ainda assim, eu sei que muita gente não tem a oportunidade que eu tive de ser confrontado por alguém que me ama tanto ao ponto de sofrer por não ter me ajudado a não sofrer.

Respondi a ela assim, também por e-mail:

Mãe, as portas já estiveram fechadas, mas isso foi quando elas estavam trancadas também para mim. Se o texto sobre o qual tu está falando é o que penso, ele retrata um momento em que nem mesmo eu conseguia pensar sobre essas coisas, quanto mais levá-las adiante e tratar delas. Eu não conversava com ninguém sobre nada daquilo. Eu mal pensava naquilo, apenas guardava pra mim mesmo. Desde a nossa conversa em 2006 sobre meu (primeiro) namoro, sinto como se essa barreira tivesse sido levantada. Para mim foi muito complicado, inicialmente, mas nunca por acreditar que tu não pudesse saber, compreender ou participar, mas sim porque eu ainda estava contaminado com todo o medo e o ressentimento que o mundo me ensinou a ter sobre sexualidade. Hoje eu me sinto aberto para conversar contigo sobre o que for, sobre quem for, sobre o que me emociona e o que me distancia. Penso que, nas oportunidades que temos para estar juntos, falamos de coisas que sabemos que são só para os ouvidos um do outro e isso me deixa feliz por saber que tenho uma relação contigo que é a que sempre quis ter com qualquer pessoa que amo: de verdadeira amizade e confiança. Te amo, mãe!

Levando minha vida, eu não tinha ideia dessa preocupação no coração da minha mãe, algo que muita gente enfrenta e tanta gente mais nem sabe o que é, pois não tem uma mãe capaz de se doer por não estar ainda mais na vida do filho. Eu tenho e, por mais que fique triste em saber que, de alguma forma, a deixei magoada, fico feliz em saber que ela está ali e que pode me escrever essas palavras, pois sabe que eu a amo e vou não só levá-las em consideração, mas também refletir a respeito e mudar minha vida baseado no que ela sente.

Da mesma forma que admiro quem tem a coragem de se erguer e mostrar ao mundo quem é, sou feliz por ter uma mãe que sempre esteve ao meu lado me apoiando.

A minha “saída do armário” com ela foi muito marcante. Era virada de ano e eu havia passado o dia inteiro tentando falar com ela sobre isso. Reclamei às 23h30, quando estávamos abraçados indo para a praia. Rolou um diálogo que hoje acho muito engraçado, mas na época me deixou tremendo. Quando reclamei que passara o dia tentando falar com ela, a resposta foi: “Eu sei que tu quer me contar que tem uma gata”. Eu não pensei, a resposta simplesmente fluiu: “E se for um gato?”. Ela também não demorou: “Eu vou te amar do mesmo jeito”.

Não sei se, ainda hoje, ela tem noção do impacto que esse momento teve na minha vida. Uma das coisas que eu tinha mais medo de contar a ela foi tratada com tanta delicadeza e amor que eu soube, naquele instante, que algo fundamental entre nós dois havia mudado: a barreira que eu mesmo colocara entre nós dois estava sendo desfeita.

Minha mãe me ensinou uma lição muito importante: o amor não é algo de que devemos ter vergonha.

De volta à nossa conversa por e-mail, ela foi encerrada por uma resposta dela:

O texto que resultou nesse desabafo foi depois de ler, creio o último, mas não foi só por ele, talvez por todos eles, pois me mostram algo que eu deveria ter percebido, quem sabe procurado. Ao mesmo tempo que “Eu” penso que quando a gente tem alguém que confia plenamente, é para essa pessoa que a gente corre e se aninha para se acalmar, se recuperar e se reenergizar para poder enfrentar as dificuldades da vida, também penso agora olhando um pouco para mim, que muitas vezes nossas aflições ficam tão grandes que a gente sequer ousa falar até para nós mesmos, que dirá para outros.

Tenho com minha mãe uma relação que é linda – acho que nem precisaria dizer.

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Eu confio nela e sei que posso ir até ela para falar sobre absolutamente qualquer coisa. Sinto falta da sua presença no meu cotidiano, pois moramos em cidades distantes, mas a certeza desse amor é algo que me facilita viver.

Eu sou uma raposa de sorte.

2 comentários em “Amor no dia das mães

  1. Meu Gato querido (vês que insisto, para mim é automático te chamar não só de “Gato”, mas de “meu Gato”, mesmo reconhecendo em ti a “Raposa”…Ler as tuas postagens sempre me toca. Sempre descubro coisas, detalhes, nuances novas e acho que é mal de mãe, sofrer por não saber, ou não ter participado, ou não ter estado presente ou simplesmente por não estar ao teu lado em todos os momentos, como se assim eu pudesse te amparar, guiar, ou quem sabe poupar de qualquer dissabor que essa vida teima em nos apresentar de quando em vez . Mãe sofre também por não poder estar presente nos momentos felizes , pois aí então, ela seria a mais feliz. Mas mãe é isso, não tem concerto, acho que no fundo todas são iguais, lá no fundo todas iguais…Filhos, se não os temos, creio até, não fazem falta…mas para quem tem, como viver sem ? Amo meus filhos, do jeito que são, com todas as qualidades e todos os defeitos. O que são, o que vão ser, isso importa ? São meus amores, são parte de mim, me derreto de orgulho quando estão comigo e para eles meu status será sempre “presente”.

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