Três encontros com o medo

– Meu nome é Diego, sou de Petrópolis, sou psicólogo e tenho um projeto chamado Escola de Rua.

É desse jeito que Diego se apresenta quando leciona na fila do Bom Prato, restaurante popular que serve refeições a R$ 1,00. Muita gente acha que ele é louco de ir para a rua e experimentar a vida, mas esse contato com pessoas diversas tem lhe rendido vários aprendizados. Nesta semana, ele aprendeu sobre o medo.

Depois de almoçar no Bom Prato de Santana, Diego estava voltando para o metrô e viu uma senhora de uns cinquenta anos gritando todo tipo de impropério contra uns homens do outro lado da rua. Eles estavam agrupados em frente a um bar rindo a cada xingamento. Quando ela finalmente parava, eles voltavam a gritar com ela e os insultos retornavam, junto com as risadas dos rapazes.

Era um ciclo interminável. 

Tomado de curiosidade, Diego parou. Que comportamento era aquele, ela cheia de gritos, e eles, de risos? Desde quando a irritação alheia tornara-se alimento para a felicidade? Havia algo de escola acontecendo ali, uma mostra que, mesmo na Escola de Rua, se aprende com o bullying.

Diego caminhou até um dos homens no bar, um senhor mais velho, e perguntou:

– Você é infeliz?

O homem ficou perplexo. Quem era aquele moleque (depois dos sessenta, qualquer um de vinte e poucos deve ser um moleque) atacando-lhe daquela maneira cruel? Que liberdade havia-lhe dado para que fizesse perguntas significativas? Para alguém que não duvida de si mesmo, a pergunta pode ser uma agressão sem fim.

– Quem disse que eu não sou feliz? Eu sou muito feliz, meu irmão!

– Você é tão infeliz que precisa provocar aquela mulher? – Diego foi certeiro, vendo muito além do que o homem estava disposto a revelar. Ou perceber. E não havia em sua voz nenhum rastro de raiva ou indignação, apenas dúvida.

Alguns homens do bar se aproximaram, a fim de entender como aquele cara estranho estava irritando o senhor mais velho. Diego explicou e o homem explodiu, afirmando o quanto era muito feliz e que ninguém podia duvidar.

Diego estava num dia de paz interior, praticamente um monge. Deu de ombros e saiu.

– Volta aqui! – o homem gritou e Diego voltou; não tinha lugar melhor para estar naquele momento que não o presente.  – Vai embora daqui!

Meio confuso, meio achando tudo ridículo de tão engraçado – e triste, porque não há felicidade em perceber que alguém machuca porque perdeu a capacidade de cuidar de si –, Diego partiu, não sem antes ser ameaçado pelo homem, que tinha em mãos uma barra de ferro e, na boca, uma ameaça de morte.

De volta ao caminho para o metrô, Diego decidiu experimentar seus limites. Havia recém sido ameaçado de morte por um “cidadão de bem”, o que de pior poderia acontecer?

cachorropedamateria-g-20110725

Ouviu um batucar próximo e percebeu que vinha de uma barraca estendida na rua. Nela, um velhinho e, logo atrás, um cara batucando em um balde.

– Você é o cara que dá aula na fila, né? – O senhor perguntou, animado.

Diego sentou e puseram-se a conversar. Ao lado do velhinho, o cara parou o batuque e perguntou as horas. Diego tirou o celular do bolso, viu as horas e respondeu, mas não teve tempo de guardar o telefone de volta no bolso, pois o cara tomou-o.

– Eu gostaria do meu celular de volta – Diego disse, aquele jeito paciente.

– Se quer, chama a polícia. Porque senão eu pego a faca, você quer que eu pegue a faca?

Diego respirou tão pesadamente quanto conseguiu. Precisava de oxigênio no cérebro e na alma.

– Se você puxar a faca, eu vou correr, porque tenho medo de facas.

Sem acordos, Diego foi à polícia. Eles perguntaram:

– Ele roubou ou pegou emprestado? Porque, se ele roubou, teremos que levar o cara pra DP.

Diego entendeu que isso deveria ter um significado. Uma vida de rua, aprendera mais cedo, vale menos que uma vida que paga IPTU. Voltou à barraca com três policiais de escolta e pediu de volta “aquilo que havia emprestado”. Recebeu o celular e algo mais:

– Marquei sua cara, se voltar aqui eu te mato.

Um almoço, duas ameaças de morte, parecia um saldo apropriado para alimentar o espírito, mas havia mais a se descobrir.

Já no metrô a caminho de casa, o trem deu um solavanco e parou. Disposto a expressar e enfrentar seus medos, Diego exclamou que estava com medo. Uma mulher sentada ao seu lado indicou que ela também tinha medo. Diego perguntou a ela sobre isso.

– Está vendo isso? – ela perguntou enquanto mostrava uma cicatriz na testa. – Foi um tiro de raspão. – E ela contou sobre cinco tentativas de assalto, proteção divina e ameaças de morte.

Diego relatou suas experiências e ela agradeceu por aquela conversa, pois havia sido obra do destino aquele encontro. Se destino, deus ou acaso, impossível dizer. O que fica,  por enquanto, é a noção de que o medo nem sempre é um sentimento que afasta. Por obra da semelhança, pode ser uma força que aproxima. Depende, parece, do que fazemos com ele e com os outros.

 

(Essa é uma experiência que me foi relatada pelo Diego. Não é propriamente ficção, mas também não é jornalismo nem vida real. É, no fim das contas, um projeto particular de contar por escrito histórias fantásticas que ouço ou das quais participo. Tem um experiência para contar e gostaria que ela virasse texto? Entra em contato!)