Ontem escrevi um conto

Ontem escrevi um conto e ele está uma merda. Aliás, para quem lê-lo em algum momento futuro, saiba que essa é uma piada interna. Que deixará de ser e virará externa, quando o conto for publicado, o que é outra piada externa. Tá, parei.

Tive a ideia, montei uma escaleta e escrevi por aproximadamente quatro horas até concluir o conto. Coisa pequena, cinco ou seis páginas, mas está bem ruinzinho até agora. Contudo, aprendi ou confirmei algumas coisas.

A escaleta é útil. Escaleta é uma lista das cenas e acontecimentos que serve de guia para a compreensão cronológica da história e, posteriormente, para o seu rearranjo caso a história não seja narrada de forma linear. Ajuda porque nós podemos visualizar o todo antes de entrar nas partes e, assim, compreender de antemão que elementos são mais importantes para a elaboração da narrativa.

A boa escrita é fruto da reescrita. Essa vou levar para a vida. Minha primeira versão está um bagaço, mas tenho certeza de que há boas coisas ali. Meu texto ainda é muito óbvio, juvenil e blogueiro, mas estimo que com a prática serei capaz de trabalhar modos melhores de escrever, expressar minhas ideias e emocionar.

Preciso de mais repertório. A leitura atenta pode me ajudar a encontrar caminhos na escrita. Repare que eu mencionei a leitura atenta e não qualquer leitura. Ler milhões de livros sem prestar atenção aos artifícios utilizados pelo escritor para obter o efeito alcançado pode não ser perda de tempo, mas certamente é um tempo que poderia ser empregado melhor (se o desejo é ser capaz de causar efeitos semelhantes). Quando li Amsterdam, por exemplo, me peguei voltando páginas e parágrafos inúmeras vezes na tentativa de entender as explosões emocionais que sentia.

Às vezes os manuais não ajudam. Eu sou um devorador de livros para leigos e manuais de escrita criativa. Já li vários e continuo comprando análises e teorias sobre a literatura. A ideia é uma só: aprendendo a crítica ou as instruções de produção, poderei encontrar métodos melhores de escrita. Contudo, embora esses tratados me abram portas, portas precisam de paredes e eu acabo me prendendo, às vezes mais do que me soltando. A busca por entender a complexidade da personagem somada à natureza universal do conflito humano e o alcance da catarse está me deixando travado e isso não é bom.

Eu preciso aceitar o momento em que estou. Já disse que não sou um Gabriel García Márquez, mas com frequência me pego pensando que talvez eu não seja nem um Tales Gubes decente. Isso é um equívoco. Pensar assim só me diminui e me diminuir não presta para nada.

 

A propósito, o texto que escrevi ontem era para ser compartilhado aqui no blog. Pensei em inaugurar uma seção de ficção e me obrigar a escrever um textinho por semana, mas estou em dúvida porque fiquei mais ou menos contente com o processo e com o resultado, então não sei se o compartilho ou se tento guardá-lo diante da possibilidade de publicação tradicional: livro, concurso, revista. O que fazer?

4 comentários em “Ontem escrevi um conto

  1. Bom… Eu vejo o teu lado: ter o texto inédito para uma possível publicação tradicional. Mas por outro lado, é como se você perguntasse a um cachorro se é melhor dar-lhe a linguiça ou guardá-la para um outro propósito. Eu quero ler o conto logo!

  2. Pingback: Angústia, de Tchekhov - Tales Gubes

  3. Pingback: Alguns dias felizes - Tales Gubes

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