Drag me out of the attic (guest post)

Hoje o texto é um pouco diferente: ele não é meu. É um guest post, ou seja, um texto convidado. Pedi à excelente Bunny Melrose que compartilhasse alguns pensamentos sobre sua história de vida e o resultado ficou lindo.

Sobre o título, a intenção de escrevê-lo em inglês foi aproveitar o trocadilho de drag, que vale no sentido de se travestir e também no de arrastar, então seria “saio do sótão/armário em drag” ou “arraste-me para fora do sótão/armário”. Espero que gostem e comentem!

Não sei como começar esse texto ou se ele vai ficar bom, mas vou aproveitar a oportunidade que a raposa deu para o coelho de dizer o que anda ocupando seus pensamentos. Vou tentar ao máximo resumir a minha história e abordar um assunto que é muito querido para moi e para muitos de nós do meio LGBT.

Aos 5 anos, peguei uma toalha no clube, a coloquei em volta da cintura e disse: “Parece uma saia”. Essa frase me perseguiu por muitos anos. No meu aniversario de 8 ou 9 anos, ganhei uma capa do Batman – na época, o meu super-herói favorito.

Nossa, como essa capa me fez feliz, e não pelos motivos óbvios: ela se tornaria meu primeiro vestido. Na frente de todos eu era o Batman, e rolava por todos os cantos da casa “pegando fogo”, como diriam. Quando estávamos sozinhos, ela era muito mais: toga de um imperador romano, atadura, armadura, cabelo, dentre milhões de outras coisas.

A capa foi só o início. Com o tempo, eu pegaria tecidos maiores, lençóis e colchas, e o que antes eram roupas masculinas logo viraram mantos, vestidos, saias. Os looks eram mais elaborados e a minha curiosidade era cada vez maior… O que antes era uma representação de homem, tomou formas femininas, e floresceu algo que eu viria a entender bem mais tarde.

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Não posso dizer que foi minha primeira experiência gay, pois sei que existem héteros que fazem esse tipo de coisa, e considero a minha primeira experiência gay a que tive com meu primo – mas essa história a gente conta depois.

Deveria ter uns 15 a 16 anos, o tecido ficou de lado e a curiosidade esfriou, até que, na minha primeira noite em uma casa de show LGBT, eu o vi, cheio de glitter, roupas justas, corpo à mostra, salto altíssimo e dublando Janet Jackson… LÉO ÁQUILA! Não consigo descrever o prazer, a excitação, a felicidade que eu senti naquele momento.

Foi uma experiência extraordinária e logo em seguida, naquela mesma noite, eu beijaria outro homem pela primeira vez, uma noite inesquecível!

A imagem do Léo dançando, dublando uma música que eu sabia de cor, aquela movimentação, o calor daquele lugar, tudo ficou impregnado na minha cabeça. Voltei pra casa e, num insight, decidi que queria ser ele, subir no palco, dançar, dublar/cantar, causar emoções às pessoas que me assistiam. Queria ser drag!

Agora, imaginem, aos 16 anos, uma família evangélica, você cair a ficha de que ser drag é um sonho enrustido seu. Não é pra qualquer um. E logo esse sonho foi para o meu sótão, porque outros problemas me impediram de segui-lo.

Vou abrir um parêntese no meio da minha história e discutir algumas coisas. Aqui está o meu conceito e a minha visão sobre drag. O que digo aqui não está escrito em pedra e nada passa da minha opinião pessoal sobre o assunto. Drag Queen (oposto de Drag King, para mulheres) é ato de o homem criar a ilusão de que é uma mulher. É um personagem dentro de você que tem a liberdade de ser o que quiser: loira, negra, branca, morena, ruiva, gorda, magra, gostosa e afins, um alter ego. Podemos moldá-lo à maneira que quisermos, desde seu tipo físico à sua personalidade. Há controvérsias hoje: muitas drags colocam próteses de silicone e usam seu próprio cabelo quando se montam; seu corpo esculpido como o de mulher já não precisa de enchimentos ou espartilhos para esconder os traços masculinos (que já quase não existem). Longe de mim falar o que você deve fazer com o seu corpo, mas essas modificações tiram, PRA MIM, um pouco da magia original. Afinal de contas essas pessoas se tornaram o personagem que elas criaram – ele, de alguma forma, conseguiu sair da mente e tomou conta do corpo inteiro. Existem muitas questões que poderia abordar dentro do que falei, mas vamos voltar à história, que é o foco principal.

Como todo bom sonho, o desejo de se concretizar foi maior do que o que o fez se esconder. Logo um amigo me fez uma proposta irrecusável: substituir um dos meninos em um show cover da banda inglesa Girls Aloud. Não conseguia me conter de felicidade. Saí em busca de peruca, roupa, acessórios, maquiagem, deixei minha unha crescer, salto (comprei o mais maravilhoso que pude encontrar, meia pata, couro, deveria ter uns 12 a 14 cm, 200 reais), me sentia no topo do mundo. Se não me falha a memória, Tales e eu nos conhecíamos online havia algum tempo, mas foi no meu primeiro show que nos vimos pessoalmente pela primeira vez. Viríamos a nos encontrar novamente, mas vou guardar essa outra história pra mim, rs.

OK, o medo de me vestir de mulher foi vencido, o show foi um sucesso (considerando o amadorismo e que era uma festa “particular”). Voltei a essa festa alguns anos montado e tive coragem de ir a uma festa popular na minha cidade semi montado – sim, uma drag de barba, foi um ahazzo.

A construção dessa persona, que eu batizei de Bunny Melrose, tinha sido iniciada, mas e agora? Não sabia como evoluir. Com quem compartilhar?

Conheci o RuPauls Drag Race, me apaixonei novamente, mas dessa vez pude ver de perto o processo de uma drag se montando, o quão complicado e meticuloso pode ser o processo de transformação. Não queria ser uma drag qualquer, queria ser como elas, lindas, femininas, com curvas acentuadas, perucas exuberantes e vestidos produzidos muitas vezes por elas mesmas.

Desde então eu tenho procrastinado esse sonho, com a desculpa de que me falta o “poder fazer”, mas quem vai me dar esse poder? Pra quem eu peço permissão?

Já pesquisei milhões de tutoriais, vi milhões de shows, sempre que escuto uma música babado já penso em como ela pode ser coreografada, qual roupa poderia usar, maquiagem e cabelo. O desejo de subir no palco como Bunny Melrose nunca foi tão forte.

Mas será que algum dia ele irá se realizar?

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Queria agradecer ao meu querido Tales pela oportunidade de escrever para o seu blog. Foi uma honra, espero poder contribuir mais vezes. Gente, força na peruca. Por mais clichê que seja, siga o seu sonho e, como diria a raposa, “não deixe o medo te paralisar”. #MUAH

Bunny Melrose <3

Amores, se vocês quiserem mais da Bunny, podem procurá-la no Pinterest e no Twitter. Peço que digam o que acharam da nossa ilustre convidada nos comentários abaixo. Obrigado!

4 comentários em “Drag me out of the attic (guest post)

  1. Raposa, só agora encontrei esta pérola. E que pérola!

    Bunny, sua diva, você escreve super bem. Adorei seu texto e o modo como você se encontrou no mundo. Gostei também de ter mostrado que seu pensamento é isso: seu.
    Se eu pudesse te deixar uma experiência minha, seria: tenha cuidado, procrastinar consome tanto tempo e energia quanto lutar pelo que se quer, os resultados é que são diferentes.

    Continuem a brilhar.

  2. Pingback: Curso de escrita criativa com temática queer - Tales Gubes

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