Um amigo conheceu um inglês, apaixonou-se e agora está morando no interior da Inglaterra com ele há alguns meses. Seu plano envolve casar-se e morar para sempre por lá como um legítimo cidadão inglês.
Ontem, enquanto conversávamos, descobri que ele precisará vir ao Brasil regularizar a situação de seu visto. Ao que parece, ele foi como turista e o tempo esgotou.
Em meio a essas burocracias, revelou estar preocupado.
Estaria fazendo as escolhas certas para a sua vida? Seria considerado um oportunista? Não seria melhor começar uma vida do zero no Brasil perseguindo outros sonhos?
Essas mesmas perguntas já me morderam a orelha em outras ocasiões.
A gente sempre sente um medo esquisito quando fazemos algo que não é convencional. O medo de ser diferente e por isso ser repreendido pela sociedade, pelos amigos, pelos pais.
Damos muita importância para o que os outros pensam e isso alimenta o monstrinho do medo que há em nós.

– Mais chá?”
Há duas coisas nessa história que me parecem fundamentais. A primeira delas é: nós vivemos a nossa vida, não a dos outros. Se o outros também não vivem a nossa vida (eles já têm as deles), então por que a opinião alheia é tão importante? Por que precisamos tanto de permissão para tentarmos buscar uma vida que faça mais sentido?
A gente aprende desde pequeno a se reportar aos outros. Aos pais, autoridade suprema da infância. Aos professores e dirigentes das escolas. Aos chefes nos empregos tradicionais.
É isso que uma vida convencional implica: obediência a padrões ditados pelos outros.
A triste realidade é que para muita gente a possibilidade de escapar dessa vida amarrada é quase nula. A fuga desses padrões demanda uma situação financeira e social mais tranquila, menos refém do controle dos outros.
No meu caso e no de meu amigo futuro-inglês, nós temos essa oportunidade. Seria certo deixá-la escapar por receio do que outras pessoas pensam?
A segunda coisa que considero fundamental a partir do que meu amigo falou é: nós temos apenas uma vida para viver.
Sim, a gente pensa o tempo inteiro como seria se fizéssemos as coisas de outro jeito. Contudo, isso não deve nos paralisar.
A vida que levamos é sempre fruto da exclusão de todas as outras possibilidades da vida. Todas. Tudo o que poderia ser diferente não está sendo.
Se por um lado isso é assustador (como saber se estamos vivendo a melhor vida possível?), por outro também nos liberta de uma pressão absurda e irreal. Não há como saber o que seria a melhor vida possível.
Só há como saber qual vida levamos, o que fazemos com ela e se estamos satisfeitos ou não com as nossas ações.
Caso estejamos, continuamos o ritmo. Do contrário, a gente muda.