Abraço coletivo

Minhas quartas pela manhã são marcadas por reuniões com pessoas incríveis para conversar sobre maneiras alternativas de se conhecer, empreender e viver. Esses encontros acontecem no Estaleiro Liberdade, sobre o qual escrevi recentemente, e têm me convidado a repensar posturas frente a vida.

Uma das situações mais marcantes até agora foi o abraço coletivo, que se tornou agora uma piada pronta comigo junto aos colegas do Estaleiro. Eu ainda não entendo pessoas que precisam de abraços coletivos para encontrarem força, carinho ou algo assim. Nunca me dei bem com esse tipo de exposição e intimidade massiva (o que é irônico vindo de alguém que escreve sobre a própria vida em blogs há oito anos).

Não é por nada que este é o título do texto de hoje: hoje me parei a pensar no significado do abraço coletivo e me dei conta de que ele não tem nada a ver comigo.

Não que eu seja melhor do que quem abraça coletivamente ou pede abraços conjuntos, nada disso. Eu não seria tão arrogante assim em público.

O ponto é: o abraço tem tudo a ver com quem pede para ser abraçado. Eu, de fora, participante do grupo, posso me melindrar com o pedido, posso julgá-lo improcedente, posso achar o que eu quiser, mas isso seria apenas demonstração de estupidez minha.

Se abraçar não fizer sentido, basta eu não abraçar.

Todo o resto é cretinice.

Quem pede o abraço é que importa. No Estaleiro, quando uma colega não conseguiu falar de si senão abraçada pelos colegas, era a dificuldade dela que estava em jogo, não o meu estranhamento. Seria muito egoísmo da minha parte querer que o meu estranhamento fosse mais importante, naquele momento, do que a necessidade dela.

E isso independe de eu entender as motivações da colega para pedir o tal abraço.

Se o abraço não tem nada a ver comigo, mas com a pessoa que pede, aí entra outra questão: o que fazer quando alguém requer o conforto do meu calor, ou do calor de várias pessoas ao mesmo tempo? Eu recuso porque não faz sentido para mim, ou eu concedo mesmo sem entender, porque para a outra pessoa faz sentido?

Sendo a proposta só fazer aquilo que faz sentido para mim, talvez o caminho seria não participar. Entretanto, não participar seria fechar uma porta de contato, uma maneira de me conectar que ainda não compreendo, mas que me inquieta. Mais do que isso, seria negar conforto à outra pessoa, negar algo simples e fácil de oferecer.

Para algumas pessoas, o abraço é algo tão natural, tão possível. Eu não fui criado assim, o que não significa que não posso experimentar esse mundo estranho e descobrir seus sabores. Isso só se faz de coração aberto.

Eu quero entender o que há por trás do abraço.

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Há alguns anos, conheci duas moças muito legais. Nós não éramos propriamente amigos, ainda, apenas colegas de curso (eu de mestrado, elas de doutorado). Em uma noite fria, estávamos conversando ao ar livre. Uma das moças comentou que estava com frio. Sem pensar, eu a abracei para esquentar. Ela sempre me diz que foi naquele momento que passou a gostar de mim.

Talvez aí esteja a resposta que eu procuro: o abraço é um carinho, um mimo, uma forma de dizer “estou cuidando de você”. Será que quando um grupo abraça uma pessoa, o grupo diz “estamos cuidando de você”? Será que quando alguém pede um abraço, coletivo ou não, está perguntando “você cuidará de mim?”?

Um abraço é uma forma de se entregar a outra pessoa, de se colocar à mercê. Abraçados ficamos indefesos, mas isso não é um problema porque o abraço costuma funcionar como um escudo emocional (além de ser quentinho).

Por trás do abraço há a emoção, algo que ainda é muito estranho em minha vida, algo que estou em busca de aprender a viver mais e mais. Como tudo aquilo que começo a aprender, não sei direito por onde começar, mas sinto que estou no caminho certo. Pois que venham novos abraços!

Um comentário em “Abraço coletivo

  1. Por que insistimos sempre em ter um “porquê”, para tudo ? Um abraço pode ter vários significados e isso, creio, depende do momento, da situação em sí. De qualquer forma um abraço é mais do que qualquer coisa uma doação. Doamos carinho, compreensão, gratidão….No caso desses encontros funciona como um abraço de compartilhamento de idéias e expressões. Um abraço não precisa necessariamente envolver um comprometimento com outra pessoa, mas quem sabe uma doação espontânea da tua compreensão, da tua atenção ou simplesmente do teu calor humano…

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