O filme Quem vai ficar com Mary (de 1998) plantou duas sementinhas que até hoje seguem comigo: a ideologia highlander de que só pode haver um e a insegurança de não ser o escolhido.
No filme, vários caras tentam conquistar o coração e um lugar ao lado de Mary, uma moça bonita e simpática (não lembro se ela era inteligente, mas esse com certeza não era um destaque do filme… O que já serve para questionarmos como os papéis de gênero são mostrados na mídia; a mulher é tratada como um objeto, um prêmio a ser conquistado pelo galanteio do macho).
Em 1998 eu tinha uns 12 anos. Já pensava aqui e ali sobre sexo e relacionamentos e estava muito na onda “eu nunca vou encontrar alguém que me queira”. Aquela bobagem de guri novo, mas que assusta e machuca. Diga-se de passagem, esse é um tipo de insegurança que não desaparece tão fácil.
Meus namoros até hoje sempre foram monogâmicos, ou seja, seguiam o modelo do filme. De todas as pessoas do mundo, escolhe-se uma e fica-se só com ela. Na hora da conquista bate aquela ansiedade, será que quem eu ‘escolhi’ também vai me ‘escolher’?
Fora dos namoros, porém, é aquela dança das cadeiras. Experimenta um, conhece outro, tem encontros frustrados, leva bolos, sofre, passa o rodo. Tudo sempre voltado ao mesmo objetivo: encontrar uma pessoa que satisfaça a todos os critérios de excitação estética, emocional, física, intelectual etc. A pessoa perfeita.
Em meio a todo esse processo, raras vezes eu me perguntei por que escolher só uma pessoa?
Enquanto há a possibilidade de só nos relacionarmos com uma pessoa por vez, temos que lutar para sermos escolhidos por aquele que atende aos nossos desejos e, depois, para manter a relação andando.
Tenho a impressão que a tônica desse modelo é a competição para ver quem consegue o melhor namoro/casamento. Tem mais a ver com estar seguro e se sentir protegido desse mundão gigante e cheio de possibilidades, do que tem a ver com estar com pessoas que amamos.
Pensar que eu não preciso escolher me deixa um pouco mais livre para experimentar a vida, conhecer as pessoas a fundo e estabelecer relacionamentos mais valiosos. Sei que muitas pessoas vão fugir dessas ideias, inclusive muitas pessoas maravilhosas. Sei que a insegurança e a carência muitas vezes vão tentar comer o meu coração. Sei que não é um caminho convencional.
Mas será impossível? Espero que não.
