Racismo no Carrefour

A man takes a picture next to a banner that’s reads: “Justice. Beto lives”, after Joao Alberto Silveira Freitas was beaten to death by security guards at a Carrefour supermarket in Poro Alegre, Brazil, November 20, 2020. REUTERS/Diego Vara – RC227K95CGDL

“João Alberto Silveira Freitas, 40, foi espancado e morto na noite de quinta-feira (19) por dois seguranças de uma unidade do supermercado Carrefour em Porto Alegre. Homem negro, ele morreu sob as vistas de testemunhas e teve seu assassinato filmado na véspera do Dia da Consciência Negra.” (Folha de São Paulo, 20 de novembro de 2020).

Recorri à notícia do jornal porque descrever a cena ainda é difícil para mim. Misto de revolta e desesperança bagunçam meus pensamentos, não só pelo assassinato como também pelo que o envolve. Quero apontar algumas reflexões a partir deste caso, destacando que estão em processo e abertas ao diálogo.

“Quem faz isso é monstro”

Minha tia disse isso após ver a notícia. Opto por pensar sobre a situação por um outro viés. Quando chamo alguém de monstro, estou desumanizando quem cometeu a atrocidade. Embora eu esteja interessado em cuidar da humanidade dos seguranças que assassinaram João Alberto, me importa ainda mais aqui observar o que acontece quando transformo o racismo em uma “coisa de monstro”: ele sai da esfera cotidiana, deixa de ser algo que você ou eu poderíamos fazer. O monstro é o outro, é o diferente, é aquele que tem algo de desajustado.

O perigo que vejo em considerar os assassinos de João Alberto como monstros é que isso me deixa seguro para avaliar suas atitudes pela minha bússola moral e para não me contaminar. Eu não sou como eles, eu sou humano, eu sou decente, eles são monstros. Acho isso um perigo porque acredito que a realidade seja mais complexa do que isso.

Se tratamos a ocorrência como resultado de uma maldade, desajuste ou “monstruosidade” dos assassinos, fica fácil ignorarmos que esses homens são parte de um sistema maior do qual eu também faço parte. Mais sobre isso a seguir.

“Não há indícios de racismo”

Enquanto assistia ao jornal na televisão, alguém da polícia foi consultado e mencionou que “não havia indícios de racismo”. Quais são os indícios que essa pessoa estaria procurando? Os seguranças gritando impropérios, xingamentos, anunciando que estavam agindo como agiram porque o alvo era preto?

Parece-me necessário perceber que racismo não é sempre uma bandeira consciente, declarada. Nossa sociedade é marcada pelo racismo estrutural, o que significa dizer que nossas instituições são manchadas por um tipo de pensamento colonialista e escravocrata que sistematicamennte recusa, ou no mínimo dificulta, o mesmo tratamento a pessoas diferentes por conta de como sua cor de pele é lida.

Fica no campo do imaginário, mas duvido que um homem branco fosse tratado da mesma maneira que João Alberto foi. Infelizmente é fácil encontrar outros casos em que corpos marginalizados, de minorias, foram abusados e atacados dessa maneira. Negros, mulheres, gays, pessoas trans.

“Ele nem era negro”

Ainda no campo da negação do racismo, ouvi familiares dizendo que “ele nem era negro, era… mulato, clarinho”. Embora o racismo possa chegar em diferentes níveis de acordo com o tom da pele das pessoas, por que é mais fácil negar a negritude de João Alberto do que reconhecer que somos racistas e que enquanto sociedade seguimos permitindo que isso aconteça?

“Esses caras têm que ser punidos”

Diante das imagens e da evidência do assassinato de João Alberto, vejo clamores para que os dois homens e também pelo menos a funcionária do Carrefour que ameaçou “queimar na loja” o moço que estava gravando sejam punidos, como se a punição deles resolvesse alguma coisa.

Essa situação individual precisa ser pensada estruturalmente. Não apenas no contexto do supermercado (sobre o qual falarei a seguir), mas de sociedade como um todo. Como foi possível que isso acontecesse? Quais são as condições que tornam possível uma execução pública como essa em 2020?

A ideia de punição visa tirar de circulação essas pessoas, como se fossem “frutas podres”. Será que funciona simplesmente punir? E se funcionar, funciona para o quê, exatamente? Talvez acolha algum “senso de justiça”, mas as condições de produção do assassinato continuam sem cuidado.

A morte de João Alberto é uma ferida comunitária. O que pode a punição, na forma de demissão e cadeia, fazer para cuidar dessa ferida comunitária?

Os homens que mataram João Alerto foram ensinados dentro de uma cultura muito específica que é, entre outras coisas, violenta. Que enxerga vidas negras como tendo menos valor. Que julga que “bandido bom é bandido morto” e que equivale bandido com negro. Enquanto não descosturarmos esses conceitos, o extermínio de vidas negras continuará acontecendo (junto com a violência sobre mulheres, sobre LGBTQIA+, sobre índios etc.).

Observe que não estou dizendo, de forma alguma, que as pessoas envolvidas não devam ser responsabilizadas. Pelo contrário, estou apenas aumentando o número de pessoas envolvidas. Sim, foram os joelhos de dois homens que asfixiaram João Alberto, mas também foram as palavras da funcionária do Carrefour, as notícias, os professores, a polícia, o sistema de justiça e tudo o mais que compõe nossa cultura racista.

“A empresa precisa se responsabilizar”

“Não grava isso porque senão vou queimar você na loja”, disse a funcionária. Carrefour é apenas uma ficção, uniforme, emprego, empregado, patrão, tudo isso são ficções que usamos para dar sentido às nossas vidas cotidianas. Que a qualquer momento uma ficção dessas tenha se tornado mais relevante do que intervir no assassinato de um homem é algo que me preocupa demais.

Sim, e responsabilizar não é apenas punir, tampouco apenas oferecer dinheiro para a família de João Alberto.

Se responsabilizar é agir, agora e sempre, para que injustiças e intolerâncias não tenham espaço e possam ser trabalhadas, consertadas, dialogadas.

Entretanto, considero ingenuidade esperar que uma empresa faça isso a contento porque ela existe dentro e é produto de um sistema capitalista, cuja base de funcionamento é a desigualdade e o sofrimento de um número grande de pessoas. O que é bizarro nesse caso é que todas as pessoas que trabalham dentro daquela loja são vítimas do capitalismo e, ainda assim, desempenham seus papéis de algozes uns dos outros.

Isso não quer dizer que não possa, aliás que não deva, haver um esforço contínuo para que essa realidade mude. Se o Carrefour vai fazer isso ou se vai publicar algumas notas de repúdio, demitir umas pessoas, trocar uns contratos e fingir que nada nunca aconteceu, é outra história. Como esse não é o primeiro caso em que o Carrefour está envolvido em atrocidades, acho que já dá pra imaginar que o tipo de “responsabilização” que está por vir será de pouco impacto.

“Ele bateu numa mulher antes”

Primeiro, não importa. Segundo, não há evidências nem testemunhas, nos muitos vídeos disponíveis no caso, de que isso tenha acontecido. De volta ao primeiro: não importa.

A lógica da punição é o que permite um argumento desses ser enunciado. “Se ele bateu, merece apanhar”, e seguimos essa lógica enquanto nos intitulamos bons e puros. É a mesma lógica de quem discursa contra corrupção e mente no imposto de renda, diz que tem deficiência física para conseguir desconto na compra do carro, fura fila.

Errados são os outros, quem tem que ser punido são os outros, e assim a gente segue numa lógica que é, no mínimo, hipócrita.

“Manifestar tudo bem, mas destruir propriedade já é demais”

Em algumas das manifestações realizadas no país em virtude do assassinato de João Alberto, pessoas atearam fogo em supermercados Carrefour. Dentro de um sistema capitalista, em que dinheiro muitas vezes é o principal fator que importa na tomada de decisões de pessoas que têm poder, entendo a depredação como um ato muito pertinente.

A lógica capitalista que permeia nossas reflexões, vale lembrar, é tão insidiosa que muitas vezes ficamos mais indignados com a destruição de patrimônio do que com a violência sistemática contra seres vivos.

Isso dito, acho importante considerar que uma loja aqui e outra ali dificilmente será um dano real ao poder manifestado pela marca Carrefour. Meu receio é que pessoas comuns, que trabalham e muitas vezes dependem de seu emprego, acabem prejudicadas com essas atitudes. Esse é um caso em que não vejo solução, pois haverá sofrimento de qualquer forma e é difícil pra mim hoje dizer se a violência estrutural cotidiana e acostumada é de alguma forma menos impactante do que, digamos, uma perda de emprego porque seu local de trabalho foi incendiado em protesto.

Como de costume, quem paga o preço costuma ser quem está na base da sociedade.

“Pessoas feridas ferem pessoas”

Ainda na lógica de não tratar os homens que mataram João Alberto como monstros desumanizados, concordo com essa ideia: “pessoas feridas ferem pessoas”. Na prática, isso significa que há sofrimento também na vida de quem atravessa as existências de outras pessoas e que é importante olharmos para isso para que possamos cuidar de reparar também as condições de produção das violências que por ventura eles perpetaram.

Isso dito, hoje considero delicado, para não dizer irresponsável, fazer essa afirmação desconectada de um olhar mais amplo, sistêmico. Pessoas são feridas continuamente pelas estruturas socioculturais nas quais vivemos e sob as quais fomos submetidos desde antes de nosso nascimento.

É nesse ponto que percebo uma das limitações da comunicação não violenta como ela foi desenhada até o falecimento de seu sistematizador. A mudança que precisamos para que pessoas deixem de serem feridas é estrutural, não apenas interpessoal. Escuta, empatia, carinho e cuidado são importantes e podem contribuir com a vida, mas acredito que precisamos de um movimento político consciente que traga a compaixão como um valor essencial para como as coisas funcionam.

Essa não é uma possibilidade dentro do capitalismo.

“Se fosse nos Estados Unidos, você estaria publicando ‘Black Lives Matter’ em sua rede social”

Além de racismo, há outras forças em jogo tornando algumas vidas mais relevantes que outras no cenário mundial. Além de ser negro, João Alberto é brasileiro, um país “de terceiro mundo” cujas manifestações do racismo estrutural são muito mais intensas do que em diversos outros países, inclusive nos Estados Unidos.

A realidade é complexa e atravessada por marcadores sociais, discursos e narrativas diversas. Olhar o caso individual é essencial e insuficiente.