Fui ao cinema assistir a Ninfomaníaca, de Lars von Trier, em uma pequena sala no coração de São Paulo. Um filme de sexo logo cedo na segunda-feira atendia aos meus interesses paralelos; talvez por isso inicialmente eu tenha prestado tão pouca atenção à senhora sentada duas poltronas à minha direita.
Envolvido com meu acompanhante, e depois em assistir às aventuras sexuais constantes de Joe, perdi o momento em que a até então doce senhorinha ajeitara-se em sua poltrona. Era para mim uma idosa qualquer vivendo seus sessenta anos. Quando percebi, ela já estava com os pés acomodados no encosto da cadeira em frente, as pernas arqueadas e os braços perdidos entre suas múltiplas camadas de roupa. A ausência de luz não me permitiu ter certeza de onde estavam suas mãos, embora a sequência invejável de gemidos me oferecesse uma sugestão bastante clara.
Quando o filme acabou, ela levantou-se ligeira. Já não era uma frágil senhorinha de cabelos brancos que eu via ali: renovada, tornara-se respeitável, uma audaciosa exploradora de possibilidades, enquanto eu continuava sendo somente um cara que foi ao cinema com o amigo.