Na maioria das artes, o aprendiz segue os passos de um ou mais mestres no percurso de aprender as técnicas para o ofício. A escrita, porém, segue uma lógica diferente: passamos anos “aprendendo” a escrever na escola e, depois, muitas vezes chegamos à prática da escrita acreditando que não há o que ser ensinado, ou que podemos nos virar sozinhos.
E é verdade: podemos nos virar sozinhos, mas é perda de tempo.
A escrita que desenvolvemos na escola é muito diferente de uma escrita literária voltada para o entretenimento, ou para a comunicação precisa e concisa do jornalismo, ou para a elaboração reflexiva de um texto acadêmico. Isso nem de longe quer dizer que aprendemos errado, ou, pior ainda, que há um jeito certo de escrever. Mas sugere uma questão a se pensar…
A minha vida em São Paulo está dedicada a investigar como escrever melhor. Para isso, fiz cursos, passei a frequentar eventos e criei o Ninho de Escritores, pois entendo que o melhor jeito de aprender é compartilhando o que se sabe.
Uma das demandas que encontro nos participantes do Ninho de Escritores é conhecer o processo criativo de quem escreve, talvez na esperança de que possamos achar, no trabalho daqueles que alcançaram notoriedade, uma resposta para os nossos próprios processos. Acho essa busca excelente, pois através do exemplo é possível construir uma relação com a nossa própria experiência e verificar o que funciona na prática.
O meu medo, com o exemplo, é que ele se transforme em resposta pronta. Ou na única resposta possível para a charada que é a criação literária. Cada pessoa escreve de um jeito, cada pessoa encontra suas ideias e transforma-as em literatura a partir de um processo que é individual e idiossincrático. Ignorar isso é um perigo para a alma criativa.
Isso dito, gostaria de compartilhar o meu processo, por meio do exemplo de um texto que estou escrevendo.
Começou com o nascer da vontade. Nunca tive muito controle sobre essa etapa, pois ela é anterior a qualquer parte consciente do processo criativo.
Uma amiga me mostrou um texto que mandaria para um concurso e, quando terminei de ler, senti vontade de escrever também. Era um concurso sobre monstros gigantes. Eu sabia da existência do concurso, mas, até então, não pretendia participar. Não havia me sentido tentado pela ideia. Ao terminar de ler a história da minha amiga, porém, me coçou aquela vontadezinha de construir uma história como a dela.
Mas o que escrever sobre monstros gigantes? O site do concurso oferecia algumas pistas sobre onde eu poderia fazer uma pesquisa. Passei pela Wikipedia procurando informações sobre Godzilla, suas múltiplas aparições na televisão, e outros monstros. Puxei da memória tudo o que lembrava e comecei a elaborar um mapa mental.
A partir da ideia de kaiju (monstro, em japonês, palavra que escrevi com um u a mais), comecei a listar o que vinha à cabeça como possibilidades de história. Godzilla começou como a mais óbvia, seguida de gigante, que me levou a Gulliver. Talvez eu pudesse escrever uma história sobre um homem gigante caminhando por São Paulo. Continuei explorando algumas possibilidades: lembrei do filme Final Fantasy e considerei que o kaiju poderia ser um fantasma ou sombra gigante, que sugasse a energia vital das pessoas pelo toque. Ou quem sabe um robô criado por algum governo para atacar o Brasil? Ou um animal supercrescido. Minha ideia favorita foi a do vudu: o monstro seria, na verdade, uma projeção indestrutível a partir de um feiticeiro frágil, porém distante.
Com ela em mente, dei seguimento à ideia: haveria luta? Conflito, sem dúvida, mas confronto físico? Em uma história de monstros gigantes, fugir de batalhas me pareceu complicado. A questão, na verdade, não é a existência ou não de lutas, mas se darei importância a elas ou não.
Decidi deixar a questão na geladeira enquanto resolvia outro problema: a partir de qual ponto de vista eu contaria aquela história? Talvez eu pudesse contar a história sob a perspectiva de um capitão da aeronâutica, um piloto destemido e reconhecido tanto por sua bravura quanto por seus métodos pouco ortodoxos. Hummm… Clichê demais. Poderia ser um piloto de avião comercial. Até me permiti rir um pouco do possível anúncio feito pelo comissário de bordo:
– Senhoras e senhores, por favor apertar os cintos, pois estamos atravessando uma área de turbulência causada por um monstro gigante.
Resolvi que seria melhor ignorar as forças armadas. Os monstros gigantes sempre são os bandidos, então que tal se desta vez ele fosse o herói? Ou, ao menos, tivesse o poder de contar a história? Pensei nisso por causa de uma frase que ouvi:
Até que os leões possam contar suas próprias histórias, as histórias de caça sempre irão glorificar o caçador.
De volta à ideia do vudu, imaginei uma história em que um menino sofre bullying na escola, volta para casa e chora. Enquanto dorme, é visitado por um gênio, que lhe oferece as condições para se vingar. Como resultado, o garoto vira um lagarto gigante que vai atrás dos seus algozes.
Gostei da ideia, vingança, oportunidade, devastação, monstro gigante, conflito adolescente com meninos maiores querendo abusar de meninos menores… Mas alguma coisa estava me incomodando. Como eu não sabia ainda o que era, comecei a escrever. Tudo foi correndo superbem, até que chegou a cena do gênio. Descrevi a criatura, elaborei alguns diálogos, mostrei todo o espanto do protagonista ao ter um sujeito mágico em seu quarto… E daí percebi que aquela ideia era ruim. Ou melhor: a ideia era ótima, mas não para esta história. Esta é uma história de um menino que vira monstro gigante. O como ele se transforma em um monstro é absolutamente irrelevante. Anotei as ideias que não foram usadas, apaguei do esboço a cena do gênio e segui escrevendo.
Depois de muitas horas, terminei a primeira versão. Fim? Longe disso.
Gosto muito quando a primeira frase me aparece pronta. No caso esta história, a ideia me veio pela metade: e se eu começasse com uma ação e, logo em seguida, desviasse dela para aumentar a curiosidade e distanciar o momento em que ela seria saciada? Comecei assim:
Se Alex não estivesse fugindo, talvez percebesse a esplêndida manhã de inverno, o frio desafiado pelo sol – não muito quente, apenas o suficiente para quebrar a ação da brisa gelada que balançava as árvores murchas – e um par de cachorros brincando na esquina.
Essa frase apresenta algumas questões que precisaram ser resolvidas quando comecei a revisar. A título de exemplo, árvores murchas e cachorros são palavras genéricas, abstratas demais para criar uma imagem coesa do cenário que está sendo construído. Para as árvores, optei por pesquisar que tipo de plantas em São Paulo perde suas folhas durante o inverno. São Paulo, embora não tenha sido ainda indicada como a cidade onde se passa a história, já começa a ser desenhada por esses pequenos detalhes. O mesmo vale para os cachorros, que são totalmente desimportantes para a história, mas estão ali compondo a ambientação. Até mesmo o verbo brincando poderá ser trocado por algo que evoque uma imagem mais exata do que, precisamente, está acontecendo naquele momento.
O momento da revisão é a hora em que a verdadeira escrita acontece. Antes, é como se estivéssemos preparando o terreno para receber as ideias e, depois, para vê-las crescer. A escrita, porém, me parece estar muito mais no ato de podar e dar forma às palavras depois que elas foram derramadas no papel pela primeira vez.
O texto sobre o menino que vira Godzilla ainda não está pronto. Quando estiver, vou submetê-lo ao concurso. Se ele for aprovado, poderá ser lido em um livro. Do contrário, eu o publicarei aqui no site. De um jeito ou de outro, ele cumprirá o seu propósito: ser uma história sobre um menino que vira Godzilla.
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O Ninho de Escritores, projeto pelo qual tenho desenvolvido o ofício da escrita para mim e outras pessoas, está em campanha para se sustentar com apoio coletivo e recorrente. Quer fazer parte disso? Clique aqui!

