Quem merece ser ouvido?

Estou lecionando um curso de escrita criativa com temática queer na representação regional do Ministério da Cultura, que fica no bairro Santa Cecília, no centro de São Paulo. A experiência tem sido riquíssima, com textos e visões de mundo incríveis sendo lidas e ouvidas todas as semanas. Tem bixa, tem lésbica, tem galera questionando expectativas de gênero.

Sempre que a aula acaba, percorro algumas ruas, do Ministério ao metrô, junto a um grupo de estudantes. Se durante o curso já não os enxergo como “alunos”, criaturas inferiores abençoadas pela possibilidade de estarem em contato com a minha sabedoria, na rua já estamos ainda mais para companheiros de jornada. O que nos colocou juntos é a busca por uma maneira de olhar a vida que seja problematizadora, reconhecedora das estranhezas e invisibilidades que permeiam tudo – inclusive o que enchemos a boca para chamar de normal.

Falávamos sobre enfrentamentos, sobre os desafios e limites das teorias, sobre os esforços de empoderamento que passam pela habilidade de escrever. É isso que eu faço, é assim que luto: contribuindo para que outras pessoas sejam capazes de se comunicar com mais clareza e potência.

Digo sempre que, para escrever, precisamos ouvir. Se não formos capazes de dar sentido para as vidas e histórias de outras pessoas, nossas palavras serão vazias, sem alma, sem a capacidade de afetar leitores. Precisamos de empatia, precisamos conhecer a alma humana, entender seus conflitos e questionar seus motivos.

Eu lá toda semana com um discurso lindo, ontem mais uma vez fui atropelado pela vida real, que insiste em não se manter invisível, que insiste em usar a sua voz – ainda que rouca, ainda que às vezes mal e mal um sussurro – para desestabilizar meu lugar de poder e conforto.

Já a uma quadra do metrô, uma dupla se aproximou do nosso grupo. Tinham as roupas sujas e surradas e falavam baixo, pediam dinheiro. Dinheiro para quê? Comida, entreouvi.

Entreouvi porque não parei para escutar.

Infindáveis motivos para não parar e não dar dinheiro pipocaram na minha cabeça. É tarde. Estou com dificuldades para pagar meu aluguel. Tenho medo de ser assaltado – se não por eles, por outras pessoas. Quero chegar logo em casa. Vai saber para o que usarão o dinheiro. Eu não posso mudar a vida deles. Preciso cuidar de mim primeiro para depois poder ajudá-los. Eu. Eu. Eu.

Um dos estudantes parou e conversou com a dupla. Eu parei alguns metros adiante, próximo o bastante para vigiar, mas não para ouvir. De novo, entreouvi algumas coisas. Pagar um lanche, cigarro não, janta inteira não rola porque a grana está curta, mas um salgado, sim. Com um sinal de que iria até uma lanchonete próxima, ele se afastou com a dupla noite adentro.

Retomei a caminhada para o metrô com um peso no peito, o peso de quem sabe que poderia ter feito algo e não fez. Senti vergonha dos meus privilégios, em particular da minha paralisia na hora em que, longe da teoria e dentro da realidade, fui convidado a repensá-los e reconstruí-los.

Ontem à noite, fiz uma escolha sobre os enfrentamentos que estive disposto a empreender. Ontem à noite, reafirmei uma postura sobre quem merece ser ouvido.

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