Registro narrativo da Creative Mornings: Realidade

Uma manhã de sexta-feira por mês na minha agenda está reservada para os encontros do Creative Mornings, uma galera intensa que estimula junções no mundo inteiro para discutir temas profundos. Em abril, o tema foi risco e escrevi um registro bacaninha; agora em maio o tema foi realidade.

Quem cedeu o espaço desta vez foi a escola de criatividade Perestroika. Como não podia deixar de ser, o espaço convida a outras formas de entender o espaço e as relações que são constituídas nele. Tínhamos o clássico semicírculo para assistir à palestra da Mayra Fonseca (que fala tão bem quanto escreve neste texto), mas um diferencial curioso: quatro projetores, nenhum deles atrás da palestrante. Todas as pessoas, em qualquer posição, tinham pelo menos uma projeção para a qual podiam olhar.

Não estávamos todos olhando para o mesmo canto e isso teve tudo a ver com o tema da palestra. Afinal, o que é realidade, a realidade de quem, construída a partir de quais olhares? Como mestre em Cultura Visual, nem preciso dizer o quanto essas provocações me inquietam e estimulam. A Mayra começou a fala já com um chamado forte, “um convite para olhar Brasis que a gente não vê”.

Como assim Brasis? Tem mais de um?

realidade

Imagem da facilitação gráfica feita pela Vivian Dall’Alba

Se reconhecermos que nossa maneira de olhar é construída culturalmente, há incontáveis Brasis. Nos afeiçoamos à ideia de que só tem valor aquilo que é sofisticado e por isso passamos a procurar artes e culturas muito específicas de (algumas) experiências das capitais do Sudeste brasileiro. Mayra trouxe duas provocações para desestabilizar o que entendemos como valioso:

  • 75% da população brasileira não vive nas capitais;
  • a palavra sofisticado significa, de acordo com o dicionário, “enganado com sofismas, que foi alterado fraudulentamente; falsificado, adulterado, que tem sutileza ou utilidade sofística, que não é natural; postiço, artificial, afetado, falsamente intelectual ou rebuscado”

Temos aqui material para pensar que “Brasil sofisticado” é esse com o qual nos ocupamos? Que experiências estamos deixando de lado para validar apenas repetições de modos predeterminados de arte e cultura?

Uma pista para esse olhar limitante pode ser nosso complexo de vira-lata, agarrado à noção de que o alheio é mais interessante do que o nosso quintal. Se vem de fora, de outro país, então é mais legal. É provável que nossa história como país colonizado, aliada à visibilidade do que é comercial, tenha rendido continuidades para esse modo de ver.

Essas continuidades mantêm um modo de ver que pertence à ideia de maioria e ignora as vozes das minorias. Aqui é importante entender que estes conceitos não são quantitativos, mas qualitativos. Uma minoria não é composta por poucas pessoas, mas por pessoas cujas vozes costumeiramente não são ouvidas. Da ponta dos dedos, cito algumas: mulheres, lésbicas, negras, trans, obesas, pessoas com deficiência, índias (tudo no feminino para não privilegiar o masculino, mas todos esses marcadores se cruzam e produzem vivências com demandas muito específicas).

Durante o mestrado, aprendi que não faz sentido dizer que essas pessoas não têm voz, porque elas têm. Todos nós temos. O que falta, muitas vezes, é espaços visíveis para que essas vozes sejam ouvidas, percebidas e reconhecidas.

Para que possamos olhar e enxergar o outro, Mayra sugeriu que devemos ter empatia cultural:

  • assumir a pluralidade/heterogeneidade;
  • praticar a estética do bem-querer.

Estas posturas pedem para darmos permissão a nós mesmos para olhar para as outras pessoas, para vê-las não a partir das lentes com que sempre enquadramos nosso mundo, mas a partir das particularidades do outro. Já chegando ao final da palestra, Mayra nos convidou para o reconhecimento da alteridade e para partirmos sempre do pressuposto de que todo contato é uma oportunidade de aprendizado.

Eu não sei quem é o outro, mas posso aprender – e só existe diálogo quando estamos dispostos a estarmos errados. Ou, nesse caso, a entender que nosso modo atual de ver o mundo não dá conta de acomodar e acolher as experiências propostas por sujeitos cujas vidas são distintas das nossas.

radio yandêEssas vidas ditas diferentes não se calam, e a internet é uma ferramenta fundamental para que se propaguem e se encontrem. Essa facilidade trazida pela tecnologia tem sido muito bem aproveitada, como no caso da Yandê, a primeira rádio indígena online do Brasil. Jovens indígenas se reuniram para estabelecer um espaço a partir do qual pudessem (literalmente) propagar sua voz.

O convite que fica, então, é o de se abrir para conhecer as histórias que estão perto de nós, em busca de uma compreensão plural do que significa ser quem somos. Para quem topar o desafio, indico o site Brasis.vc, do qual a Mayra é editora-chefe, como um próximo passo para essa incursão em culturas tão diversas e, ao mesmo tempo, tão nossas.

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