Conte uma história por um real

Você aceitaria um real para contar uma história? Com essa pergunta em mãos, o Diego, da Escola de Rua, e eu, Tales, do Ninho de Escritores, fomos à Avenida Paulista conversar com as pessoas.

Começamos no metrô Consolação, com um papel A3 escrito a mão: conte uma história por R$ 1,00. Convite simples, direto. O Diego mostrava a folha para as pessoas, sorria e esperava um retorno.

– Ai, não quero, moço – diziam.

– Por quê? – ele perguntava daquele jeito simpático de psicólogo.

– Porque não; porque estou atrasado; porque não tenho histórias para contar.

Enquanto as pessoas fugiam, eu me perguntava qual seria a minha reação se um grupinho de malucos oferecesse me pagar um real para contar uma história. Ali, na rua, na hora, sem a proteção da amizade, sem a defesa da confiança, sem o tempo e preparo do texto. Na hora, no momento em que as relações acontecem. Não tive tempo de responder a mim mesmo, pois fomos interpelados por uma agente do metrô.

– Não pode pedir aqui dentro – ela disse, um jeitinho de quem pedia com sofrimento.

Penso que ela preferia estar nos dizendo outra coisa, talvez até contando uma história.

– Não estamos pedindo, estamos oferecendo – o Diego respondeu. Gênio!

A resposta veio automática:

– Mesmo assim não pode – mas não sei se poderia esperar algo diferente de alguém uniformizado. Naquele momento, ela não era uma moça com nome e histórias, mas uma agente do metrô. Que pena.

Fomos à rua e encontramos um senhor sentado em frente a uma banca de revistas. O jeito psicólogo do Diego foi se aproximando, cativando e abrindo espaço para que sem demora estivéssemos sentados ao lado do senhor João Fernandes, que trabalha desde 1994 naquela banca, tem dois filhos, vendeu um terreninho para pagar a faculdade da filha e acredita que “você tem que trabalhar, senão Deus só faz chover”. Pelo sol que estava àquela hora, João trabalha e muito!

– Como o senhor chegou até aqui? – o Diego perguntou.

Escola de Rua e Ninho de Escritores 1

Desta vez, o gênio foi João:

– Pra chegar até aqui, só andando.

Rimos com a certeza de havermos encontrado uma grande verdade. Parados, não chegaríamos a lugar algum, muito menos até o senhor João, que se despediu de nós com um abraço apertado, mas ficou por perto, à moda dele, ajudando a chamar outras pessoas.

João ganharia nossa primeira moeda de um real, mas não aceitou.

– Por que o senhor vai nos deixar em dívida? – perguntamos.

– Eu já perdoei – veio a resposta.

Por mim, se a experiência tivesse acabado ali, já teria sido memorável para uma vida. Mas não acabou, e nossa primeira moeda foi para um fanfarrão.

Passaram dois caras, leram nosso cartazete e voltaram.

– Qualquer história? – um deles perguntou. Que proposta esquisita aquela no meio da Avenida Paulista. – Um elefante caiu na lama – veio a história e foi-se um real.

Diego e eu ficamos abobalhados. Nosso primeiro um real dado a um sujeito que subverteu o jogo e nos mostrou que dá para ganhar mesmo quando as regras são dadas por outrem. Puta aprendizado. Aliás, aprendizado duplo: a subversão sempre é possível enquanto houver liberdade, e, no jogo, ganha mais fácil quem quer que o outro perca.

Mas histórias são coisas vivas, e logo compramos a narrativa de uma moça cuja atual namorada havia sido melhor amiga da sua ex-namorada. Sim, estou confuso até agora, só sei que estão juntas há oito meses. Quando a moça terminou de contar e paguei-lhe o um real, o Diego perguntou:

– Você conseguiu entender todos os meandros dessa história?

Eu ri.

– Não – só podia rir. A gente não entende todos os meandros nem das nossas próprias vidas, que dirá das vidas dos outros. Fiquei é feliz dela haver parado para contar uma história sem medo de preconceito.

As histórias continuaram. Veio a moça com bebê no carrinho e a narrativa sobre um pai exilado político no Paraguai e um irmão de quarenta anos recém descoberto. Veio também a espaçonave com os últimos humanos do planeta Terra, o bullying com um cara que estudava Botânica e umas árvores assassinas fazendo bem-me-quer-mal-me-quer com homens maus.

E veio de volta o cara da história do elefante na lama. Queria contar mais uma história, lucrar mais um realzinho. Dinheiro fácil, dois otários na rua comprando serviço rápido de produzir. Desta vez o aprendizado foi dele: depois que se subverte uma vez, o sistema reage e o grau de exigência sobe. Hoje, Diego e eu fomos a Matrix e o cara não era o escolhido para nos vencer.

Que pena, teria sido foda se ele ganhasse de novo. Mas, sem saber, foi ainda mais legal porque o que antes era um ganha-perde virou um ganha-ganha. Ele ganhou um real e uma lição, nós ganhamos três lições e pagamos um real. Achei justo. E o Diego até que foi bem diplomático:

– Você fez uma escolha, e agora nós escolhemos ouvir as histórias dos outros.

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Por fim, vieram duas moças. Uma delas ficou quieta, olhando meio de canto, mas a outra tinha muito a dizer sobre uma cachorrinha que ela própria ajudou a colocar no mundo, sete anos atrás. Era uma cadela espoleta, corria por todos os lados, pulava muito, mas uma lesão na coluna passou a ameaçar sua vida. Foram necessárias vinte sessões de acupuntura para que a linguicinha voltasse a correr. E voltou: vimos fotos e um vídeo dela na praia, pulando ondinhas e sendo feliz. Oferecemos um real por aquela história, mas ambas as moças recusaram.

– Por quê? – questionamos.

– Para nós, é recompensador contar a história.

Fiquei com aquela frase na cabeça enquanto ia para casa. Para mim, afinal, também é recompensador contar a história. Foram as histórias contadas que estabeleceram pontes entre as pessoas que passaram. Talvez algumas delas contem para conhecidos sobre os caras loucos na Avenida Paulista que se ofereceram para pagar por histórias. E, assim, nossa relação, ainda que breve, permanecerá viva.