“Eu topo conversar desde que não tente mudar minha opinião”

Foto de CreaPark no Pexels

Meu irmão votou no Bolsonaro e eu me sinto triste sempre que lembro disso.

Quando descobri, visitando Porto Alegre para as festas de final do ano, não me percebi em condições de conversar a respeito e fiquei quieto. Lembrei de amigos que romperam relações com suas famílias por causa das eleições de 2018 e entendi que, mesmo chegando atrasado, eu estava num barco parecido.

Meses depois, pandemia acontecendo, finalmente juntei o fôlego que julguei necessário e puxei essa conversa com meu irmão. Ele de início disse “eu topo conversar desde que não tente mudar minha opinião”. O que entendi é que ele estava disposto a falar, mas não a escutar.

Digo isso porque para escutar de verdade, de coração, uma pessoa precisa estar disposta a estar errada, a se deslocar de suas posições, a reavaliar a si mesma e, por conta disso tudo, a reimaginar a forma como percebe o mundo. Não é possível escutar de verdade sem aprender algo que ainda não sabíamos. Se escuto para confirmar o que já sabia, estou atento mais às histórias que contava para mim mesmo do que para o universo que está se descortinando à minha frente.

Se não há escuta, também não há diálogo. Afinal, diálogo é troca, é vai e vem, mas se na interlocução só um está disposto a ir e vir, enquanto o outro só recebe, não é um jogo muito equilibrado. Só faz sentido dialogar se ambas as pessoas estão dispostas a construir algo juntas. Do contrário, é como tentar jogar xadrez com um pombo. Invariavelmente, o pombo vai derrubar as peças, cagar no tabuleiro e voar cantando vitória.

Me pergunto, inclusive, se quem está errado é o pombo “que não sabe jogar xadrez” ou eu que tento jogar com um pombo.

Não acho que pessoas sejam pombos. O que acho é que pessoas agem como pombos, ignorando as propostas do jogo e cagando vitória. Basta ver o primeiro “debate” presidencial entre Donald Trump e Joe Biden para entender do que estou falando. Com tempo, educação e interesses alinhados, creio que esses mesmos pombos poderiam ser enxadristas fabulosos. Preciso acreditar nisso para não perder minha fé na humanidade.

Porém, mesmo sem perder a fé, creio que talvez seja a hora de parar de tentar jogar xadrez com pombos. Talvez, mais importante do que isso, seja o momento de buscar outros enxadristas com os quais me conectar. Porque os pombos têm poder. Se os pombos não tivessem poder, eu estaria muito menos preocupado.