Quem não se conforma às regras da normalidade paga um preço por isso.
Normalidade. Essa é uma palavra complicada. Digamos que normal seja aquilo que está na média, nem considerado pouco, nem considerado muito. Em termos sociais, podemos pensar no normal como aquilo que está invisível. Quando uma pessoa tem uma determinada característica e não falamos dela porque a outra pessoa já vai supor que ela possui tal característica, estamos falando de normalidade.
Tipicamente, ninguém precisa dizer que é branco. Homem. Classe média. Cristão. Heterossexual. Monogâmico. Educado até pelo menos o final do Ensino Médio. Onívoro. Saudável. Magro. Fisicamente capaz.
Quando falamos de alguém, só apontamos as características que distinguem essa pessoa desse padrão normal. Se não falarmos que é mulher, estaremos falando de homem. Se não falarmos que é ateu ou budista ou umbandista, é cristão. Se não dissermos que é gay, é hétero.
Isso gera um problema porque essa expectativa de normalidade é tomada como algo bom, em contraponto com os desvios, que são compreendidos como negativos.
Há também um outro problema: os desvios com frequência não são levados em conta e, para serem, envolvem um esforço e um preço social a ser pago.
Primeiro exemplo rápido: moro com um amigo vegetariano. Para se abster de comer carne, ele precisa muitas vezes se colocar em situações de indisposição com pessoas ou lugares que não estão prontos para receber quem não se alimente de carne.
Segundo exemplo rápido: tenho uma amiga que caminha com dificuldade. Para ela, rampas de acesso são a alternativa a escadas, que são praticamente impossíveis de superar. Há lugares que são inacessíveis, portanto, mas apenas porque a existência dela não foi considerada por quem planejou o espaço.
Terceiro exemplo rápido: sou gay e já sofri uma cota grande de sofrimento baseado na ignorância alheia e na vontade de machucar quem é diferente.
Ser diferente, portanto, tem um preço. Querer coisas diferentes do normal tem um preço.
Desde que vim para São Paulo, decidi abolir a monogamia da minha vida, como mencionei nos meus objetivos. Decidi isso porque acredito que relações entre pessoas não devem ser baseadas em sacrifícios e sim em acréscimos. Se eu deixar de ficar com outras pessoas por alguém será porque não estou interessado em ficar com outras pessoas e não porque a condição para estar junto é abrir mão de determinados prazeres.
Muita gente discorda dessa minha posição.
Discorda porque diz que para achar alguém legal e ficar com essa pessoa, nós deveríamos nos sacrificar, deveríamos nos dedicar somente a ela.
Eu não acho isso. Acho, na verdade, que é responsabilidade demais para uma pessoa só ser a causadora da minha felicidade e dos meus prazeres.
Nos meus namoros sempre fui o cara fiel e certinho, mas depois de alguns meses juntos invariavelmente começava a sentir desejo por outras pessoas. Desejo físico, tesão, vontade de transar. Eu não fazia nada disso, já que havia fechado um contrato com uma pessoa específica cedendo meu direito de explorar meus prazeres corporais.
Eu era feliz namorando? Na maior parte das vezes, sim.
Eu era feliz me contendo? De jeito nenhum.
Perceber isso me ajudou a tomar a decisão de abolir a monogamia da vida. Não é fácil, pois sempre que começo a conhecer alguém legal, preciso me encher de coragem e dizer “olha, eu não estou atrás de namoro convencional, tudo bem?”. A resposta normalmente é o barulho da porta batendo quando a criatura vai embora. Em alguns casos a resposta também inclui xingamentos. Ou lágrimas.
O que isso tem a ver com ser escritor? Tudo.
Todas as vezes que deixei de escrever alguma coisa, desde a Raposa Antropomórfica até hoje, foram porque não queria que algumas pessoas lessem. Fosse o namorado da vez, que poderia ficar chateado com minhas considerações, fossem meus alunos que poderiam se reconhecer nas minhas críticas, etc.
Ao não escrever sobre o que eu gostaria, fui percebendo que estava me enterrando em desculpas para não ser eu mesmo. Em nome de não incomodar os outros e de não ser honesto comigo mesmo, fui normalizando a minha existência.
Fiz isso muitas vezes na Raposa e agora estou fazendo neste novo site, cuja proposta é exatamente a contrária: assumir com o meu nome meus pensamentos e desejos.
Quando escrevi sobre o clube de sexo, senti-me livre e também amedrontado.
Livre porque pude falar sobre algo que fiz e gostei muito, mesmo que socialmente desaprovável (muitas pessoas acham que sexo não é algo para se falar a respeito).
Amedrontado porque meu ex-namorado, que ainda tinha (tem?) uma grande carga emocional investida em mim, poderia ler e se fragilizar com o conteúdo das minhas aventuras paulistanas.
Pausa para o choque de realidade: se a pessoa não concorda com a minha vida, que não esteja nela.
É o que eu diria para qualquer amigo que viesse falar dos mimimis de não escrever sobre o que quer porque incomodaria os outros ou perderia oportunidades de vida. Parte da minha missão para 2014 é ser honesto com tudo e com todos. Este site é o caminho que optei para isso.
Então dane-se se alguém sair da minha vida por me julgar errado.
Será um favor.
Mas claro que não é tão fácil. Minha amiga com dificuldade para caminhar não pode simplesmente pedir para ser ignorada. Tampouco meu amigo vegetariano. Eles demandam, nos espaços sociais, que suas existências sejam lembradas, reconhecidas e levadas em consideração nos planos.
O caminho para que isso aconteça não é, jamais, o silêncio. Ficar calado significa perpetuar compreensões equivocadas sobre como a vida deve ser.
Mais um motivo para eu escrever sobre tudo e ser honesto com o que acredito.
Devo isso a mim, como escritor, e especialmente a quem me lê. Vamos viver?
