Aprender a escrever também é aprender a ouvir

A professora bateu o pé no chão.

– Gente, vírgula é pausa, não ponto final! O ponto é interrupção, a vírgula promete continuidade.

Minha colega se encolheu, cabeça baixa e olhos fixos na mesa à sua frente. Abriu a boca, mas fechou-a e deixou o silêncio ser sua resposta.

Nem todo mundo chega a um curso de escrita criativa com o mesmo nível, pensei saboreando a certeza de escrever melhor que uns e outros. (Crianças, não pensem isso em casa, isso se chama arrogância.)

Ajeitei-me na cadeira, os ombros puxados para trás, o peito estufado e a coluna ereta. Sorri de leve, olhos fixos na professora. Ela tinha meu texto em mãos e preparava-se para ler. Cada um dos colegas tinha também uma cópia, então poderiam acompanhar a fluência de minha escrita e a coerência de cada palavra empregada.

Ela começou:

– “Em uma pequena sala no coração de São Paulo”. Coração de São Paulo é clichê, se dissesse onde, teria sido mais ilustrativo.

Primeira frase, primeiro problema. Comecei a murchar.

– “A ausência de luz”… Ausência de luz? Por que não diz “o escuro”? Essa mania de florear o texto, gente, boa literatura não é texto enfeitado.

Tranquei o ar e parei de sorrir.

– “Já não era uma frágil senhorinha de cabelos brancos que eu via ali”. – Ela continuou lendo. Comecei a me sentir aliviado com o fim chegando. – “renovada, tornara-se respeitável”. Respeitável? O que é uma senhora respeitável? Ela não era respeitável antes? “Uma audaciosa exploradora de possibilidades”… Possibilidades de quê? Clareza, gente, nós escrevemos para o leitor.

Clareza: uma dificuldade que me confronta desde a infância. Um dos meus primeiros leitores – e dos maiores incentivadores, também –, meu padrasto sempre dizia a mesma coisa. Já pequeno eu ouvia que precisava pensar no leitor, que quem lê não sabe o que se passa na minha cabeça. Quem lê, só lê o que está escrito, não o que queríamos dizer (mas não dissemos).

Ao escrever, tudo nos parece tão claro que muitas vezes comemos frases inteiras ou ignoramos a ordem dos acontecimentos, falhando em imprimir uma cena marcante na experiência do leitor.

Quando criança, eu achava esse tipo de comentário ultrajante. Ainda me faltava habilidade e confiança para separar o que era uma crítica ao meu texto e o que era uma crítica à minha existência como escritor.

Nas oficinas de escrita criativa (e aulas de redação), percebo que esse é um risco grande. Meu padrasto e a professora de ontem não estavam interessados em destruir a minha identidade, mas sim em me mostrar melhores ferramentas para esculpir o texto.

Ontem vim para casa conversando com minha colega e refletindo sobre esse tipo particular de dor. Por não sabermos ouvir, tudo o que nos dizem soa como ataque. É uma reação de defesa, claro, uma tentativa de permanecer no controle de si e da situação. Ocorre que nunca estivemos (ou estaremos) verdadeiramente no controle, não importa o quanto acreditemos nisso.

No primeiro semestre da faculdade, ainda assustado com o mundo, tive um professor que foi extremamente crítico. Por não saber ouvir (e filtrar o que ouvia), parei de escrever por anos.

Ontem, na oficina de narrativa, as críticas me deixaram cheio de tesão.

O que mudou?

Ouvindo, tenho aprendido a duvidar de mim e do que sinto antes (ai, essa arrogância), durante (o medo de ser visto como incompetente) e depois (a aprendizagem é sempre um processo, não uma coisa definitiva que ouvimos uma vez e pronto) de escrever e de ser lido.