Casa vazia

Hoje devolvi as chaves do apartamento que foi meu lar durante três anos e meio. Olhei-o vazio pela última vez antes de sair.

Já não havia ali dentro nada que fosse meu, que dissesse de mim.

As paredes estavam limpas, sem os desenhos e fotos que serviam de quadros improvisados. O corredor não tinha banquetas nem sofás. Na cozinha restou apenas a pia e as marcas no chão dos lugares antes ocupados pela geladeira, máquina de lavar e fogão.

Junto à zeladora, fui conferindo pedaço por pedaço do apartamento. Batente das portas? Sim. Espelho no banheiro, porta da sacada, armário. Sim, sim, sim. Ela conferia se estava tudo inteiro, eu resguardava as memórias. Aquele espelho grande em que cabiam meu namorado e eu escovando os dentes, o armário dividido entre nós, o balcão da cozinha que tantas vezes serviu de mesa para o jantar.

O apartamento que devolvi hoje sem dúvida não é aquele em que vivi tantas coisas felizes (e algumas poucas lacrimejantes) nos últimos anos. Entreguei as chaves de um lugar sem vida, sem alma, mas levo comigo o que esse tempo trouxe de lembranças e aprendizagens. Nesse apartamento (o meu, não o que devolvi à imobiliária), vivi pesquisa, amor, amizade, dor, inspiração, temor.

Uma casa não é simplesmente um espaço físico, ela é um baú de afetos. Estou hospedado na casa de um amigo, um lugar pelo qual tenho bons sentimentos e um amigo que certamente continuará comigo mesmo que não mais tão perto. Nossos encontros para cervejadas, iniciados há quatro anos, talvez agora se tornem mais esparsos, mas não deixarão de existir. Estar aqui de certa forma simboliza isso.

A casa vazia que entreguei hoje é um lugar de potencialidades para outras pessoas. Para mim, é um lugar do passado ao qual não cabe voltar, ao menos ainda não.

Continuo caminhando rumo à liberdade, seja lá o que for isso.

Ou onde.