Nossos paradigmas estão quebrados

Hoje rolou a terceira edição do Creative Mornings em São Paulo. Depois de tratarmos sobre risco e realidade, foi a vez de falar em “broken” (quebrado). O encontro aconteceu no jardim da Springpoint, numa manhã friorenta, provando que pessoas estão dispostas a desafiar o clima em troca de uma conversa significativa.

Para puxar a discussão, o palestrante Zé Borbolla trouxe provocações em torno da tecnologia e de como ela estrutura os fluxos possíveis de comunicação e informação. De início, apresentou quatro frases reclamando sobre os riscos da tecnologia: diminuir a memória, alienar as pessoas, trancá-las em casa, evitar que saibam a origem das informações. Zé nos perguntou do que achávamos que cada frase estava tratando, mas a surpresa foi geral quando descobrimos que não se tratava de internet e celular, mas de livro, jornais etc. Ou seja: temos medo dos efeitos da tecnologia desde há muito tempo, quiçá desde sempre.

zé borbolla vivian dallalba creative mornings

Sócrates, por exemplo, sugeriu que a escrita nos levaria a perder a memória. Muitas dessas preocupações decorrem de um entendimento de que como vivemos é o melhor jeito de se viver, o que no mínimo ignora a história e também é ingênuo quanto ao futuro. As tecnologias são extensões das nossas capacidades, do galho com o qual alcançamos uma fruta alto na árvore até o computador que me permite escrever um texto e distribui-lo por uma rede mundial de computadores, ampliando seu alcance para além da memória minha e de outros leitores.

Toda tecnologia que surge é acompanhada de críticas. Em 1883, a revista The Sanitarian lançou uma provocação contra uma estrutura que tinha o poder de enclausurar, silenciar e tornar sedentárias as crianças: a escola. Em 1883, ou seja, 127 anos antes de eu sentar numa sala de aula para discutir a falência do modelo de escola que temos hoje. Algumas vezes, essas críticas acertam na mosca (pobrezinha da mosca), embora com frequência apenas apontem que, como espécie, somos péssimos nas artes de profecia.

Uma constante na história humana é que cada nova tecnologia de comunicação traz consigo uma reconfiguração do tecido da sociedade e seus fluxos. Foi assim com a prensa de tipos móveis, que tornou possível a alfabetização como um projeto amplo, estimulando novas publicações, inclusive periódicos. Rádio, telefone, avião, cinema, televisão, computadores, internet, todas essas tecnologias modificaram nossa relação com o mundo e com as demais pessoas. Os fluxos de comunicação se modificam e, com eles, outras vozes passam a ser ouvidas e reconhecidas, alterando as dinâmicas de poder – ou pelo menos facilitando reajustes nessas dinâmicas.

De acordo com Bauman, vivemos um interregno, termo que significa o intervalo entre dois reinos, durante o qual inexiste a figura do rei (hereditário ou eleito) e portanto precisa-se descobrir o que fazer. Os paradigmas que trouxeram a humanidade até seu momento atual estão sob disputa. Quebrados, aliás (e daí o “broken” que o Zé escolheu tratar). Quando falo em paradigmas, estou me referindo às grandes narrativas da modernidade, que já não dão conta de colher entre seus dedos trêmulos tudo o que se refere à experiência humana – se é que algum dia deram.

Nesse terreno instável, vamos aprendendo ao mesmo tempo em que as regras do jogo mudam. Nesse cenário, é fácil nos agarrarmos a previsões apocalípticas, como o fez Sócrates com a escrita, ou leituras utópicas de mundo, crendo que tudo agora está resolvido. Por exemplo, vemos iniciativas como Airbnb e Uber sendo apontadas como revolucionárias. De fato, elas mudam algumas coisas do jogo, mas o princípio (da concentração do dinheiro nas mãos de quem detém a infraestrutura) ainda é o mesmo. São alternativas e precisam ser celebradas por isso, mas não são propriamente revoluções.

É nessa negociação entre novos modos de fazer e velhos jeitos de crer que nós vivemos.

No centro dessas questões reside o controle. Quem controla o que acontece, quem controla quanto do que acontece?

Daí temos empresas tentando novos modos de fazer circular informação e de gerenciar seus projetos. Dou só um exemplo porque comecei a ler o manual para novos funcionários (indicado pelo Zé na palestra, está em inglês) e já estou pirando: a Valve, uma empresa horizontal, sem hierarquia. Nível de piração: estou lendo o manual e pensando o que eu posso trazer dele para que o Ninho de Escritores seja cada vez mais colaborativo.

Nessas empresas – e por todo o meio empreendedor e as novas iniciativas de educação, de doutorado informal e desescolarização – vemos um atributo essencial: a autonomia. Somos doutrinados na escola ao longo de pelo menos onze anos (agora é mais, parece), internalizando alguns paradigmas, como a pessoa que fala em pé para trinta pessoas sentadas. A sala de aula tradicional é uma tecnologia que, em geral, presta um desserviço na hora de fomentar a autonomia dos sujeitos envolvidos.

Entretanto, precisamos de autonomia se queremos horizontalidade. De novo, enfrentamos o desafio de lidar com estruturas e fluxos em conflito. Como seremos autônomos se fomos formados para a heteronomia, a entrega do poder de decisões para outras pessoas (professores, pais, chefes etc.)?

Precisamos de mais do que autonomia. Pensar estruturas horizontais envolve distribuir também o poder e as responsabilidades, bem como reconhecer que conflitos existirão nas relações humanas. A solução? Não faço ideia nem se existe uma solução, que dirá que solução é essa.

vivian dallalba facilitação gráfica

Facilitação gráfica de Vivian Dall’Alba. Acompanhe-a no Instagram.

Algumas frases fortes da palestra

  • “Vivemos em um mundo com excesso de informação”, disse uma alma preocupada com o surgimento da imprensa.
  • “A visão tradicional deixa escapar muita coisa”.
  • “A aprendizagem é uma coisa tão forte que até na escola ela acontece”.
  • “Só o que é sentido faz sentido”.

Algumas sugestões de referências


Also published on Medium.

4 comentários em “Nossos paradigmas estão quebrados

  1. Pingback: A revolução da empatia - Tales Gubes

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *