Sobre pessoas que agem para impedir

Kathrine Switzer na Maratona de Boston de 1967

Vi essa imagem no perfil do Instagram do The Female Lead. Ela é um registro do momento em que Kathrine Switzer corria na Maratona de Boston de 1967, uma época em que mulheres não podiam correr em maratonas nos Estados Unidos (segundo a Wikipedia). O homem na imagem tenta segurá-la e removê-la da corrida.

Essa imagem mobilizou uma série de coisas aqui dentro de mim e escrevo agora para dar sentido a elas.

Fico indignado ao enxergar essa imagem porque ela é mais um registro de pessoas ativamente se deslocando para interromper outras vidas em nome da manutenção de um status quo que limita acessos.

Essa imagem é de 1967 e ainda é tão atual porque continuo vendo pessoas agindo com a intenção de limitar o que outras pessoas podem viver por conta de uma miríade de fatores: gênero, raça, orientação sexual, habilidade etc. Esse não foi, portanto, um caso isolado.

Ao que parece (ainda segundo a Wikipedia), só em 1972 a Maratona de Boston ganhou uma categoria feminina e só em 1984 os Jogos Olímpicos passaram a incluir a participação de mulheres na corrida.

Lendo sobre o caso, encontrei uma descrição do homem como uma pessoa violenta. Sim, há ali um ser humano particular, indivíduo, com suas próprias questões e ambições e devaneios e sonhos. Entretanto, não quero perder de vista que ele é um sujeito parte de uma sociedade maior, que ensina e incentiva certos comportamentos.

Recordo dos meus tempos de escola uma situação em que a professora havia saído da sala e ordenado que todos continuassem sentados. Um colega – cujo registro na minha memória está como “desordeiro” – levantou-se e foi rumo ao quadro negro na frente da sala. Enquanto ele caminhava, diversos outros colegas o agarraram, tentando impedir seu movimento. Se recordo bem, eu estava torcendo para que ele fosse imobilizado e denunciado à professora tão logo ela retornasse, por perturbar a ordem social daquela sala. Naquela época, com algo entre dez e treze anos, eu já era um agente da preservação do status quo.

(Sobre isso, tenho refletido bastante onde e quando foi que esse tipo de pensamento conservador falhou comigo…)

Olhando para a situação com uma lente estrutural, há um marcador de gênero que é evidente: o fato de Kathrin ser uma mulher é o que potencializou todo o ocorrido. Machismo não acontece sozinho, é claro. Ele é produzido e apoiado por uma série de outras ideologias que tornam possível alguém achar que faz sentido entrar numa corrida e interromper o percurso de uma pessoa. Atuar sobre a vida de outras pessoas é, afinal, uma decisão e ação política.

Da forma que sonho o mundo, me interessa encontrar maneiras de criar mais acesso e possibilidade para que pessoas se envolvam e se integrem a quaisquer atividades que façam sentido para elas.


Este texto nasceu de um impulso. Compartilho isso para explicar que talvez ele não esteja inteiramente coerente, amarradinho, e por mim tudo bem. Quis tirar isso do peito para conseguir clarear meus pensamentos, além de compartilhar para que talvez isso vire outras conversas. Obrigado pela leitura.