Como escrever uma boa história

Há um mês, eu jamais imaginaria que responder a uma pergunta me levaria a participar de graça do workshop Plot Your Story (algo como planeje sua história), ministrado pelo criador da The Plot Company, Joni Galvão.

Essa é uma premissa básica das boas histórias que vivemos: a gente só sabe que serão boas histórias depois de vividas. Contar uma história é organizar uma experiência. A vida, esse caldo inefável de eventos e emoções, não é algo que possa ser compreendido no todo. Para isso, temos as histórias.

Gosto muito de uma imagem sugerida por Flavio de Campos no livro Roteiro de Cinema e Televisão. Ele diz que a vida é uma maçaroca, um novelo, um emaranhado de fios. O que o escritor faz é escolher, puxar e organizar um único fio com começo, meio e fim.

Mas, como bem o Joni falou no workshop (e todo o resto do texto é sobre o que aprendi com ele), não basta ter começo, meio e fim para ser uma boa história. Sabe o que mais precisa? Segue lendo e eu te conto.

Plot your story

O workshop Plot Your Story

Backstory: tudo o que existe por trás

Pensa no teu leitor: ele é como tu, detesta confusão. Nós só ficamos confusos quando algo está fora de lugar, quando algo não está fazendo sentido.

Histórias criam sentido para os eventos da vida.

Por definição, uma história que não faz sentido é uma história ruim. Ninguém quer ler histórias ruins. Nós temos um tempo limitado para viver; perdê-lo com histórias ruins é um péssimo jeito de viver.

Por isso, quando contamos uma história, oferecemos o que o Joni chama de backstory, ou “história por trás”, ou contexto. Sem backstory, a história não faz sentido porque não entendemos o que está acontecendo. Pior ainda: não entendemos por que está acontecendo.

Nós gostamos de histórias porque elas nos mostram os porquês da vida.

Uma história que seja apenas uma sucessão de acontecimentos pode ser minimamente interessante, mas não vai afetar ninguém para além de um entretenimento momentâneo. Quando uma história encosta nos porquês da vida e das questões existenciais da humanidade, aí sim temos uma história que persistirá ao passar do tempo.

Mas mostrar a backstory não é mostrar tudo o que veio antes e deixar o leitor se afogar em referências a eventos passados. Se eu quero contar como ganhei uma vaga no curso Plot Your Story, não preciso falar do meu aniversário de sete anos. Ou do meu primeiro beijo. Os leitores agradecem, aliás, porque esses não são eventos interessantes o suficiente para estarem aqui.

(Mentira, a história do meu primeiro beijo é fantástica, mas essa eu só conto pessoalmente, então me chama depois pra tomar um suco e a gente troca histórias!)

Em termos de backstory, tu deve oferecer aquilo que o leitor precisa para entender a história que se desenrolará. E só isso. A capacidade de concisão é uma qualidade imprescindível para escritores, ainda mais hoje em dia, em que a disputa pela atenção alheia é uma verdadeira guerra.

Uma boa história tem uma ideia governante

Os publicitários e políticos têm uma vantagem gritante em relação a escritores de ficção: eles sabem o que querem dizer.

Todo bom texto é acompanhado de um subtexto, um tipo de informação sutil que se derrama para a percepção do leitor, mas que não está escrita de forma óbvia.

Então por que recebo tantos e-mails de aprendizes de escritores defendendo que seu método de trabalho é simplesmente escorrer seus sentimentos no papel?

Isso é tiro no escuro!

Quem já fez curso comigo já me ouviu dizer: o escritor é um arqueiro. Pode atirar de qualquer jeito e atingir um alvo? Pode. Consegue repetir, depois? Duvido. E na maior parte das vezes, nem acerta sequer uma. Quando a gente decide nosso alvo, mira nele e dispara, podemos analisar o que deu certo e o que deu errado. É assim que se desenvolve uma habilidade, não pela sorte.

Habilidade é a capacidade de manter constância de resultados apesar dos imprevistos (quem disse isso foi o Daniel Kahneman, no livro Rápido e Devagar, que eu recomendo muito).

A ideia governante é aquilo que queremos que o leitor aprenda ao final da nossa história.

O que acontece quando não planejamos antecipadamente a ideia governante do que contamos é que, às vezes, o tiro sai pela culatra. Isso aconteceu comigo na minha segunda semana de trabalho. Encontrei meu chefe na rua e ele perguntou como estava sendo minha experiência. Depois de seis anos trabalhando como autônomo, sem horário fixo, eu estava estranhando a mudança. Respondi: “está sendo desafiador”. Meu chefe se espantou: “mas a segunda semana de trabalho já está sendo desafiadora?”.

Meu chefe não tinha a minha backstory e eu não havia refletido sobre a ideia governante da imagem que desejava passar. Se eu tivesse pensado antes, poderia responder melhor e conduzir como minha própria história seria recebida.

Aquele que combate na primeira fila

Toda boa história precisa de um protagonista para vivê-la. Não há narrativa se não houver um personagem para vivê-la.

Quem nunca ouviu alguém dizer: “tu tem que assumir responsabilidade pela tua vida?”. É exatamente isso: somos convidados o tempo inteiro pela vida a tomarmos decisões e enfrentarmos consequências.

Protagonista é, literalmente, “aquele que combate na primeira fila”. É a pessoa que vai na frente, que faz e acontece. Por isso mesmo, também costuma ser a pessoa que mais tem a perder.

Todo personagem precisar querer alguma coisa. Se não quiser, não merece estar na história, é apenas figurante.

De novo: quem nunca ouviu alguém falar que Fulano é um figurante na própria vida?

(Se tu nunca ouviu isso, relaxa, eu também não, mas finge que sim pelo menos até o final do texto, é o que eu estou fazendo.)

O protagonista vai mudar durante a história (Buda já dizia que a mudança é a única constante da vida). Ele começa percebendo a vida de uma forma e termina de outra. Sem essa transformação, teremos uma narrativa insossa ou, no máximo, rasa.

Quer exemplo de um protagonista raso? Rambo. Ele mata, mata, mata, chuta a porta, mata e mata de novo. Fim. Sem mudança, sem complexidade, sem dramas, sem contradições.

Se tu quer saber mais sobre personagens e protagonistas, dá uma olhada na minha série sobre escrita criativa.

As forças do mal se aproximam

Dizem que o que faz um bom protagonista é o seu antagonista. Faz sentido, porque ninguém consegue se identificar com quem faz tudo certo. A gente pode até invejar, mas gostar, não.

Sabe por quê?

Dois motivos: a gente lê histórias para aprender sobre a vida e nós queremos histórias que falem da nossa experiência pessoal. E não sei tu, mas na minha vida as coisas não são todas entregues de bandeja.

Ou seja, eu não vou me identificar com quem não precisa enfrentar desafios, sejam eles cotidianos ou épicos. Mais do que isso, como vou me emocionar se não há riscos para o protagonista? Se ele não tem chance de perder, se eu já sei que no final, não importa o que aconteça, tudo vai ficar bem?

Se tu gosta de quadrinhos, talvez conheça como o Homem-Aranha virou um sucesso assim que surgiu. Ele chegou num mercado complicado, disputando com Super-Homem e Batman, heróis imbatíveis. E ainda assim, ele venceu. Sabe por quê?

Porque o Peter Parker era um adolescente todo atrapalhado que não nasceu para ser herói. Ele tinha dúvidas o tempo inteiro, morria de medo de falhar e carregava nos ombros a responsabilidade por cada decisão mal feita, inclusive a que levou seu tio a ser assassinado.

Boom!

Por que vou me identificar com o alienígena que voa e cujo único problema é uma pedra verde raríssima, se tenho um herói que lida com problemas parecidos com os meus?

São essas forças antagônicas, esses desafios que se colocam no caminho do protagonista e aquilo que ele deseja alcançar, que revelarão quão forte ou fraco ele será.

Não à toa, a base para boas histórias está no lado negativo da vida.

E tudo começou quando…

Eu já te contei como ganhei a vaga no curso do Joni? Gente, que cabeça a minha!

Começou com uma amiga me indicando o lançamento de um livro chamado Super-histórias. Achei legal e decidi que iria ao evento. Uma semana antes, fui confirmar data e horário para anotar na agenda e havia um post falando em um concurso.

O concurso convidava a responder em até 420 caracteres por que minha vida é uma super-história.

Se tem uma coisa que eu não gosto é de ser avaliado. Coisa de ego frágil e tal. Mas pensei com meus botões: que mal há em participar? Ninguém me conhece, quem ler meu texto não vai saber quem sou eu, vai ficar tudo bem.

O concurso foi o incidente incitante para minha história e me despertou o desejo de ganhar. Foi o que me colocou em ação, que me tirou no status quo em que eu estava.

Muitos eventos em nossas vidas podem ser traçados de volta para o incidente incitante. Um post no Facebook falando da festa na qual conhecemos o amor da nossa vida, uma dor estranha que nos leva ao médico, uma situação estressante no metrô que nos leva a escrever um texto.

Toda história é construída por meio de relações de causa e efeito. Se não for, não é história. O incidente incitante é a causa primeira, aquilo que empurra o protagonista adiante – o ponto a partir do qual não há mais volta, sua vida será afetada quer ele participe, quer não.

“Ah, tu poderia não ter participado do concurso”, alguém vai dizer. Mas esse mesmo alguém não diria isso se eu não tivesse participado, porque então este texto não existiria. Vida complexa, né?

A chama da história

O incidente incitante é como uma chama que queima o fio da história. Fonte: https://www.flickr.com/photos/maaloe/212788836/

Subindo a montanha-russa

Sabe montanha-russa, aquela máquina gigante de esfriar barrigas? Ela sobe, ela desce, ela empina… E sobe um pouco mais do que da outra vez, desce mais rápido, sobe mais, lá no alto, e só então ela desce com tudo, faz dois loopings e parece que vai jogar todo mundo para fora dos carrinhos. Então acaba.

É o momento certo de acabar porque a pior coisa que poderia ter acontecido acabou de acontecer.

(Tá, mentira de novo, a pior coisa é pessoas de fato voarem para fora dos carrinhos, mas parte da ideia governante da montanha-russa é sentir o perigo sem que ele seja, de fato, real.)

Por que a montanha-russa não começa com a parte mais emocionante? Porque como todo planejador de jogos e diversões sabe, nossas emoções são comparativas. Um soco não é nada se depois levo um tiro. Se ganhei um presente da pessoa que mais amo na vida, receber um abraço grátis de um estranho em seguida será algo trivial.

Um bom escritor usa isso a favor de sua história.

As forças antagônicas e as emoções devem crescer aos poucos, senão a história esgota seu potencial. Se o maior dilema aparece no começo, o restante, em comparação, fica sem graça. O que é a tua terra natal tomada por um velho maligno quando tu já viajou um continente inteiro, enfrentou aranhas gigantes, participou de guerras e salvou o mundo da destruição?

Eu já havia lido muito sobre a estrutura em três atos, mas foi no workshop do Joni que finalmente enxerguei a importância desta disposição. Existem outras? Sem dúvida, mas esta ordenação clássica funciona.

No primeiro ato, é apresentado o contexto, o protagonista e o incidente incitante. É um ato relativamente curto, dedicado a ensinar ao leitor as regras da história que será contada. O ato dois apresenta complicações progressivas, daquelas que vão piorando a cada nova pequena vitória ou derrota do protagonista. O terceiro ato é quando tudo chega ao seu grande final, quando a maior crise se instala e temos o clímax, o momento de maior tensão na história inteira, para por fim relaxarmos com a resolução.

No sexo, o primeiro é o tesão, aquele toque ou olhar que atiça o desejo. A transa vai se intensificando durante o ato dois, beijo, toque, penetração, brinquedos, tudo o que estiver envolvido. O ato três nos aproxima do orgasmo (no caso dos homens, porque as mulheres podem experimentar essa explosão várias vezes, sugerindo uma estrutura diferente de história para elas), com o clímax seguido do relaxamento, a resolução, o momento em que somos absorvidos pelo universo para sentir melhor a experiência que acabamos de viver.

A única coisa que importa é a verdade

Histórias nos ensinam a entender melhor a vida e nos preparam para o futuro. Se tu me conta uma mentira, eu não vou mais acreditar em ti. Se eu percebo no meio do caminho que é mentira, vou deixar de te ler.

A publicidade tem amargado os resultados de suas mensagens sedutoras, mas enganosas, incapazes de traduzir a experiência de quem lida com os produtos anunciados.

Por outro lado, consumidores abraçam empresas e artistas que assumem suas posições e suas falhas.

Uma boa história é verdadeira, honesta com a inteligência do leitor. É isso que produz a voz particular de cada escritor.

Foi essa voz que precisei encontrar ao participar do concurso que me levou ao Plot Your Story. Escrevi o seguinte:

Desde criança, queria ser escritor famoso, mas não sabia o que isso significa. Famoso pra quem? Escritor do quê? Tentei jornalismo em Porto Alegre, não deu certo, real demais. Tentei mestrado em Goiânia, escrevi dissertação, ninguém leu. Vim a São Paulo e criei o Ninho de Escritores, onde ajudo outras pessoas a contarem suas histórias. Entendi que não queria fama, mas afeto. É o que ganho e ofereço com minha escrita.

Se tu me conhece minimamente, sabe que isso não só é verdade, como é a minha verdade. Ou pelo menos uma delas. Escrever a verdade não é falar sobre algo universal, abstrato e distante, mas sobre algo próximo, específico e particular. Essa é a minha história, mas poderia ser a tua.

E é uma boa história porque tem um protagonista, tem contexto, tem um incidente incitante (que não aparece, mas está pressuposto no meu desejo de ser escritor famoso), tem complicações progressivas (o jornalismo, o mestrado), tem crise, clímax e resolução (entendi que eu não queria fama, mas tudo bem porque na verdade quero afeto e ofereço e ganho isso com meus textos).

A verdade

“O coração e a mente são as verdadeiras lentes da câmera”. Fonte: https://www.flickr.com/photos/martinaphotography/6740181623/

Qual é a tua história?

Este texto é um reflexo distante do que foi a experiência de participar do workshop Plot Your Story. Minha intenção jamais foi esgotar tudo o que aprendi, mas sim apontar alguns aprendizados. Para esgotar tudo o que foi dito e trabalhado, eu precisaria de muitas palavras a mais.

Criar e escrever histórias é, provavelmente, uma das habilidades mais importantes que alguém pode desenvolver.

Se eu tenho controle sobre a minha história, sou capaz de conduzir como me apresento ao mundo. Se entendo a importância social das histórias, fico armado para não ser enganado por reclames publicitários e discursos políticos.

Por isso, te pergunto: qual é a tua história? Conta nos comentários e vamos nos conhecer melhor :)

8 comentários em “Como escrever uma boa história

  1. Seu texto é muito sensacional!! Parabéns mesmo! Li, repassei e ainda floodei a timeline de uma galera dizendo… EEEEEEI!!! EEEEEEEEEEEEEEEI!!! OLHA ESSE TEXTO MARAAA!!! EEEEEI!!

    Bjão!

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