Um estranho no lago

Assisti a Um estranho no lago e fiquei com uma mistura esquisita de pensamentos e sentimentos. O filme aborda um lago de nudismo no qual homens tomam sol e praticam a milenar arte da pegação.

Terminei a história pensativo.

Vou evitar spoilers maiores, mas a história gira em torno de três personagens: Franck, que passa os dias no lago procurando sexo, Henri, que fica distante apenas observando, e Michel, um sujeito misterioso.

Nos 100 minutos do filme, tive a oportunidade de refletir sobre as diferenças entre o cinema norte-americano e o francês, como isso pode reverberar no texto escrito, e sobre minha própria experiência como sujeito LGBT.

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Um filme com tempo para pensar

Assistir a Um estranho no lago é uma experiência esquisita para quem está acostumado com o cinema norte-americano. Em todos os momentos nos quais eu aguardava por uma reviravolta ou música de susto, nada acontecia.

Em outras palavras, o filme é lento.

Um exemplo é a cena em que Franck está nadando e nós o seguimos durante pelo menos um minuto, braçada por braçada. Nesses momentos, inevitavelmente me peguei pensando sobre a história, sobre coisas minhas, sobre muitas coisas enquanto aparentemente nada acontecia.

Essa lentidão, embora diferente do que estou acostumado a digerir, se mostrou fascinante. Mesmo nos momentos “chatos”, parados, eu estava lá atento, sentindo o filme. Sem dúvida alguma fui tocado por ele.

A minha pergunta é: o efeito seria o mesmo caso a história fosse frenética? E, se filmes voltados aos sentimentos se beneficiam de um tempo extra para a imersão, como isso pode ser transferido para a literatura? Parágrafos longos, recheados de informações, lotados de descrições, ações, reviravoltas…

Ou um suspiro profundo?

Os estranhos no lago da vida

Eu não entendo nada de relacionamentos heterossexuais (minhas amigas que o digam). Ponto. Sobre relacionamentos homossexuais, por outro lado, eu tenho alguma experiência e por isso afirmo: o filme retrata com alguma fidelidade a maneira como muitas relações se constroem.

O lago pode muito bem ser a internet.

Vários homens interessados em sexo, uns atraentes e portanto mais visados, outros não tanto e por isso com a chance de ganhar sexo apenas pela insistência, uns que desejam só amizade e outros que reservam perigos.

Enquanto caminho pela Avenida Paulista, observo as pessoas e penso que a qualquer momento minha integridade física pode ser ameaçada. Alguém pode querer me assaltar, claro, mas também alguém pode querer me jogar pedras, me xingar, falar mal de mim por eu não ser machinho.

Assistindo ao filme, me peguei pensando nos perigos que existem em viver o mundo, em conhecer outras pessoas. Cada pessoa é um universo, como escrevi ontem, mas nem todo universo está aí para somar. Alguns são como buracos negros esperando a oportunidade para nos anular.

Esse é um pensamento negativo, eu sei.

Prefiro acreditar que coisas mais felizes cruzarão o meu caminho, mas adianta ignorar os perigos de estar vivo? Prometi não falar que tenho medo, mas eu terminei Um estranho no lago com uma genuína sensação de temor. Um pensamento dolorido de que podia ser eu.

4 comentários em “Um estranho no lago

  1. Apenas uma constatação: São Paulo realmente deixa as pessoas com mais medo.
    Achei que fosse só comigo, mas olha aí tu descrevendo meus temores, do mesmo jeito, só que em outro contexto.
    Intrigante isso, cara.

    Bem, se quer saber um lado bom: estou achando Porto Alegre tão pacata e pequena que caminho pelas ruas sentindo medo de nada. Caminhei por lugares que eu me preocuparia antes… mas agora, em comparação, parece que não há o que temer. Muito boa essa sensação.

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