Eu evito lidar com confrontos e isso tem a ver com por que passei 2013 namorando a mesma pessoa.
Como era meu namoro: ótimo. Conversávamos sobre banalidades, saíamos juntos quando havia dinheiro, encontrávamos os amigos um do outro, dávamos força e incentivo para os sonhos, cozinhávamos juntos e às vezes para o outro. O sexo era bom. A companhia, agradável. Passávamos muito tempo juntos, dormíamos abraçados (nos primeiros dez minutos da noite) quase todas as noites. Em 2013, na companhia do meu (ex-)namorado, eu fui feliz na maior parte do tempo.
Essa é uma versão da história.
Uma versão verdadeira, que fique claro. Eu realmente penso sobre meu relacionamento dessa forma, em especial porque não sou o tipo de pessoa que se agarra a coisas negativas (ao menos não até o ponto em que elas predominem).
Só que, como tudo na vida, tem o lado B.
Eu não sou uma pessoa que sabe entrar em conflito. Eu o evito, pura e simplesmente, porque sempre achei mais fácil acatar as consequências e lidar com as adversidades do que erguer o peito e bater de frente com seja lá o que for que me incomoda. Tenho sido assim há anos. E muito pela confiança que recebi durante o namoro, decidi que era hora de parar com isso.
A pessoa que eu quero ser não é uma pessoa que baixa a cabeça.
Em junho, devido a algumas cobranças de ciúme, decidi terminar o relacionamento. Trocamos várias mensagens e conversamos ao telefone. Disse que queria terminar. Ele chorou e pediu para nos encontrarmos. Eu pensei na dignidade humana e no ridículo que seria terminar um relacionamento via telefone (o anterior eu fechei por Facebook a um hemisfério de distância, daí já se nota o nível de covardia) e aceitei o encontro.
Conversa vai, conversa vem, ele foi parar no hospital. Crise de ansiedade (mas na hora eu não sabia e achei que estava com uma pessoa prestes a morrer nos meus braços, fiquei até aliviado quando o cara da ambulância disse que não iria à minha casa porque meu (ex-)namorado era novo demais para ter uma parada cardíaca).
Voltamos.
Justifiquei para mim que ele mudaria, diminuiria os ciúmes e tal. O namoro seguiu muito melhor do que vinha sendo, então achei que a coisa estava boa. Que, apesar de tudo, o susto havia funcionado.
Até que apareceu São Paulo.
São Paulo foi e está sendo a coisa mais louca e empolgante da minha vida. É a chance de eu me reescrever e buscar sonhos que mantive guardados.
Foi esse namoro o que me ajudou a desencavar o baú dos sonhos, abri-lo e decidir que era o momento de ir atrás deles. Não tenho a menor dúvida disso.
Contudo, para vir a São Paulo em busca de mim mesmo, do eu que desejo ser, eu precisava vir sozinho. Por isso, avisei ao meu (ex-)namorado no final de agosto que mudaria para São Paulo. Sozinho.
O que eu queria: que ele entendesse meu sonho, aceitasse minha decisão e vivesse comigo os meses restantes até a minha partida (definida para início de janeiro, quando meus contratos de emprego nas faculdades poderiam ser encerrados). Queria ser feliz enquanto durasse. Eu, que nunca acreditei em para sempre, estava razoavelmente confortável com essa decisão.
Ele, não. A cada dia que se aproximava do fim, meu (ex-)namorado ficava mais triste, mais introspectivo, com menos gana de viver. Se isso me surpreendeu? Não. Eu o conhecia bem o bastante para saber que ele não conseguiria encarar esses meses finais e o término da mesma forma que eu. Eu fui covarde de querer manter o relacionamento, algo confortável e gostoso para mim, ao invés de colocar na mesa que não havia mais sentido em estarmos juntos. Não havia sentido porque ele sofreria demais, seria uma tortura. E foi.
Por não ter a coragem de entrar em conflito, terminar e lidar com as dores levantadas por isso, esperei. Deixei o namoro seguir, apaziguei uma crise aqui e outra ali. Eu estava entre não querer machucar meu (ex-)namorado e não querer me indispor. Covardia pura, porque fazendo isso eu estava machucando-o cada vez mais.
Eu sabia que devia separar. Mas não, seguia na vida dele participando cada vez mais.
Veio a noite da partida. Nós no aeroporto, muita dor e muita lágrima. Eu entrei no avião depois do nosso último abraço. Nosso namoro estava encerrado.
Eu sabia que quando entrasse no avião nosso namoro estaria terminado. Pelo conforto de continuar um namoro que me fazia bem e pela canalhice de não precisar terminar – o avião faria isso por mim –, esperei, deixei acontecer.
Se a história acabasse aqui, eu já teria provas o suficiente para argumentar que eu deveria ter lidado com o conflito que se estabeleceria no término. Eu deveria ter sido corajoso o suficiente para dizer “não, nosso relacionamento não tem futuro e eu não acho certo continuarmos”. Ao evitar o confronto, eu arrastei uma situação que vinha ruim rumo a uma situação ainda pior.
E piorou.
Eu e o ex-namorado continuamos conversando via mensagens. Eu fui aumentando a distância e respondendo menos. A intenção era diminuir o contato aos poucos. Ele percebeu isso e começou a exigir mais presença.
Até que começaram os cortes e as ameaças de suicídio.
Eu não conseguia cortar essa relação cujo sofrimento nascia das minhas ações. Ele estava sofrendo porque eu não havia cortado o namoro lá no início, quando eu sabia que chegaríamos a algum ponto parecido. Na minha cabeça, eu deveria, portanto, continuar ali tentando cuidar, tentando fazer melhor.
Essa semana eu percebi. Eu nunca fui embora de verdade, apenas cortei minha presença física. Eu continuo aqui respondendo a ele, dando uma esperança (mesmo que irreal) de retorno.
Estou preocupado com os cortes e as ameaças de suicídio? Sim.
Trocaria a minha vida pela dele, largaria tudo o que sonhei para voltar a Goiânia e garantir que ele continue vivendo sem esses danos a si mesmo?
Não. A minha vida é mais importante. O que eu acredito é mais importante. Eu quero viver e isso é motivo o suficiente para confrontar os meus medos.
Pela segunda vez na vida, cortei todos os acessos que alguém pode ter a mim. Ele pode ler este site, verdade, e duvido que entenda essas linhas do jeito que eu gostaria que entendesse, mas não poderá entrar em contato. Telefone, Facebook e E-mail bloqueados. Os comentários aqui também passam por um filtro.
(A outra vez que fiz isso foi com um psicopata que queria só o pior para mim e fazia questão de deixar isso claro em mensagens e gritos e cotoveladas e pedradas na rua.)
O que eu acredito que acontecerá: eu e ele nos libertaremos. Eu, das cobranças de atenção e presença e das chantagens emocionais. Ele, da corda que o mantinha preso a uma esperança de futuro que nunca vai acontecer.
Não o fim que eu gostaria, mas encarar o confronto tem muito mais a ver com fazer aquilo que se julga o correto (de preferência no momento correto, enfim) do que com gostar das consequências.