Por que viver é como jogar

Era um sábado cinzento e, pela simples delícia de morar numa cidade com metrô, eu havia decidido que não pegaria ônibus. Esse foi o meu critério para decidir a programação do dia, pois estava entre uma festa de casa nova, um encontro com oficinas do povo empreendedor e uma exposição de caras pelados. Decidi pela exposição porque era ao lado do metrô.

Metrô Tales Vila Madalena

Uma amiga ia comigo, mas desistiu. Tudo bem, pensei. De acordo com a página da exposição no Facebook, pelo menos outros sete amigos estariam lá em algum momento da tarde/noite. Qual a probabilidade de eu ir e não encontrar ninguém?

O que Murphy, aquele cara pessimista que costuma estar certo nessas horas, diria? Pois é, cheguei lá e não conhecia ninguém. A exposição ia das 16h às 22h e eu cheguei às 17h – porque fiz força para não chegar mais cedo.

Aprendizado: chegar em eventos no horário em que as outras pessoas também chegam.

Tudo bem, fui lá, olhei os caras pelados, folheei vários zines, ouvi música, caminhei, olhei o povo, comi um cookie de parmesão com alecrim (uma grata surpresa de sabor e delícia) e… fiquei me sentindo sozinho.

O desafio

Veja, eu não tenho problema algum com pessoas peladas em fotos ou na vida real, olho, falo sobre e com, acho bonito e tal. Mas quando se trata de interagir sem motivo algum com pessoas que eu não conheço, eu travo. A ansiedade aos poucos foi subindo, me informando de que todo mundo ali já se conhecia, todos tinham barbas descoladas e casaquinhos modernosos e, portanto, eu não fazia parte daquela tribo (e, por derivação, jamais poderia fazer parte; caso tentasse, seria banido da existência para todo o sempre).

Los Chicos Clayton

Por outro lado, eu sabia que ficaria chateado comigo mesmo se voltasse para casa naquele instante, depois de ter passado apenas quinze minutos na exposição (e especialmente um ano depois de ter ido até a frente de uma galeria e ficado com medo de entrar porque eu teria que tocar a campainha para ser recepcionado).

Nesta hora, coloquei em prática uma técnica que aprendi: me perguntei “qual é o mínimo que eu preciso fazer para que esta visita à exposição seja um sucesso?”. O mínimo, nada exagerado, apenas o suficiente para que eu não ficasse mortalmente chateado por perder uma oportunidade legal de fazer o que quer que fosse. Decidi: eu precisaria falar com alguém.

Para alguém extrovertido, falar com alguém pode parecer algo simples. Para mim, significou ansiedade, suor, tremedeira e medo. Medo do que, eu não sei, mas eu tremia inteiro só de pensar que deveria falar com alguém. Comecei a pensar qual seria a pior coisa que poderia acontecer naquele momento, lembrando que nenhuma daquelas pessoas me conhecia e que havia uma grande chance de nenhuma delas me ver de novo na vida. Lembrei de um texto do Oliver Emberton, um dos caras que eu leio com mais gosto. Sobre falar com estranhos, ele escreveu:

“Mas o que eu digo?” Qualquer coisa que te aproxime do objetivo. Escolha algo. “Mas podem não gostar de mim!” Neste momento, nem sabem que tu existe. Conserte isso. Escolha algo.

Ninguém lá sabia que eu existia, então eu tinha pouquíssimas expectativas para superar. Isso me deixou um pouco aliviado, o suficiente para agir.

Entrando em ação

Olhei em volta e analisei os muitos grupos. Nenhuma pessoa estava sozinha, então falar com alguém individualmente estava fora de questão. Localizei um casal encostado numa parede. Eles estavam mexendo nos seus celulares, distraídos do entorno. Desafio definido.

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– Oi, tudo bem? Eu vim sozinho, não conheço ninguém e não queria ir embora sem pelo menos conversar com alguém. Podemos conversar? – vociferei tudo de uma vez, até tive que repetir para que me entendessem.

Em questão de minutos, estávamos conversando sobre ocupações, amizades e projetos de vida. Meu pequeno desafio foi vencido e uma noite de sábado que seria tediosa foi transformada em uma noite recheada de histórias novas.

Tenho um amigo que fala sobre autossabotagem, uma prática que envolve realizar pequenas ações cotidianas diferentes daquelas que estamos acostumados. No meu caso, que não costumo falar com estranhos, minha autossabotagem foi simples: falei com estranhos.

Eu não fiz os melhores amigos da vida, não ganhei uma proposta de emprego, nada disso. Talvez eu nunca veja de novo as pessoas que conheci neste sábado. E tudo bem, sabe por quê? Porque eu ganhei pontos de experiência para evoluir minha habilidade social, e isso seguirá comigo para a vida.

A vida como um jogo

Sou fã de roleplaying games (RPGs), ou “jogo de interpretação de papeis”. Eles podem ser jogados em volta de uma mesa, com várias pessoas imaginando aventuras, ou em versões computadorizadas. É uma experiência fantástica não só porque nos distrai da vida, mas também porque suas regras se aplicam à nossa vida.

Quando jogamos RPGs, com frequência começamos lidando com desafios simples, como tutoriais ou inimigos fracos. Isso acontece porque ainda não temos perícia suficiente para lidar com desafios e inimigos mais difíceis.

A cada desafio vencido, ganhamos pontos de experiência que nos fazem evoluir nossas habilidades. Isso torna os primeiros desafios gradativamente mais fáceis até o ponto da irrelevância. Afinal, chega um momento em que é tão fácil vencer um desafio que ele já não representa nenhum aprendizado para nós.

Essa curva é clara em desenhos animados japoneses, em que inimigos cada vez mais poderosos aparecem no caminho dos heróis. Um exemplo fenomenal é Dragon Ball Z, em que Goku enfrenta um adversário quase invencível, Raditz, que na verdade é nada perto dos inimigos seguintes, como Vegeta, Freeza e Cell, cada um deles absurdamente mais forte que os anteriores. Em determinado ponto da série, Trunks, um personagem que viajou para o passado a fim de mudar o destino da Terra, treina tanto que, quando retorna para seu mundo real (inalterado), derrota facilmente os androides que o levaram a viajar no tempo.

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Para mim, que sou um abobado social, falar com estranhos pode ser um desafio suficiente para me estremecer os joelhos. Nas próximas vezes que eu fizer isso, será sempre um pouquinho menos difícil, pois estou ganhando pontos de experiência nesta perícia. Eventualmente, chegarei ao ponto de não titubear antes de sair falando com estranhos, o que me apontará que dominei esta habilidade.

O mesmo vale para qualquer saber que desejemos: escrita, empreendedorismo, desenho etc. De início, quando não temos pontos de experiência nessas habilidades, todos os desafios nos parecem impossíveis. E serão, se tentarmos de cara enfrentar gigantes e dragões com nosso porrete meia boca. Contudo, se prepararmos nosso caminho com desafios menores e progressivos, eventualmente estaremos aptos a confrontar e vencer esses gigantes e dragões.

A autossabotagem de que meu amigo fala é útil porque modifica a nossa vivência costumeira. É a variação que nos desafia e, portanto, nos dá pontos de experiência. A repetição do que quer que seja só é desafiadora até que deixe de ser, e a tendência é que não demore muito.

Se a tua intenção é aprender a ser melhor no que quer que seja, exija sempre um pouco mais do que tu é capaz de fazer hoje. Essa é a forma mais inteligente de evoluir.

 

Agora me conta: quais habilidades tu tem treinado ultimamente? Deixa um comentário aí e vamos conversar :)

5 comentários em “Por que viver é como jogar

    • E pouco a pouco, a escrita vai saindo e a qualidade, aumentando :)
      O importante é aumentar o nível do desafio quando tu estiver confortável com tua perícia atual.

  1. Ainda aguardando pelo dia em que o seu texto me deixará sem fôlego, de tão intenso e visceral, em sua alegria ou tristeza, isso tanto faz… Talvez eu esteja lendo os textos errados, pois a essa altura vc já deve ter publicado algo em papel, mas algo me diz que ‘a voz’ ainda seria a mesma. O seu esforço é digno, mas os resultados ainda não me impressionaram. Não que vc escreva para impressionar alguém, mas é sempre bom sinal surpreender uma pessoa criteriosa/chata. Beijos e continue tentando…(talvez com mais raiva?!)

  2. Obrigado pelo texto, Tales. Era exatamente o que eu precisava ler. Acho difícil estabelecer contatos sociais relevantes e cultivar relações duradouras justamente por conta da minha ansiedade estratosférica. Sinto que agora tenho uma boa ferramenta para lidar com esse desafio.

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