Angústia, de Tchekhov

Eu participo de uma oficina literária às terças-feiras, mas ela entrou em recesso semana passada para retornar apenas em agosto. Como dois meses sem se debruçar sobre a prática compartilhada da escrita criativa seria tempo demais, nós oficineiros decidimos continuar os encontros das terças.

Ontem, portanto, tivemos o primeiro encontro do Lado B da oficina e lemos o conto Angústia, de Tchekhov. De acordo com a Wikipedia (e com meus professores), Tchekhov é considerado um dos melhores contistas de todos os tempos. Por essa razão, decidimos ler em conjunto e dissecar um texto dele.

À primeira leitura, é apenas a história de um cocheiro que tenta contar às pessoas sobre a morte de seu filho, mas ninguém lhe dá atenção. Algo simples e muito fácil de pensar e escrever sobre. O pulo do gato, porém, está nos detalhes, como costuma acontecer com a literatura. Encontrar esses detalhes ao mesmo tempo me deixa maravilhado e amedrontado frente à tarefa que decidi empreender como escritor.

Caso queira o conto para acompanhar esta pequena análise, peça-o nos comentários e o encaminharei por e-mail.

Iona, o cocheiro, é um sujeito animalizado. Nenhum outro ser humano está disposto a conversar com ele, a ouvi-lo e entendê-lo. Tchekhov nos mostra isso não através de uma dica simples “ninguém ouvia Iona”, mas por meio de duas estratégias narrativas.

A primeira é a comparação constante que ele faz entre Iona e sua égua. Em inúmeros parágrafos, ambos são apresentados com características e movimentos semelhantes, estabelecendo uma paridade entre ser humano e equino.

O segundo “truque” que Tchekhov utiliza tem a ver com a curva dramática, a subida da experiência emocional experimentada pelo leitor conforme nos aproximamos de Iona: a cada novo contato humano, o “nível” da personagem diminui. Primeiro Iona tenta conversar com um militar, que o ignora. Isso seria compreensível pela diferença social entre os dois personagens. Contudo, em seguida Iona tenta falar com três jovens, um dos quais é um corcunda, e também não encontra sucesso. A situação piora quando ele é ignorado por um outro cocheiro, ainda por cima mais moço. Ou seja: Iona é desumanizado contato após contato e não por conta de sua classe social. A única criatura que lhe dispensa alguma atenção e aparente afeto é a égua, que lhe aquece as mãos com o bafo.

Sobre a construção do personagem, temos quase nenhuma característica física de Iona sendo descrita, mas não faz falta. O que nos importa é a construção psicológica de Iona, um sujeito achatado pela experiência da morte do único filho homem, e o seu lugar social como alguém que não merece atenção.

Isso nos leva aos conflitos em sua vida. Seu conflito interno é a incapacidade de lidar sozinho com a morte do filho, a necessidade de verbalizar o ocorrido, conversar sobre a dor, processá-la através do diálogo. O conflito externo se dá quando ninguém decide se dar o tempo para ouvi-lo e compreendê-lo, ninguém se compadece e decide chorar junto. Sendo Tchekhov um mestre da narrativa, conflito interno e externo se somam para construir uma história coesa, em que todos os elementos participam da construção de um conto sobre a falta de empatia entre os homens.

Após a leitura, fiquei matutando sobre a minha própria escrita. Tchekhov me sugere a escrita em camadas, em que a história é apenas uma parte do que está sendo contado. Sim, uma parte importante, mas não a única, tampouco a mais importante. Sem as relações que o escritor construiu entre cocheiro e égua e sem o crescimento dramático no contato com os demais personagens, a experiência emocional produzida teria sido diminuída e o conto, perdido seu impacto.

Quando escrevi meu mais recente conto, senti que algo estava faltando. Acho que Tchekhov acabou de me ensinar o que era.

4 comentários em “Angústia, de Tchekhov

  1. OI tales!!! eu quero o conto do Tchekhov antes de ler o seu texto sobre ele, para não me influenciar! heheheh
    v pode me manda-lo?

    valeeeu

  2. Eu também quero, mas eu já li teu texto porque sou desses que gosta de ler a análise da obra antes de ver a obra. Hahaha

    Só tem uma coisa: eu sempre penso que essas análises que a gente faz sobre um texto, interpretações e tal, quase nunca estão na consciência do escritor. Quando alguém me pergunta sobre o sentido de eu ter colocado isso ou aquilo no meu texto eu sempre respondo:
    – Deixo isso para o leitor e os estudantes de letras!

    Claro que tem uma base consciente de quem cria, no entanto eu sempre desconfio que não é a maior parte do pensamento de quem escreve a história.

    • Te enviei por e-mail.

      Sobre as análises, bem, eu não sei. O modo como a linguagem é trabalhada pode ser inconsciente, mas também pode ser fruto de engenhosidade. O mais provável, sempre, é que seja uma mistura de ambos. Seja como for, compreender o que o texto de fato é, independente de ter sido planejado ou inspirado pelas musas, vira repertório para o nosso planejamento ou comida para as nossas musas. =)

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