Ontem fui a um evento relacionado ao livro Orgias Literárias da Tribo, organizado pela editora Orgástica.
Desta vez como espectador, pude acompanhar o momento em que (novos) escritores dão passos importantes na concretização do sonho e da possibilidade de escrever e publicar.
Na foto é possível ver alguns dos autores do livro Orgias. Foi muito legal participar desse momento e conhecer um pouquinho mais das pessoas que estão ativando o universo literário LGBT.
Por esses dias uma amiga perguntou se era mesmo necessária essa etiqueta “LGBT”. Segundo ela, as experiências não deveriam ser divididas entre hetero e homo, normais e desviantes etc. Literatura seria literatura e ponto.
Concordo lindamente com isso.
Porém, contudo, entretanto, acho que livros como o Orgias, o Loveless e as Homossilábicas são necessários. Por quê? Para responder, trago o depoimento de uma moça que estava no evento de ontem. Em meio às conversas, ela revelou que trabalha em uma instituição para menores apenados e que o ambiente é muito machista e homofóbico, não apenas por parte dos adolescentes, mas também dos funcionários e diretores. Ela estava extasiada com a existência de livros com temática LGBT, pois abrem portas para uma realidade com a qual ela não tem familiaridade.
Pois essa é a questão: visibilidade. O mundo seria lindo sem etiquetas e divisões, porém ele não é assim. O mundo em que vivemos é o mundo em que um programa humorístico no sábado faz piada constante de sujeitos efeminados (como se o feminino fossem motivo de riso) e o mundo em que pessoas são assassinadas só porque amam pessoas do mesmo sexo.
Como escritor, faço questão de focar na temática LGBT e, quem sabe assim, construir pequenos espaços de resistência à heteronormatividade, pequenos focos de visibilidade para as questões que gravitam em torno do universo LGBT.
Ser gay não me faz melhor ou pior que ninguém, mas inclui determinadas experiências que sujeitos heterossexuais em geral não têm. Além disso, ser gay não é algo que as pessoas considerem normal, não é algo que apareça de forma positiva no dia a dia.
Lembro de um amigo que enchia a boca para dizer que era homofóbico. Na época em que o conheci, eu ainda estava bem guardado no armário, então essa postura dele não me incomodava tanto (conscientemente). Porém, na época em que eu consegui me acertar com meus desejos, contei para ele que era gay. Nossa relação poderia ter mudado completamente daquele dia em diante, mas não. Depois de mastigar a informação, “a grande verdade a meu respeito”, ele chegou à conclusão de que o cara que escutava ele e conversava sobre a vida continuava ali. Nada em nossa amizade havia mudado porque nada em mim estava diferente. Pelo menos nada que fosse importante.
Ele precisou de um amigo para saber disso.
Eu, para me entender, precisei de livros (e de sexo aleatório na praia, mas essa é outra história). Só que eu não encontrei muitos livros e os que eu achei não abriram as portas que eu precisava.
Por isso digo e repito: o mundo precisa de mais orgias literárias, de mais escritoras e escritores que deem as caras a tapa e apareçam.
Ontem, quando estive no evento com a galera do Orgias, senti-me um pouco mais feliz por estar participando de um momento em que uma parte do universo literário está olhando para questões que são importantes.
Bora continuar produzindo, amores!
